Descrição de chapéu Governo Trump

Leia a íntegra da denúncia que motivou processo de impeachment contra Trump

Documento foi divulgado ao público pelo comitê de Inteligência da Câmara dos EUA

São Paulo

O caso que envolve um telefonema do presidente dos EUA, Donald Trump, ao líder ucraniano, Volodimir Zelenski, foi detonado a partir de uma denúncia feita por um delator anônimo.  

Segundo o jornal The New York Times, o autor do vazamento é um funcionário da CIA (Agência de Inteligência dos EUA) e especialista em assuntos relacionados à Ucrânia. 

O presidente dos EUA, Donald Trump, no gramado sul da Casa Branca em Washington, EUA - Erin Scott - 26.set.2019/Reuters

O homem “foi designado para trabalhar na Casa Branca em um momento”, mas desde o incidente voltou à CIA, afirmou o jornal, citando três pessoas que sabem qual é identidade da pessoa.

Leia abaixo o documento divulgado ao público pelo comitê de Inteligência da Câmara dos EUA. Alguns trechos foram suprimidos devido a questões de segurança.


12 agosto de 2019

Excelentíssimo Senhor Richard Burr
presidente
Comitê Selecionado de Inteligência
Senado dos Estados Unidos

Excelentíssimo Senhor Adam Schiff
presidente
Comitê Permanente Selecionado de Inteligência
Câmara dos Deputados dos Estados Unidos

Prezado presidente Burr e presidente Schiff:

Estou relatando uma "preocupação urgente" de acordo com os procedimentos. Esta carta NÃO é CONFIDENCIAL quando separada do anexo.

No curso de minhas funções oficiais, recebi informações de vários funcionários do governo americano de que o presidente dos Estados Unidos está usando o poder de seu cargo para solicitar interferência de um país estrangeiro nas eleições de 2020 nos EUA. Essa interferência inclui, entre outras coisas, pressionar um país estrangeiro a investigar um dos principais rivais políticos nacionais do presidente. O advogado pessoal do presidente, Rudolph Giuliani, é uma figura central nessa ação. O procurador-geral Barr parece estar envolvido também. 

  • Nos últimos quatro meses, mais de meia dúzia de autoridades dos EUA me informaram de vários fatos relacionados a essa ação. As informações aqui fornecidas foram retransmitidas para mim no curso de atividades oficiais entre agências. É rotina para as autoridades americanas responsáveis por um determinado portfólio regional ou funcional compartilharem essas informações umas com as outras, a fim de informar a formulação e análise de políticas.
  • Não fui testemunha direta da maioria dos eventos descritos. No entanto, achei os relatos de meus colegas sobre esses eventos críveis porque, em quase todos os casos, vários funcionários relataram padrões de fatos consistentes entre si. Além disso, várias informações consistentes com esses relatos particulares foram divulgadas publicamente.

Estou profundamente preocupado com o fato de que as ações descritas abaixo constituam "um problema grave ou flagrante, abuso ou violação da lei ou de uma ordem executiva" que "não inclua diferenças de opinião sobre questões de política pública", consistente com a definição de uma "preocupação urgente” no Código 50 dos EUA § 3033 (k) (5) (G). Portanto, estou cumprindo meu dever de relatar essas informações às autoridades relevantes, por meio de canais legais apropriados.

  • Também estou preocupado que essas ações apresentem riscos à segurança nacional dos EUA e minem os esforços do governo dos EUA para impedir e combater a interferência estrangeira nas eleições americanas.

Segundo meu conhecimento, a totalidade desta declaração não é confidencial quando separada do documento anexo confidencial. Empenhei-me para aplicar os padrões de confidencialidade descritos na Ordem Executiva (EO, sigla em inglês) 13.526 e separar as informações que sei ou tenho motivos para acreditar que sejam confidenciais para fins de segurança nacional 1.

  • Se uma marcação de confidencialidade for aplicada retroativamente, acredito que a autoridade classificadora deve explicar por que essa marcação foi aplicada e a quais informações específicas pertencem a ela.

I. Telefonema presidencial de 25 julho 

No início da manhã de 25 de julho, o presidente falou por telefone com o presidente ucraniano Volodimir Zelenski. Não sei que lado iniciou a ligação. Essa foi a primeira ligação publicamente reconhecida entre os dois líderes desde um breve telefonema de congratulações depois que Zelenski conquistou a presidência em 21 de abril.

