Desigualdade e herança do apartheid geram onda xenófoba na África do Sul

Ataques contra estrangeiros deixam dez mortos e causam crise diplomática

Diana Lott
São Paulo

Em poucos minutos, um grupo de pessoas armado com bastões de madeira e ferro arromba a porta de uma loja, invade o local e saqueia toda a mercadoria. 

Os ataques, que a princípio pareciam crimes comuns, desembocaram em uma série de mortes, prisões em massa e incêndios com fundo político.

A onda de violência xenófoba perpetrada por sul-africanos contra imigrantes africanos na última semana deixou ao menos dez mortos e mais de 420 presos.

seis pessoas negras deitadas de bruços no chão da rua; policial vestido com equipamento de segurança ao fundo
Residentes de Katlehong, em Joanesburgo, deitam no chão durante prisão na quinta-feira (5) por envolvimento na onda de violência que atinge a África do Sul - Michele Spatari - 6.set.2019/AFP

Os primeiros episódios começaram no fim de agosto, em subúrbios de Pretória, capital administrativa do país, e se estenderam a Joanesburgo, a capital comercial. Centenas saquearam e queimaram lojas que seriam de propriedade de estrangeiros.

Cyril Ramaphosa, presidente do país, afirmou em um pronunciamento na TV nesta sexta (6) que oito dos mortos eram sul-africanos. “Não há desculpas para os ataques a lares e negócios de estrangeiros nem para a xenofobia", disse.

Mais cedo, a ministra das Relações Exteriores, Naledi Pandor, reconheceu que as agressões, a maioria delas cometidas por negros, foram motivadas por “afrofobia” contra imigrantes africanos que moram no país.

Até então, as autoridades tratavam o ocorrido como uma onda de crimes sem motivações políticas.

À primeira vista, a rejeição de negros de outros países pelos negros sul-africanos pode parecer contraditória —afinal, trata-se do grupo que por anos lutou contra a opressão da população branca durante o apartheid.

No entanto, para Ivan Katsere, professor e pesquisador de linguagem política da Universidade da Cidade do Cabo, os motivos por trás da série de ataques estão justamente ligados à herança desse período de segregação racial.

“Durante o apartheid, os negros internalizaram o racismo direcionado a eles, e agora fazem o mesmo com outros negros”, diz. “Se sou negro e falo inglês fluentemente, sou criticado e chamado de ‘coco’: negro por fora, mas branco por dentro. Quanto mais escura for a sua pele, maiores as chances de você ser atacado.”

Para o acadêmico, o racismo estrutural criado pelo regime também é determinante para os acontecimentos recentes. 

“Os negros ainda vivem nas áreas [periféricas] que foram demarcadas para eles, assim como os brancos ainda vivem nas áreas centrais”, afirma Katsere, que considera que o fim do apartheid não trouxe a igualdade social imaginada pelos negros em 1994.

Dados oficiais de maio mostram que os negros correspondem a 46% dos desempregados, contra apenas 9,8% dos brancos —quase um terço (28%) da população da África do Sul está sem trabalhar. 

Nesse cenário, a falta de empregos serve de combustível para o discurso nacionalista de que estrangeiros estariam roubando vagas dos nativos.

Segundo Loren Landau, professor da Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, os confrontos que marcaram o período do apartheid ecoam ainda hoje: acabaram por normalizar ações violentas como as ocorridas nos últimos dias. 

“Nos anos 1980, as pessoas que se mobilizavam politicamente usavam a violência porque elas não tinham o direito de participar do processo político de nenhum outro jeito”, diz. “Ela é uma forma de tomar o controle do que acontece. Uma pessoa não faz isso por meio do voto, mas contra-atacando.”

A frustração da população negra sul-africana com a situação econômica e a desigualdade social não superada nos últimos 25 anos transbordou depois de dois eventos marcantes deste ano. 

Em janeiro, a polícia realizou uma série de apreensões de produtos falsos em pequenos comércios, a maioria pertencente a imigrantes, o que aumentou o sentimento de suspeita e reforçou o discurso generalizador de que os estrangeiros seriam criminosos. 

No segundo episódio, no fim de agosto, um motorista de táxi foi morto em um confronto com traficantes de drogas, em Pretória. Na internet, circularam boatos de que o autor do crime seria nigeriano.

​​As redes sociais também influenciam a onda de violência e são usadas não só para disseminar notícias falsas mas também para marcar local e horário dos ataques.

 

Uma das mensagens compartilhadas nos últimos dias traz um vídeo de crianças correndo em pânico de uma escola em chamas em Katlehong, município a 35 km de Joanesburgo, e afirma que os autores do incêndio seriam imigrantes somalis.

O secretário de Educação da província de Gauteng, onde fica a instituição, desmentiu o relato.

“Há muito preconceito e estereótipos no discurso que os políticos e a mídia usam para se referir a imigrantes. Tem acontecido um movimento de bode expiatório”, diz Katsere.

Tanto o presidente Ramaphosa quanto o prefeito de Joanesburgo, Herman Mashaba, recorreram a discursos anti-imigração em suas campanhas eleitorais neste ano. 

A onda de violência gerou forte reação internacional. 

Na Nigéria, redes de varejo sul-africanas foram alvo de violência e saques. As representações diplomáticas do país na capital nigeriana, Abuja, e em Lagos foram fechadas após o corpo diplomático receber ameaças.

O país, junto a Maláui, Ruanda e República Democrática do Congo, decidiu boicotar o Fórum Mundial Econômico que teve início na quarta-feira (4), na Cidade do Cabo.

Ramaphosa esperava usar a ocasião como uma vitrine para seus esforços de melhorar a economia sul-africana, mas o evento, esvaziado pelos cancelamentos, acabou se tornando uma saia justa para o seu governo.

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