Espião da CIA extraído da Rússia enviou segredos para os EUA por décadas

Informante foi removido do país por risco de que fosse descoberto por Moscou

Washington | The New York Times

Décadas atrás a CIA recrutou e formou cuidadosamente um funcionário russo de médio escalão que começou a ascender rapidamente na hierarquia governamental.

Com o tempo a agência de inteligência americana encontrou ouro: o informante de longa data alcançou um cargo influente que lhe conferia acesso ao nível mais alto do Kremlin.

Quando as autoridades americanas começaram a perceber que a Rússia estava tentando sabotar a eleição presidencial de 2016, o informante tornou-se um dos espiões mais importantes –e mais protegidos— da CIA.

Mas, mais tarde naquele ano, quando autoridades de inteligência revelaram com detalhes inusitados a gravidade da interferência cometida pela Rússia, a imprensa captou detalhes sobre as fontes com que a CIA contava dentro do Kremlin.

O presidente russo Vladimir Putin, ao votar nas eleições locais de 8 de setembro - Alexei Nikolsky/Kremlin/Reuters

No final de 2016, diretores da CIA preocupados com a segurança do informante tomaram a difícil decisão de propor que ele fosse extraído da Rússia.

A situação ficou mais tensa quando, inicialmente, o informante recusou a oferta, citando questões familiares –fato recebido com consternação pela CIA e que levou alguns agentes de contra inteligência americanos a colocar em dúvida a confiabilidade do informante.

Mas meses mais tarde, após mais investigações da mídia, a CIA voltou a pressionar. Dessa vez o informante concordou em ser retirado da Rússia.

Sua extração pôs fim à carreira de uma das mais importantes fontes de informação da CIA.

E também, concretamente, deixou a inteligência americana impossibilitada de ter uma visão desde o interior da Rússia, no momento em que buscava pistas sobre a interferência do Kremlin nas eleições parlamentares americanas de 2018 e na eleição presidencial que terá lugar em 2020.

A CNN divulgou pela primeira vez, na segunda-feira (9), a extração do espião, realizada em 2017.

Outros detalhes, incluindo a história de colaboração do informante com a CIA, a oferta inicial de extração feita em 2016 e a enxurrada de dúvidas desencadeada pela recusa subsequente do informante, não haviam sido divulgados até agora.

Esta reportagem é baseada em entrevistas conduzidas nos últimos meses com atuais e antigos funcionários que falaram sob a condição de que seus nomes não fossem citados discutindo informações sigilosas.

Os funcionários não divulgaram a identidade do informante ou onde ele está vivendo hoje, ambos segredos fortemente protegidos.

Antigos e atuais funcionários disseram que sua vida corre perigo, apontando para a tentativa feita por Moscou no ano passado de assassinar Sergei V. Skripal, ex-funcionário de inteligência russo que se mudara para o Reino Unido em 2010 em uma troca de espiões.

O informante em Moscou ajudou a CIA a chegar à sua conclusão mais explosiva sobre a campanha russa de interferência: que o próprio presidente Vladimir Putin a ordenou e orquestrou.

Como a melhor fonte de informações com que o governo americano contava sobre o pensamento de Putin e as ordens que ele emitia, a fonte também foi fundamental para a avaliação feita pela CIA de que Putin era a favor da eleição de Donald Trump e ordenou pessoalmente o roubo de dados do Comitê Nacional Democrata.

Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, o informante não fazia parte do círculo interno de Putin, mas o via regularmente e tinha acesso aos altos escalões decisórios do Kremlin. Graças a isso, ele era sem dúvida um dos ativos mais valiosos da CIA.

Abandonar seu país nativo é uma decisão difícil, comentou Joseph Augustyn, ex-funcionário sênior da CIA que no passado dirigiu o centro de reassentamento de desertores da agência.

Em muitos casos os informantes mantiveram seu trabalho de espionagem em segredo de suas famílias.

“É uma decisão muito difícil de se tomar, mas é uma decisão que cabe apenas a eles”, disse Augustyn.

“Houve vezes em que pessoas não deixaram seus países, apesar de termos sugerido fortemente que saíssem.”

A decisão de extrair o informante foi motivada “em parte” pelo receio de que Trump e sua administração tivessem manejado inteligência delicada de modo incorreto, disse a CIA.

Mas ex-funcionários de inteligência disseram que não há evidências públicas de que Trump tenha colocado a fonte em risco imediato, e funcionários americanos atuais insistiram que o único motivo que levou à extração foi o fato de a mídia ter se debruçado intensamente sobre as fontes da CIA.

Trump foi informado primeiramente sobre as informações relativas à interferência russa, incluindo material entregue pelo informante valorizado, duas semanas antes de sua posse presidencial.

Uma porta-voz da CIA, em resposta à reportagem da CNN, descreveu como “especulação equivocada” a afirmação de que teria sido o modo como Trump lidou com a inteligência que levou à extração do informante.

Alguns ex-funcionários de inteligência disseram que os encontros a portas fechadas de Trump com Putin e outros representantes russos, somados a seus posts no Twitter sobre questões delicadas de inteligência, geraram receios entre fontes de inteligência no exterior.

“Temos um presidente que, diferentemente de qualquer outro presidente na história moderna, se dispõe a usar inteligência classificada e delicada da maneira que bem entende”, disse Steven L. Hall, ex-funcionário da CIA que liderou as operações da agência na Rússia.

“Ele o faz na presença de nossos adversários. O faz no Twitter. Estamos navegando em águas desconhecidas.”

Mas o governo havia indicado que a fonte existia muito antes de Trump tomar posse, primeiro em outubro de 2016, quando acusou formalmente a Rússia de interferência, e mais tarde, em janeiro de 2017, quando autoridades de inteligência desclassificaram parte de sua avaliação sobre a campanha de interferência, abrindo-a para ser divulgada ao público.

Veículos noticiosos, incluindo a NBC, começaram naquela época a divulgar o envolvimento de Putin na sabotagem eleitoral e as possíveis fontes em que a CIA teria baseado sua avaliação.

No mês seguinte o Washington Post informou que as conclusões da CIA eram derivadas de “fontes embutidas profundamente no governo russo”. E o New York Times mais tarde publicou artigos revelando detalhes sobre a fonte.

As reportagens noticiosas feitas na primavera e no verão de 2017 convenceram autoridades governamentais americanas de que precisavam atualizar e reativar seu plano de extração, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.

A extração levou o informante a ficar em posição de mais segurança, sendo recompensado por uma carreira longa a serviço dos Estados Unidos.

Mas teve um custo muito alto: deixou a CIA com dificuldades para entender o que acontece nos mais altos escalões do Kremlin.

Tradução de Clara Allain 

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