Vários funcionários da Casa Branca com conhecimento direto do telefonema me informaram que, após uma troca inicial de gentilezas, o presidente usou o restante da ligação para promover seus interesses pessoais. Especificamente, ele tentou pressionar o líder ucraniano a tomar medidas para ajudar sua candidatura à reeleição em 2020. De acordo com os funcionários da Casa Branca que tinham conhecimento direto da ligação, o presidente pressionou Zelenski a, entre outras coisas:

  • iniciar ou continuar uma investigação 2 sobre as atividades do ex-vice-presidente Joseph Biden e seu filho Hunter Biden;
  • ajudar a supostamente descobrir que as alegações de interferência russa nas eleições presidenciais dos EUA de 2016 se originaram na Ucrânia, com uma solicitação específica de que o líder ucraniano localizasse e entregasse os servidores usados pelo Comitê Nacional Democrata (DNC, sigla em inglês) e examinados pela empresa de segurança cibernética dos EUA, Crowdstrike3, que inicialmente informou que hackers russos haviam penetrado nas redes do DNC em 2016; e 
  • reunir-se ou falar com duas pessoas que o presidente nomeou explicitamente como seus enviados pessoais nessas questões, Rudolph Giuliani e o Procurador-Geral Barr, a quem o presidente também se referiu várias vezes.
  1. Além das informações no Anexo, acredito que nenhuma das informações aqui contidas atende à definição de "informações confidenciais" descrita na EO 13526, Parte 1, Seção 1.1. Há ampla informação em código aberto sobre as ações que descrevo abaixo, incluindo declarações do presidente e de Giuliani. Além disso, com base em minhas observações pessoais, há arbitrariedade com relação à confidencialidade  de comentários particulares ou instruções do presidente, incluindo suas comunicações com líderes estrangeiros; as informações que não estão relacionadas com a política externa dos EUA ou a segurança nacional - como as informações contidas neste documento, quando separadas do Anexo - geralmente são tratadas como não confidenciais. Eu também acredito que a aplicação de uma marcação de confidencialidade para essas informações violaria a EO 13526, Parte 1, Seção 1.7, que declara: "Em nenhum caso as informações serão consideradas como confidenciais, continuarão como confidenciais ou deixarão de ser confidenciais para: (1) ocultar violações da lei, ineficiência ou erro administrativo; [ou] (2) evitar constrangimentos a uma pessoa, organização ou agência ".

  2. Não está claro se existe uma investigação ucraniana. Consulte a nota de rodapé nº 7 para obter informações adicionais.

  3. Não sei por que o presidente associa esses servidores com a Ucrânia. (Veja, por exemplo, seus comentários à Fox News em 20 de julho: "E a Ucrânia. Dê uma olhada na Ucrânia. Por que o FBI não levou esse servidor? Podesta disse a eles para sair. Ele disse, saia. Então, por que o FBI não retirou o servidor do DNC? ")

O presidente também elogiou o procurador-geral da Ucrânia, Yuriy Lutsenko, e sugeriu que Zelenski queira mantê-lo em sua posição. (Nota: a partir de março de 2019, Lutsenko fez uma série de alegações públicas - muitas das quais ele recuou mais tarde, sobre as atividades da família Biden na Ucrânia, o suposto envolvimento de autoridades ucranianas nas eleições de 2016 nos EUA e as atividades da Embaixada dos EUA em Kiev. Veja a Parte IV para um contexto adicional.) 

Os funcionários da Casa Branca que me contaram essas informações ficaram profundamente perturbados com o que aconteceu no telefonema.(2). Eles me disseram que já havia uma “discussão em andamento” com os advogados da Casa Branca sobre como tratar o telefonema por causa da probabilidade, de acordo com esses funcionários, de terem testemunhado o presidente abusar de seu cargo para obter ganhos pessoais.

O lado ucraniano foi o primeiro a reconhecer publicamente o telefonema. Na noite de 25 de julho, foi publicado um resumo no site do presidente da Ucrânia, que continha a seguinte frase (tradução do texto original em russo):

  • “Donald Trump expressou sua convicção de que o novo governo ucraniano poderá melhorar rapidamente a imagem da Ucrânia e concluir a investigação de casos de corrupção que impediram a cooperação entre a Ucrânia e os Estados Unidos.”

