Ex-premiê que renunciou após Ibizagate é favorito em eleições da Áustria

Sebastian Kurz, 33, está disposto a reconquistar o poder na Áustria nas eleições deste domingo

Blaise Gauquelin
Viena ( Áustria) | AFP

O conservador Sebastian Kurz, 33, está disposto a reconquistar o poder na Áustria nas eleições legislativas deste domingo (29), em meio à incerteza sobre se governaria com a extrema direita, como no passado.

Em maio deste ano, a coalizão governamental formada por Kurz dois anos antes com os nacionalistas do FPO explodiu, após o escândalo chamado de "Ibizagate".

Em um vídeo publicado pela imprensa alemã é possível observar o líder do FPO, Heinz-Christian Strache, então número dois do Executivo, na ilha espanhola, propondo participações em mercados públicos a uma pessoa ligada a um oligarca russo. Em troca, pede apoio financeiro.

O escândalo causou a queda do governo, mas Kurz conserva sua popularidade intacta.

As pesquisas estimam que seu partido, o OVP (Partido Popular Austríaco), tem entre 33% e 35% das intenções de voto nas legislativas, superando em 2,5 pontos seu resultado na disputa de 2017.

Com isso, ficaria em primeiro lugar, claramente à frente dos social-democratas do SPO (23%).

"Quem quiser Kurz, vota em Kurz", dizem seus cartazes de propaganda eleitoral. Ninguém sabe, porém, que sócio ele vai escolher para governar.

Há dúvidas se sua sigla, a OVP, renovará a aliança com o Partido Austríaco da Liberdade (FPO), que aparece em terceiro nas pesquisas.

Kurz vai preferir uma coalizão mais sensata com os social-democratas? Ou vai operar um giro de 180 graus, aliando-se a liberais e Verdes, após uma campanha marcada pelas questões climáticas?

Ele "envia sinais em todas as direções para ter o maior número possível de opções após as eleições", explica à AFP o cientista político Thomas Hofer.

A campanha eleitoral foi marcada pelas revelações sobre os gastos de campanha do OVP e pela saga de rivalidades internas em uma extrema direita em plena recomposição após o "Ibizagate".

A aliança de governo entre Kurz e Strache, então líder do FPO, foi selada em 2017 para levar à frente uma política anti-imigração.

Com o escândalo, Strache foi forçado a renunciar, assim como os ministros do FPO.

Desde maio, a Áustria é dirigida por um governo de transição.

Os líderes das duas legendas outrora aliadas se mostram agora como um modelo de coalizão que pode servir de exemplo na União Europeia (UE), onde os partidos nacionalistas multiplicaram seus êxitos eleitorais nos últimos anos.

Kurz dificilmente poderá, contudo, correr o risco de uma nova aliança com um sócio afetado pelas suspeitas geradas pelo escândalo.

Aliar-se a outros partidos significaria ter que fazer muitas concessões, afirmam os especialistas.

Kurz concentra uma de suas principais promessas no corte de impostos e não pode renunciar a isso.

Além disso, ele é "sensível à imagem de seu país" no exterior, "mas no exterior se falava apenas do FPO" e em suas provocações, admite um dirigente conservador.

Não parece que os problemas do FPO estejam perto do fim: havia alegações de desvio de dinheiro dos fundos do partido para uso pessoal de Strache, o que ofuscou a campanha eleitoral desta sigla de extrema direita. Uma investigação judicial foi iniciada.

Kurz "fez propostas sobre temas ambientais, já que não exclui, após ter encarnado a firmeza diante a imigração, se tornar campeão de uma ecologia conservadora", opina o cientista político Patrick Moreau.

Prevê-se que os Verdes voltem ao Parlamento neste domingo. Eles já se mostraram abertos a negociar com os conservadores de Kurz e com os liberais do Partido Neos.

Uma coalizão entre três partidos seria algo inédito na Áustria. De qualquer modo, uma coalizão deste tipo vai demandar longas negociações.

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