Descrição de chapéu The Washington Post Governo Trump

Como funciona a transcrição das conversas de presidentes dos EUA

É improvável que telefonema entre Trump e presidente da Ucrânia tenha sido gravado, dizem especialistas

Meagan Flynn
Washington | The Washington Post

A promessa feita pelo presidente Donald Trump na terça-feira (24) de divulgar uma transcrição bruta e não censurada de sua ligação telefônica com o presidente da Ucrânia não satisfez os democratas da Câmara de Deputados, já que a presidente da casa, Nancy Pelosi, da Califórnia, prosseguiu com um inquérito de impeachment.

As perguntas dos críticos ressoaram o dia inteiro: por que não dar ao Congresso simplesmente a queixa completa feita depois por um denunciante, em parte por causa dessa ligação?

Como saberemos que a transcrição bruta de Trump não será como a do presidente Richard M. Nixon —incompleta e, em alguns casos, imprecisa?

Ao contrário de Nixon, especialistas que trabalharam em governos recentes dizem que é improvável que Trump tenha registros para se verificar sobre discrepâncias na transcrição bruta, mas provavelmente haverá muitas testemunhas da ligação que poderiam atestar sua precisão.

Larry Pfeiffer, ex-diretor sênior da Sala de Situação da Casa Branca para o presidente Barack Obama de 2011 a 2013, descreveu em entrevista ao jornal The Washington Post como é feita uma transcrição de telefonema presidencial com um líder estrangeiro.

Os presidentes de Ucrânia, Volodimir Zelenski, à esq., e EUA, Donald Trump, em entrevista coletiva em Nova York
Os presidentes de Ucrânia, Volodimir Zelenski, à esq., e EUA, Donald Trump, em entrevista coletiva em Nova York - Jonathan Ernst/Reuters

Pfeiffer disse que há um número de pessoas envolvidas que tornaria "tolo" o governo não divulgar exatamente o que Trump prometeu: "a transcrição completa, totalmente liberada e não editada".

"Se eles divulgarem algo que não pareça uma transcrição literal", disse Pfeiffer, que também passou cerca de três décadas na Agência de Segurança Nacional e na Agência Central de Inteligência, "há um punhado de pessoas envolvidas nesse processo que poderiam ser testemunhas de fato sobre se o que foi divulgado é o que realmente foi dito".

Durante os dois anos em que Pfeiffer chefiou a Sala de Situação (espaço de sete salas altamente monitoradas no subsolo da Casa Branca), organizar os telefonemas com líderes estrangeiros nos bastidores era uma de suas principais responsabilidades.

Ele era o homem que se sentava na ponta do sofá no Salão Oval, pronto para fornecer qualquer suporte técnico caso algo desse errado.

Ele esperaria Obama sinalizar que estava pronto para atender a chamada e, por sua vez, disse Pfeiffer, notificaria os funcionários que transcreveriam a conversa na Sala de Situação. Dependendo da ligação, Pfeiffer disse que normalmente designava dois ou três deles.

"Esses rapazes e moças ficavam seriamente martelando o teclado, tentando captar a ligação da melhor maneira possível", disse Pfeiffer, hoje diretor do Centro Michael V. Hayden de Inteligência, Política e Segurança Internacional na Universidade George Mason.

"No final da ligação, essas duas ou três pessoas se reuniam, comparavam suas transcrições e apresentavam uma transcrição unificada."

Ele disse que quando começou na Sala de Situação perguntou a seu antecessor por que eles não simplesmente gravavam os telefonemas em vez de passar por todo o problema dessa transcrição acelerada.

"A resposta que recebi foi: 'Oh, Deus, não. Eles não gravam as ligações desde o início dos anos 1970'", lembrou Pfeiffer. Depois disso, ele disse que não sentiu necessidade de perguntar mais nada.

Quando a equipe de transcritores termina seu trabalho, explicou Pfeiffer, a transcrição era enviada à diretoria do Conselho de Segurança Nacional, que tinha conhecimento em primeira mão dos assuntos que o presidente pode ter discutido com líderes estrangeiros.

Eles corrigiam a transcrição para fins de precisão e faziam edições para dar eloquência e clareza —ou, às vezes, simplesmente reduziam toda a transcrição a um breve resumo, disse Pfeiffer.

O que quer que eles decidam fazer, o documento se tornará o memorando final e o registro oficial do telefonema, afirmou Pfeiffer.

Outros afirmam que nenhuma transcrição precisa é mantida pela Casa Branca, como disse um ex-diretor sênior do Conselho de Segurança Nacional ao Wall Street Journal.

Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores, disse no Twitter na terça-feira: "O que se costuma ter é um memorando preparado por um funcionário da NSC (Conselho de Segurança Nacional) que escuta e capta o que ele/ela acredita ser os pontos principais".