Além dos casos acima mencionados "supostamente tratando da família Biden e das eleições nos EUA em 2016, os funcionários da Casa Branca me disseram que nenhum outro caso" foi discutido.

Com base no meu entendimento, cerca de uma dúzia de funcionários da Casa Branca ouviram a ligação – entre autoridades políticas e funcionários de serviço no Gabinete de Crise da Casa Branca, como é comum. Os funcionários com quem falei me disseram que a participação na ligação não fora restrita antecipadamente, porque todos esperavam que fosse uma ligação "rotineira" com um líder estrangeiro. Não sei se alguém esteve fisicamente presente com o presidente durante a ligação.

Além do pessoal da Casa Branca, fui informado de que um funcionário do Departamento de Estado, o Sr. T. Ulrich Brechbuhl, também ouviu a ligação.

​Não fui o único funcionário não pertencente à Casa Branca a receber um resumo da ligação. Com base no meu entendimento, vários funcionários do Departamento de Estado e da Comunidade de Inteligência também foram informados sobre o conteúdo da ligação, conforme descrito acima.

II. Esforços para restringir o acesso aos registros relacionados ao telefonema 

Nos dias seguintes ao telefonema, soube de várias autoridades americanas que altos funcionários da Casa Branca intervieram para “bloquear” todos os registros da ligação, especialmente a transcrição oficial palavra por palavra que foi produzida - como é normal – pelo Gabinete de Crise da Casa Branca (3)3  Esse conjunto de ações enfatizou para mim que os funcionários da Casa Branca entendiam a gravidade do que acontecera na ligação. 

  • Os funcionários da Casa Branca me disseram que foram "orientados" pelos advogados da Casa Branca para remover a transcrição eletrônica do sistema de computador no qual essas transcrições são normalmente armazenadas para coordenação, finalização e distribuição aos funcionários em nível de gabinete.
  • Em vez disso, a transcrição foi carregada em um sistema eletrônico separado que, de outra forma, é usado para armazenar e manipular informações confidenciais de natureza especialmente sensível. Um funcionário da Casa Branca descreveu esse ato como um abuso desse sistema eletrônico porque a ligação não continha nada remotamente sensível do ponto de vista da segurança nacional.

Não sei se medidas semelhantes foram tomadas para restringir o acesso a outros registros da ligação, como anotações manuscritas simultâneas feitas por aqueles que a ouviram.

III. Preocupações contínuas 

Em 26 de julho, um dia após a ligação, o representante especial dos EUA para as negociações na Ucrânia, Kurt Volker, visitou Kiev e se reuniu com o presidente Zelenski e várias figuras políticas da Ucrânia. O embaixador Volker foi acompanhado em suas reuniões pelo embaixador dos EUA na União Europeia, Gordon Sondland. Com base em vários resumos dessas reuniões relatadas a mim, por várias autoridades americanas, os embaixadores Volker e Sondland supostamente deram conselhos à liderança ucraniana sobre como explorar “as demandas que o presidente havia feito a Zelenski".

Também soube por várias autoridades americanas que, em 2 de agosto, Giuliani teria viajado para Madri para se encontrar com um dos conselheiros do presidente Zelenski, Andriy Yermak. As autoridades americanas caracterizaram essa reunião, que não foi divulgada publicamente na época, como um "acompanhamento direto" da ligação do presidente com Zelenski sobre os “casos” que haviam discutido.

  • Separadamente, várias autoridades americanas me disseram que Giuliani teria entrado em contato, de forma privada, com vários outros conselheiros de Zelenski, incluindo o chefe de gabinete Andriy Bohdan e o presidente interino do Serviço de Segurança da Ucrânia, Ivan Bakanov. 4
  • Não sei se essas autoridades se encontraram ou falaram com Giuliani, mas várias autoridades americanas me disseram separadamente que Yermak e Bakanov pretendiam viajar para Washington em meados de agosto.

