Descrição de chapéu The Washington Post

Há cem anos, candidato socialista concorreu da prisão e teve 1 milhão de votos nos EUA

Eugene Debs foi detido por questionar alistamento militar obrigatório na Primeira Guerra

Terence McArdle
The Washington Post

Eugene Debs não discursou na noite da eleição presidencial de 1920. O candidato presidencial socialista era, em suas próprias palavras, “um candidato em isolamento”, encarcerado na Penitenciária Federal de Atlanta por ter se manifestado publicamente contra o alistamento militar obrigatório na Primeira Guerra Mundial.

Do lado de fora da penitenciária, seus partidários distribuíram fotos de Debs de uniforme presidiário, com bottons de campanha do “Prisioneiro 9653”. Os repórteres esperavam ouvir um discurso incendiário. Mas o diretor do presídio deixou Debs redigir um comunicado.

Eugene Debs, ao deixar a prisão em Atlanta em 1921
Eugene Debs, ao deixar a prisão em Atlanta em 1921 - Biblioteca do Congresso dos EUA/Wikimedia Commons

“Agradeço aos senhores capitalistas por me colocarem aqui dentro”, ele escreveu. “Eles sabem qual é o meu lugar em seu sistema criminoso e corruptor. Esse é o único elogio que poderiam me fazer.”

Debs protestou contra o capitalismo um século antes de o senador Bernie Sanders, independente do Vermont, fazer campanha pela Casa Branca como socialista democrático. E antes de o presidente Donald Trump usar a palavra “socialismo” para denunciar seus adversários, declarando que “um voto em qualquer democrata em 2020 é um voto pela ascensão do socialismo radical e a destruição do sonho americano”.

Em 1920, Debs foi o radical máximo. Ele se candidatara a presidente pelo Partido Socialista cinco vezes desde 1900. Oito anos antes, tinha recebido 901.551 votos –cerca de 6% do total. Mas desta vez ele estava fazendo campanha atrás das grades.

Debs se posicionara contra o envolvimento dos EUA na Primeira Guerra Mundial, considerando que a guerra apenas beneficiava fabricantes de armas e interesses comerciais. Em julho de 1918, discursando num parque em Canton, Ohio, ele denunciou os “aristocratas de Wall Street” e criticou o governo por prender ativistas antiguerra.

“Eles ensinaram vocês a acreditar que é seu dever patriótico ir para a guerra e se deixarem massacrar sob as ordens deles”, disse Debs. “Mas em toda a história do mundo, vocês, o povo, nunca tiveram voz em declarações de guerra, e, por estranho que pareça, nenhuma guerra de qualquer nação, em qualquer época, jamais foi declarada pelo povo.”

Ele acrescentou enfaticamente: “A classe trabalhadora que derrama seu sangue livremente e fornece os cadáveres nunca teve participação ativa em declarar guerras ou fazer a paz. É sempre a classe governante que faz as duas coisas. Apenas ela declara guerras e apenas ela faz a paz.”

Pelos termos da Lei de Sedição de 1918, essas palavras representaram uma traição à pátria. A lei, uma emenda da Lei de Espionagem de 1917, visava silenciar as pessoas que se manifestassem sobre a guerra.

O promotor público Edwin Wertz, que enviara um estenógrafo ao parque, anunciou que indiciaria Debs.
“Nenhum homem, mesmo tendo sido por quatro vezes candidato de seu partido ao mais alto cargo do país, pode violar a lei básica desta nação”, disse Wertz.

Muitos americanos eram contra o envolvimento dos EUA na Grande Guerra –e eles não se limitaram a protestar. No Indiana, os cartões de alistamento militar obrigatório de um condado inteiro foram roubados.

No Minnesota, bancos que apoiavam o esforço de guerra foram boicotados. Em todo o país, jovens alistados compulsoriamente faltaram a seus exames de aptidão física, forneceram um endereço errado quando foram registrados ou registraram pedidos de isenção.