Pfeiffer disse que os procedimentos que praticava existem há anos na Casa Branca, mas alertou que não está a par de alguma mudança nas regras que o governo Trump possa ter feito.

Por exemplo, Trump ficou furioso em 2017 depois que o Washington Post publicou transcrições vazadas de seus telefonemas com o primeiro-ministro australiano e o presidente mexicano, levando o governo a reduzir a disponibilidade pública e privada de textos que resumem as ligações.

A Casa Branca não retornou imediatamente um pedido de comentário sobre os procedimentos atuais para esse tipo de ligação.

Ainda assim, Pfeiffer descreveu a decisão de Trump de divulgar a transcrição bruta como notável.

"As ligações telefônicas do chefe de Estado presidencial são tão profundamente protegidas pelo privilégio executivo que é francamente notável que o presidente esteja de fato divulgando uma transcrição de sua ligação", afirmou.

"É sem precedentes. É raro. E as operações internas da Casa Branca em torno de eventos e ligações específicas são em geral algo altamente protegido por privilégios executivos. Portanto, será interessante ver se a existência de uma investigação de impeachment muda isso."

Nixon exerceu o privilégio executivo de bloquear as fitas que captavam seu encobrimento do escândalo de Watergate, desafiando uma intimação do Congresso que lhe ordenou que entregasse a maioria delas.

Os registros captaram milhares de horas de conversas gravadas no Salão Oval, prática que foi interrompida depois de Watergate.

Em princípio, ele deu 19 fitas ao Congresso —mas, quando solicitaram outras 42, Nixon entregou apenas transcrições.

Em um discurso presidencial à nação anunciando sua divulgação, ele insistiu ao público que as transcrições o exonerariam. "Quero que não restem dúvidas sobre o fato de o presidente não ter nada a esconder sobre este assunto", disse ele em 29 de abril de 1974.

Nixon explicou que editou as 1.200 páginas de transcrições para remover informações "irrelevantes" que não estavam sujeitas à intimação do Congresso, citando o privilégio executivo e preocupações com a privacidade, prometendo que o resto seria suficiente.

Mas, para os líderes da Câmara, não foi. O deputado democrata Peter Rodino Jr., de Nova Jersey, havia dito que "não aceitaremos nada menos" que as fitas —e meses depois eles as receberam.

Em julho de 1974, a Suprema Corte decidiu contra as alegações de privilégio executivo de Nixon e ordenou a divulgação das fitas.

O tribunal reconheceu que algumas comunicações presidenciais deveriam ser confidenciais, mas disse que o direito não era ilimitado, que um presidente não pode simplesmente afirmar uma "necessidade generalizada de confidencialidade" se as informações forem necessárias em um julgamento criminal, no caso a invasão do edifício Watergate.

Dezesseis dias depois, Nixon renunciou.

Na terça-feira, como fez Rodino décadas atrás, tanto Pelosi quanto o líder da minoria democrata no Senado, Charles Schumer, de Nova York, exigiram a divulgação da denúncia completa.

A queixa envolve o telefonema de Trump com Zelenski, no qual Trump admitiu pedir a Zelenski que investigasse o ex-vice-presidente Joe Biden, um dos possíveis adversários de Trump na eleição em 2020, e o filho de Biden, Hunter.

Trump fez a ligação para o presidente ucraniano dias depois de ter ordenado que quase US$ 400 milhões em ajuda militar à Ucrânia fossem retidos, informou o jornal The Washington Post na segunda-feira (23).

Um oficial de inteligência anônimo ficou tão preocupado com a comunicação que registrou uma denúncia, descrevendo uma suposta "promessa" que Trump fez na ligação. Sob pressão do Congresso, Trump finalmente liberou os fundos.

Até agora, o governo Trump bloqueou os pedidos do Congresso pela denúncia completa, pois Trump negou que houvesse alguma troca entre seu pedido de investigar Biden e a ajuda militar.

A transcrição bruta da ligação em si, disse Schumer, apenas forneceria ao Congresso uma imagem incompleta do que o denunciante achou tão preocupante. Dizem que a queixa envolve mais que o mero telefonema.

"Precisamos da denúncia enviada" ao inspetor-geral, afirmou Schumer. "Sem a denúncia, não sabemos o que o informante considerava tão urgente. Não sabemos o que o denunciante achou tão urgente. Então, simplesmente divulgar a transcrição não chegará nem perto de acabar com a necessidade do Congresso americano e do público de ver o que realmente aconteceu."

Trump insistiu que a transcrição bruta da ligação o isentará de qualquer irregularidade.

"Não faz sentido", disse Trump a jornalistas na terça-feira. "Quando você vê a ligação, quando vê a leitura da ligação, que suponho que vocês verão em algum momento, essa ligação foi perfeita. Não poderia ter sido melhor."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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