Em 9 de agosto, o presidente Trump disse aos repórteres: “Acho que [o presidente Zelenski] fará um acordo com o presidente Putin, e ele será convidado para a Casa Branca. E estamos ansiosos para vê-lo. Ele já foi convidado para a Casa Branca e quer vir. E eu acho que ele virá. Ele é um cara muito sensato. Ele quer ver a paz na Ucrânia, e acho que, na verdade, ele virá muito em breve”. 

IV. Circunstâncias que antecederam o telefonema presidencial de 25 de julho

A partir do final de março de 2019, uma série de artigos foi divulgada em uma publicação online chamada The Hill. Nesses artigos, várias autoridades ucranianas - principalmente o procurador-geral Yuriy Lutsenko - fizeram várias alegações contra outras autoridades ucranianas, e autoridades atuais e antigas dos Estados Unidos. Lutsenko e seus colegas alegaram, entre outras coisas que:

  • eles tinham provas de que autoridades ucranianas – especificamente o Chefe do Departamento Nacional Anticorrupção da Ucrânia, Artem Sytnyk e o membro do parlamento Serhiy Leshchenko - haviam "interferido" nas eleições presidenciais de 2016, supostamente em colaboração com o DNC e a Embaixada dos EUA em Kiev 5;
  • a Embaixada dos EUA em Kiev, especificamente a embaixadora dos EUA Marie Yovanovitch, que havia criticado a organização de Lutsenko por seu péssimo histórico no combate à corrupção, teria obstruído a busca de casos de corrupção pelas agências de aplicação de lei ucranianas, inclusive fornecendo uma lista de pessoas que "não deveriam ser processadas", e impediu os promotores ucranianos de viajarem para os Estados Unidos expressamente para evitar que apresentassem suas "provas" sobre as eleições de 2016 nos EUA; 6 e
  • o ex-vice-presidente Biden havia pressionado o ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko, em 2016, a demitir o promotor-geral ucraniano Viktor Shokin, a fim de anular uma suposta investigação criminal contra a Burisma Holdings, uma empresa de energia ucraniana de cujo conselho o filho do ex-vice-presidente, Hunter, fazia parte. 7

Em vários comentários públicos8, Lutsenko também declarou que desejava se comunicar diretamente com o procurador-geral Barr sobre esses assuntos.9

As alegações de Lutsenko foram feitas às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais da Ucrânia, em 31 de março. Naquela época, o patrono político de Lutsenko, o presidente Poroshenko, estava atrás de Zelenski nas pesquisas e parecia que seria derrotado. Zelenski manifestou seu desejo de substituir Lutsenko como procurador-geral (4). Em 21 de abril, Poroshenko perdeu o segundo turno para Zelenski de forma esmagadora. Consulte o Anexo para obter informações adicionais.

4 Em um relatório publicado pelo Projeto de Relatórios de Crime Organizado e Corrupção (OCCRP, na sigla em inglês) de 22 de julho, dois colaboradores de Giuliani teriam viajado para Kiev em maio de 2019 e se encontrado com Bakanov e outro consultor próximo de Zelenski, Serhiy Shefir .

5 Sytnyk e Leshchenko são dois dos principais rivais de Lutsenko. Lutsenko não tem formação jurídica e tem sido amplamente criticado na Ucrânia por politizar investigações criminais e usar seu mandato como procurador-geral para proteger autoridades ucranianas corruptas. Ele discutiu publicamente com Sytnyk, que chefia o único órgão anticorrupção competente da Ucrânia, e com Leshchenko, um ex-jornalista investigativo que criticou repetidamente o histórico de Lutsenko. Em dezembro de 2018, um tribunal ucraniano confirmou uma queixa de um membro do Parlamento, Boryslav Rozenblat, que alegou que Sytnyk e Leshchenko haviam "interferido" nas eleições de 2016 nos EUA, divulgando um documento com detalhes de pagamentos corruptos feitos pelo ex-presidente ucraniano Viktor Yanukovych, antes de sua deposição em 2014. Rozenblat entrou com a ação originalmente no final de 2017, depois de tentar fugir da Ucrânia em meio a uma investigação sobre a aceitação de um suborno grande. Em 16 de julho de 2019, Leshchenko declarou publicamente que um tribunal ucraniano anulou a decisão da instância inferior. 