A reação não demorou a chegar. O diretor dos Correios proibiu a entrega de publicações de esquerda como The Nation, Mother Earth e The Masses. A Liga Protetora Americana, uma organização quase justiceira, somou-se à polícia para lançar “blitze contra fujões”, operações de arrastão aleatórias em que homens com idade para serem recrutas eram obrigados a apresentar seus cartões de recrutamento –às vezes sob a ponta de uma baioneta.

Na ação “Schenck vs. Estados Unidos”, julgada pela Suprema Corte, socialistas foram acusados de incentivar jovens em idade de serem alistados a resistirem ao alistamento obrigatório. Numa decisão unânime da corte a favor do estado, o juiz Oliver Wendell Holmes Jr. argumentou que “mesmo a mais rígida proteção da liberdade de expressão não protegeria um homem que gritasse ‘fogo’ falsamente em um teatro e desse modo provocasse um pânico”.

O julgamento de Eugene Debs por perturbação da ordem pública foi uma confusão. Durante os depoimentos, ficou claro que o estenógrafo enviado por Wertz –um vendedor de carros— não tinha transcrito a maior parte do discurso. Wertz chamou para depor vários homens em idade de se alistarem, numa tentativa infrutífera de provar que o discurso de Debs os desencorajou a se alistarem. Mas todos os convocados para depor haviam se alistado. Um deles estava até de uniforme militar.

A defesa chamou apenas uma testemunha para depor: o próprio Debs, que imediatamente se confessou culpado. Ignorando as objeções dos promotores, o juiz deixou Debs fazer um discurso de quase duas horas perante o tribunal.

“O que os senhores possam escolher fazer comigo terá pouca importância, afinal”, disse Debs em seus argumentos de conclusão. “Não sou eu quem está sendo julgado aqui hoje. Há uma questão infinitamente maior que está sendo julgada aqui neste dia. Instituições americanas estão sendo julgadas por um tribunal de cidadãos americanos. O tempo dirá.”

O júri o considerou culpado. Em 18 de novembro de 1918 –uma semana após o Dia do Armistício--, ele foi sentenciado a três penas de dez anos de prisão, a serem cumpridas concomitantemente, e perdeu o direito ao voto. Apesar de ter recorrido contra a condenação e levado seu recurso até a Suprema Corte, o juiz presidente da Suprema Corte Oliver Wendell Holmes Jr. concluiu que Debs tivera a intenção clara de obstruir o alistamento militar obrigatório.

Graças a seus discursos incendiários, Debs tinha sido o rosto público e carismático do socialismo. Ele fundou o Partido Socialista da América em 1901, mas as raízes do partido remetiam a seu trabalho como organizador sindical de ferroviários.

Nos 16 anos passados antes de os EUA entrarem na Primeira Guerra Mundial, os socialistas elegerem deputados em Nova York e Milwaukee, além de 40 prefeitos de cidades pelo país afora. Em abril de 1917, dias apenas depois de os EUA entrarem na guerra, o partido ratificou uma plataforma contrária à participação americana na guerra.

Apesar de ter sido candidato à Presidência cinco vezes, Debs foi um líder relutante. E ele sabia que suas campanhas eram simbólicas.

“Não havia virtualmente nenhuma chance de um socialista (ou qualquer candidato de um partido terceiro) conseguir os votos necessários para ganhar uma presença no colégio eleitoral. Por isso, a candidatura presidencial e vice-presidencial do partido nas eleições nacionais sempre foi, na melhor das hipóteses, uma maneira de conscientizar os eleitores e incentivar a organização da classe trabalhadora”, disse Wesley Bishop, historiador da Fundação Eugene V. Debs.

Por sofrer de um problema cardíaco e achar que o partido precisava de nomes novos, Debs não participou da eleição presidencial de 1916. Agora, quando muitos dissidentes –anarquistas, socialistas, sufragistas, pacifistas, até mesmo objetores de consciência— tinham sido presos graças à Lei de Sedição, ele se sentira na obrigação de voltar a fazer campanha, mesmo estando na prisão.

