Descrição de chapéu Governo Trump

Trump pressionou premiê da Austrália a ajudar com inquérito para minar Mueller

Secretário de Estado participou de telefonema a presidente da Ucrânia que deu origem a processo de impeachment

Washington | Reuters

O presidente americano, Donald Trump, pressionou o premiê da Austrália a ajudar o Departamento de Justiça americano em uma investigação para minar as conclusões do procurador-especial Robert Mueller. 

Mueller foi o responsável pelo inquérito sobre a interferência da Rússia nas eleições de 2016, quando Trump foi eleito. O procurador não isentou Trump das acusações de que o presidente teria obstruído a Justiça.

As conversas entre Trump e o primeiro-ministro Scott Morrison vêm à tona após a revelação de um telefonema em que o americano pede ao presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, que reabra um inquérito envolvendo o filho de seu principal adversário político, o democrata e pré-candidato à Presidência Joe Biden. 

O episódio deu origem ao processo de impeachment de Trump que está em curso na Câmara dos Deputados. 

A conversa do americano com o premiê foi um pedido do secretário de Justiça, William Barr, que conduz a investigação que busca descreditar o relatório de Mueller e isentar definitivamente o presidente americano.

O primeiro inquérito sobre a interferência russa nas eleições americanas de 2016 foi motivado por informações fornecidas pela inteligência australiana, que descobriu evidências de que Moscou, juntamente com a campanha de Trump, estaria por trás do vazamento de emails do Partido Democrata ao site WikiLeaks. 

O contato de Trump seria uma tentativa de fazer a Austrália revisar essas informações. 

Trata-se do segundo caso em que Trump teria usado de seu poder como presidente para solicitar ajuda a aliados estrangeiros dos EUA para seu próprio benefício político.

Assim como o telefonema a Zelenski, o diálogo entre os dois líderes foi classificado como confidencial e teve seu acesso restringido a poucos assessores do círculo próximo de Trump.

Nesta segunda (30), o Wall Street Journal revelou que o secretário de Estado, Mike Pompeo, participou como ouvinte da ligação ao presidente ucraniano. O fato reforça as evidências de que o secretário fez parte dos esforços de Trump para obter vantagens políticas por meio de líderes estrangeiros. 

O porta-voz do Kremlin, Dmitri S. Peskov, afirmou na última sexta-feira (27) que o país espera que o conteúdo dos contatos entre o presidente americano e Vladimir Putin não sejam revelados. 

"Gostaríamos de esperar que situações como essas não acontecessem em nossas relações bilaterais, que já têm problemas bastante grandes."

Quando perguntado se o governo russo concordaria com a divulgação dos diálogos, Peskov disse que as decisões seriam tomadas caso a caso. "Ninguém fez nenhuma solicitação nesse sentido", afirmou. 

Processo de impeachment

A pressão em torno do inquérito de impeachment contra o presidente dos EUA, Donald Trump, deve se intensificar nesta semana com depoimentos de novas testemunhas.

Três comitês da Câmara disseram nesta segunda-feira (30) que uma intimação foi enviada a Rudolph Giuliani, advogado pessoal de Trump, para que ele forneça documentos relacionados à investigação. Também foram enviadas intimações a três sócios de Giuliani. 

O presidente do Comitê de Inteligência da Câmara dos EUA, Adam Schiff, no Capitólio, em Washington
O presidente do Comitê de Inteligência da Câmara dos EUA, Adam Schiff, no Capitólio, em Washington - Al Drago - 25.set.19/Reuters

O comitê de Relações Exteriores da Câmara apontou que Giuliani disse na TV que pediu ao governo da Ucrânia para "mirar" o ex-vice-presidente Joe Biden.

​Giuliani, em uma tensa entrevista à rede ABC no domingo (29), negou ter agido intencionalmente contra o democrata. "Eu não estou investigando Joe Biden. Eu caí nele ao investigar como os ucranianos conspiraram com a campanha de Hilary Clinton para levantar informações sujas", disse.

Ele disse que há "uma pilha de evidências" de que a interferência nas eleições de 2016 não teve influência russa, mas sim da Ucrânia, que teria buscado informações comprometedoras sobre Trump a pedido de Obama. Giuliani, no entanto, não apresentou as evidências que citou.

