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Ferramenta brasileira ajuda a diminuir trabalho infantil na Costa do Marfim

Plataforma usa inteligência artificial e mensagens de SMS para aumentar o tempo das crianças na escola

Ana Estela de Sousa Pinto
São Paulo

Com mensagens de SMS, inteligência artificial e ideias de um prêmio Nobel de economia, uma empresa brasileira pode ajudar a combater um dos principais problemas da Costa do Marfim: o trabalho infantil, envolvido em grande parte do chocolate que o mundo come, e o prejuízo que isso traz para a educação das crianças marfinenses.

A Movva, que desenvolve ferramentas de política pública baseadas em “cutucões” , usou na região de Aboisso, no sudeste do país africano, em parceria com o Ministério da Educação local, a plataforma chamada Eduq+. 

A meta era aumentar o tempo das crianças na escola —em vez de no trabalho— e melhorar seu aprendizado.

Um programa de inteligência artificial analisa as interações e indica escolas com maior risco de evasão, repetência ou trabalho infantil. Os resultados são acompanhados em estudos estatísticos que comparam grupos de alunos semelhantes.


Entenda os ‘cutucões’
Os “cutucões” são reforços positivos para orientar a tomada de decisões e mudar comportamento. São inspirados na economia comportamental, que deu o Nobel de economia a Richard Taller, em 2017. Na ferramenta para educação, os pais recebem 2 SMS semanais com 4 tipos de mensagens. Veja exemplos:

  • atividade: “Pergunte para seu filho o que ele gosta muito de fazer com você. Aproveite para contar uma boa memória da sua infância!”
  • reforço: “A ciência comprovou que uma relação próxima dos filhos desde pequeno fortalece o desenvolvimento do cérebro. Cuide desta relação todos os dias”

Um programa de inteligência artificial analisa as interações e indica escolas com maior risco de evasão, repetência ou trabalho infantil. Os resultados são acompanhados em estudos estatísticos que comparam grupos de alunos semelhantes.


O experimento, financiado pela Fundação Jacobs, derrubou a evasão entre 50% e 70% em diferentes séries, cortou em um terço a repetência no segundo ciclo do ensino fundamental e elevou o aprendizado no equivalente a um bimestre a mais na escola, na comparação com alunos que não participaram do projeto.

É um ganho importante num país que gasta todo ano US$ 82,6 milhões (R$ 336 milhões) com repetências no ciclo primário, de acordo com relatório do governo federal.

Na região do projeto-piloto, realizado no ano passado, a evasão escolar é de mais de 10% ao ano, e a repetência, em torno de 15%.

Com as mensagens que enfatizam a importância de estudar, as crianças passaram mais horas estudando na escola, no turno fora do horário normal, e menos tempo ajudando os pais, afirma o economista brasileiro Guilherme Lichand, presidente do conselho da Movva e professor da Universidade de Zurique.

Em avaliação de impacto conduzida por Lichand e pela professora da Universidade da Pensilvânia (EUA) Sharon Wolf, além da melhora escolar constatou-se que a fatia de alunos que afirmavam ajudar “o tempo todo” com tarefas domésticas caiu 25%.

 

O resultado levou a negociações com as grandes produtoras de chocolate, que há duas décadas tentam sem sucesso erradicar o trabalho infantil nas plantações. 

Na Costa do Marfim, que produz um terço de todo o cacau usado no mundo, o problema é maior porque o fruto é cultivado por famílias de pequenos agricultores, cuja renda não chega a US$ 2.000 por ano, segundo a certificadora de negócios éticos Fairtrade. 

Em Aboisso, mais de 40% dos alunos a partir de sete anos trabalham no campo.

A Movva desenha agora uma segunda etapa de avaliação a partir dos critérios específicos de trabalho infantil da Costa do Marfim, como, por exemplo, se as crianças usam machetes ou facas afiadas, caçam com arma de fogo, fazem queimadas ou cavam buracos.

O estudo está sendo feito a partir de conversas com a Associação Internacional de Cacau.

Lichand diz que a expectativa é expandir a ação para pelo menos 100 mil dos 3,3 milhões de estudantes do fundamental, com o apoio das fabricantes de chocolate. Elas bancariam os custos por dois anos, quando o governo teria recursos para sustentar o projeto —ajudado pela economia com a redução nas repetências—, nos cálculos da Fundação Jacobs.

Para isso, as companhias —que faturam US$ 103 bilhões por ano e já gastaram US$ 150 milhões no combate a trabalho infantil— precisariam investir na Costa do Marfim até R$ 1,3 milhão por ano (quanto mais alunos, menor o custo).

O Eduq+ já foi usado em Fortaleza em 2015 e em São Paulo em 2015 e 2016, além de em empresas como Ambev e Natura. Neste ano, um piloto está em curso em escolas cariocas e fluminenses.

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