Aquela não fora sua primeira sentença de prisão. Quando era muito mais jovem e presidia o Sindicato de Trabalhadores Ferroviários dos EUA, Debs tinha cumprido pena por envolvimento numa campanha nacional de ferroviários contra a Pullman Palace Car Company. George Pullman, o proprietário da empresa que fabricava os vagões Pullman, se recusara a reduzir os aluguéis de funcionários demitidos na cidade de sua empresa. Como os trens da Pullman transportavam as correspondências dos Correios, o presidente Grover Cleveland enviou o exército americano para reprimir o conflito.

A greve terminou com 30 mortos e quase US$ 80 milhões em bens destruídos. Como presidente do sindicato, Debs foi condenado a seis meses de prisão. Ele disse que se tornou socialista depois de ler “O Capital”, de Karl Marx, enquanto esteve na prisão.

Apesar disso, Debs “não seguia de perto a doutrina socialista europeia”, disse Ernest Freeberg, autor de “Democracy's Prisoner: Eugene V. Debs, the Great War, and the Right to Dissent” (Prisioneiro da Democracia: Eugene Debs, a Grande Guerra e o Direito a Divergir, em tradução livre)

“Ele gostava de citar Thomas Paine. Era grande admirador dos abolicionistas, como John Brown e Wendell Phillips”, disse Freeberg. “Para ele, a Revolução Americana foi o primeiro passo no caminho à democracia, a derrubada dos escravocratas foi mais um passo, e o próximo grande desafio era a luta socialista contra a ‘escravidão assalariada’ do capitalismo. Debs cativava as plateias porque apresentava o socialismo dentro do contexto americano.”

Na eleição de 1920, Debs e seu colega de chapa Emil Seidel receberam 913.693 votos, mas, como em suas campanhas anteriores, nenhum voto no colégio eleitoral. O candidato vencedor, o democrata Warren Harding, prometeu um “retorno à normalidade”, a restauração do modo de vida pré-guerra.

Em 13 de abril de 1920 os socialistas promoveram uma manifestação diante da Casa Branca e entregaram um abaixo-assinado pedindo a perdão a Debs. A atriz de cinema Mae West escreveu a Harding para reforçar o pedido de perdão.

Quase um ano mais tarde, em março, o diretor do presídio levou Debs de carro até a estação ferroviária. Desacompanhado e sem supervisão, Debs embarcou num trem para Washington para uma audiência com o secretário de Justiça, Harry Daugherty, a pedido de Harding.

A Casa Branca pretendia manter a audiência em segredo, mas Daugherty, um político verborrágico, se gabou disso a jornalistas. Quando a notícia chegou aos jornais, grupos de militares veteranos protestaram, e Harding teve que levar em conta a oposição deles em seus cálculos políticos. Ele acabou libertando Debs em 21 de dezembro de 1921, em tempo para o Natal.

“Ele é um homem idoso, sem força física”, disse Harding quando comutou a sentença de Debs. “É um homem de grande encanto pessoal e personalidade impressionante, qualidades que fazem dele um homem perigoso, capaz de iludir os insensatos e criar desculpas para quem tem intenções criminosas.”

A caminho de sua casa, em Terre Haute, Indiana, Debs, emaciado e exausto, fez uma parada na Casa Branca para uma audiência com Harding. Não há registro do que qualquer dos dois disse. Debs morreu em 1926 em um sanatório próximo a Chicago, onde estava sendo tratado por um problema cardíaco.

Em 1977, o presidente Jimmy Carter perdoou muitos americanos que fugiram ao Canadá para escapar do alistamento militar obrigatório durante a Guerra do Vietnã. Mas Eugene Debs, preso por fazer oposição a um alistamento militar obrigatório anterior, nunca foi perdoado.

Tradução de Clara Allain 

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