Anteriormente, Giuliani, havia dito que só se apresentaria para depor caso o democrata Adam Schiff, que comanda o comitê que lidera as investigações do processo, fosse deposto do cargo.

Outra pessoa que deve prestar depoimento é o informante anônimo que delatou a ligação entre Trump e o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski. As negociações para colher o depoimento do delator foram confirmadas por Schiff.

O informante, identificado como um agente da CIA pelo jornal The New York Times, está sob proteção federal, pois teme pela sua segurança. Seu nome não foi revelado. 

As intimações desta semana ocorrem em meio ao recesso do Congresso, que deve durar duas semanas.

Na próxima quarta (2), os comitês de Inteligência, Relações Exteriores e Supervisão da Câmara receberão a ex-embaixadora dos EUA na Ucrânia Marie Yovanovitch.

Artigos publicados por membros do governo da Ucrânia acusam políticos do país de terem interferido na eleição dos EUA em 2016, e Yovanovitch de tentar impedir que procuradores enviassem relatos sobre a intervenção aos EUA.

Já na quinta (3), os comitês devem receber um depoimento do ex-representante especial de Trump para a Ucrânia, Kurt Volker, que renunciou ao cargo na última sexta (27). 

Michael Atkinson, o inspetor-geral de inteligência que ao receber a delação a classificou como urgente e sugeriu que o Congresso fosse alertado, será ouvido a portas fechadas na sexta (4).

"Coagir uma nação estrangeira a interferir em nossa eleição nunca é bom. Não importa o que o presidente e seus defensores digam", escreveu Adam Schiff em uma rede social no domingo, ao defender que não havia outra escolha a não ser avançar com uma investigação de impeachment. 

Nesta segunda (30), Trump atacou o democrata, sugerindo que suas declarações sobre o andamento do processo não tinham relação com o telefonema para o presidente da Ucrânia. "Prisão por traição?", escreveu Trump.

Se aprovado na Câmara, liderada pelos democratas, o processo de impeachment irá a julgamento no Senado, de maioria republicana —mesmo partido de Trump.

O processo de impeachment foi detonado após um informante ter denunciado uma chamada telefônica realizada em 25 de julho, na qual Trump pediu ao presidente ucraniano que investigasse os negócios de Hunter Biden no país.  

Hunter é filho de Joe Biden, ex-vice presidente durante as gestões de Barack Obama e um dos candidatos democratas mais bem cotados para enfrentar Trump na eleição presidencial de 2020.

Os democratas acusaram o presidente americano de pressionar um aliado vulnerável dos EUA a sujar um rival político para obter ganhos políticos pessoais.

Uma semana antes do telefonema, o republicano havia congelado cerca de US$ 400 milhões em ajuda militar para a Ucrânia. Posteriormente, o auxílio foi concedido.

Trump disse que queria "conhecer" o informante, que ele chamou de "a pessoa que ilegalmente forneceu essa informação".

"Como todo americano, eu mereço conhecer meu acusador, especialmente quando esse acusador apresentou uma conversa perfeita com um líder estrangeiro de forma totalmente imprecisa e fraudulenta", publicou ele em uma rede social.

Durante a Assembleia Geral da ONU, na última semana, Trump chegou a sugerir que o informante havia praticado espionagem.

Nos EUA, há funcionários do governo designados para transcrever as ligações entre o chefe de Estado americano e líderes de outros países. Eles ficam na Situation Room ("sala de situação", conjunto de sete salas de segurança máxima localizadas no subsolo da Casa Branca).

​O documento, a princípio, é protegido pelo chamado “privilégio das comunicações presidenciais”, dispositivo que impede a divulgação pública de informações relativas ao Executivo ou de segurança nacional.

Mas esta regra é flexível e pode ser negociada a pedido do Congresso quando for necessária ou em investigações criminais —foi o caso da ligação de Trump com Zelenski.

O presidente do Comitê de Inteligência da Câmara afirmou que qualquer esforço de Trump para impedir a investigação pode ser usado contra ele.

Com New York Times

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