6  Lutsenko disse mais tarde ao jornal ucraniano The Babel, em 17 de abril, que o embaixador Yovanovitch nunca havia fornecido tal lista e que, na verdade, ele que a teria solicitado.

7 Mais tarde, Lutsenko disse à Bloomberg, em 16 de maio, que o ex-vice-presidente Biden e seu filho não estavam sujeitos a nenhuma investigação ucraniana atual e que ele não tinha provas contra os dois. Outras altas autoridades ucranianas também contestaram suas alegações originais; um ex-promotor ucraniano sênior disse à Bloomberg, em 7 de maio, que Shokin na verdade não estava investigando a Burisma no momento de sua destituição em 2016.

8 Veja, por exemplo, os comentários de Lutsenko ao The Hill nos dias 1º e 7 de abril e sua entrevista para o The Babel em 17 de abril, na qual afirmou que havia conversado com o Giuliani sobre o contato com o procurador-geral Barr.

9 Em maio, o procurador-geral Barr anunciou que estava iniciando uma investigação sobre as “origens” da investigação na Rússia. De acordo com o relatório do OCCRP (22 de julho), mencionado acima, dois colaboradores de Giuliani alegaram estar trabalhando com autoridades ucranianas para descobrirem informações que fariam parte desse inquérito. Em uma entrevista à Fox News, em 8 de agosto, Giuliani afirmou que John Durham, designado pelo procurador-geral Barr para liderar essa investigação, estava "passando muito tempo na Europa", porque ele estava "investigando a Ucrânia". Não sei até que ponto Giuliani está coordenando diretamente suas ações na Ucrânia com o procurador-geral Barr ou Durham.

  • Também foi divulgado publicamente que Giuliani havia se encontrado em pelo menos duas ocasiões com Lutsenko: uma em Nova York no final de janeiro e outra em Varsóvia em meados de fevereiro. Além disso, foi relatado publicamente que Giuliani havia conversado com o ex-promotor geral Shokin no final de 2018, em uma ligação pelo Skype organizada por dois colaboradores de Giuliani.10 
  • Em 25 de abril, em uma entrevista à Fox News, o presidente classificou as alegações de Lutsenko de "grandes" e "incríveis" e afirmou que o procurador-geral "gostaria de ver isso".

Em 29 de abril, eu soube por autoridades dos Estados Unidos com conhecimento direto da situação, que a embaixadora Yovanovitch havia sido repentinamente chamada de volta a Washington por altas autoridades do Departamento de Estado para “consultas” e provavelmente seria afastada de sua posição.

  • Na mesma época, também ouvi de uma autoridade dos EUA que os "colaboradores" de Giuliani estavam tentando fazer contato com a nova equipe de Zelenski.11
  • Em 6 de maio, o Departamento de Estado anunciou que o embaixador Yovanovitch terminaria sua missão em Kiev "conforme planejado".
  • No entanto, várias autoridades americanas me disseram que, de fato, a turnê da embaixadora fora encurtada por causa das pressões decorrentes das alegações de Lutsenko. Giuliani afirmou posteriormente em uma entrevista para um jornalista ucraniano, publicada em 14 de maio, que a embaixadora Yovanovitch foi "afastada ... porque ela fazia parte das ações contra o presidente".

Em 9 de maio, o New York Times publicou que Giuliani planejava viajar para a Ucrânia para pressionar o governo ucraniano a prosseguir com as investigações que ajudariam o presidente em sua candidatura à reeleição em 2020.

  • Em suas inúmeras declarações públicas que antecederam a publicação deste artigo, Giuliani confirmou que estava concentrado em incentivar as autoridades ucranianas a investigar supostas interferências ucranianas nas eleições de 2016 nos EUA e supostas irregularidades cometidas pelo Família Biden.12
  • Na tarde de 10 de maio, o presidente declarou em entrevista ao Politico que planejava conversar com Giuliani sobre a viagem.
  • Algumas horas depois, Giuliani cancelou publicamente sua viagem, alegando que Zelenski estava "cercado por inimigos do presidente [dos EUA] ... e dos Estados Unidos".

Em 11 de maio, Lutsenko se reuniu por duas horas com o presidente eleito Zelenski, de acordo com um relato público dado vários dias depois por Lutsenko. Lutsenko declarou publicamente que havia dito a Zelenski que desejava permanecer como procurador-geral.

10 Veja, por exemplo, os artigos acima mencionados na Bloomberg (16 de maio) e OCCRP (22 de julho).
11 Não sei se esses colaboradores de Giuliani eram os mesmos indivíduos mencionados no relatório de 22 de julho do OCCRP mencionado acima.
12 Veja, por exemplo, a aparição de Giuliani na Fox News em 6 de abril e seus tweets em 23 de abril e 10 de maio. Em sua entrevista ao The New York Times, Giuliani afirmou que o presidente "basicamente sabe o que estou fazendo, como advogado dele". Giuliani também afirmou: "Não estamos nos intrometendo nas eleições, estamos nos intrometendo em uma investigação, que temos o direito de fazer ... Não há nada de ilegal nisso ... Pode-se dizer que é impróprio. E que isso não é política externa, mas estou pedindo que eles façam uma investigação que eles já estão fazendo e que outras pessoas estão dizendo para parar, e vou dar-lhes razões pelas quais eles não devem parar, porque essas informações serão muito, muito úteis para o meu cliente e poderão ser útil para o meu governo ".

A partir de meados de maio, ouvi de várias autoridades americanas que elas estavam profundamente preocupadas, pois consideravam que Giuliani estava se esquivando dos processos de tomada de decisões em segurança nacional, para se envolver com autoridades ucranianas e transmitir mensagens entre Kiev e o presidente (5).5 Essas autoridades também me disseram que:

  • funcionários do Departamento de Estado, incluindo os embaixadores Volker e Sondland, conversaram com Giuliani na tentativa de "conter os danos" à segurança nacional dos EUA; e
  • os embaixadores Volker e Sondland, durante esse período, se reuniram com membros do novo governo ucraniano e, além de discutir questões políticas, procuraram ajudar os líderes ucranianos a entender e responder às diferentes mensagens que estavam recebendo dos canais oficiais dos EUA, por um lado, e de Giuliani, por outro.

Durante esse mesmo período, várias autoridades americanas me disseram que a liderança ucraniana foi levada a acreditar que uma reunião ou telefonema entre o presidente Trump e o presidente Zelenski dependeria de Zelenski mostrar vontade de "se alinhar” nas questões que foram divulgadas publicamente por Lutsenko e Giuliani. (Nota: esse foi o entendimento geral da situação que me foi transmitido pelas autoridades americanas do final de maio até o início de julho. Não sei quem entregou esta mensagem à liderança ucraniana ou quando.) Consulte o Anexo para obter mais informações. 

Logo após a posse do presidente Zelenski, foi divulgado publicamente que Giuliani se encontrou com outras duas autoridades ucranianas: o procurador especial anticorrupção da Ucrânia, Nazar Kholodnytskyy, e um ex-diplomata ucraniano chamado Andriy Telizhenko. Kholodnytskyy e Telizhenko são aliados de Lutsenko e fizeram alegações semelhantes na série de artigos no The Hill mencionados acima.

Em 13 de junho, o presidente disse a George Stephanopoulos, da ABC, que aceitaria informações prejudiciais sobre seus rivais políticos de um governo estrangeiro.

Em 21 de junho, Giuliani tuitou: “O novo presidente da Ucrânia ainda mantém silêncio sobre a investigação da interferência ucraniana em 2016 e o suposto suborno de Poroshenko por Biden. Hora de liderar e investigar os dois, se você quiser se vingar da forma como a Ucrânia foi abusada pelo pessoal de Hillary e Obama.”

Em meados de julho, soube de uma súbita mudança de política em relação à assistência dos EUA à Ucrânia. Consulte o Anexo para obter informações adicionais.

ANEXO: Apêndice confidencial 

(TS / ■■■■■■■■■) De acordo com vários funcionários da Casa Branca com quem conversei, a transcrição da ligação do presidente com o presidente Zelenski foi colocada em um sistema de computador gerenciado diretamente pela Diretoria de Administração do Conselho de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês) para Programas de Inteligência. Este é um sistema de computador independente, reservado para informações de inteligência codificadas, como uma ação secreta. Segundo informações que recebi de funcionários da Casa Branca, algumas autoridades manifestaram preocupações internamente de que isso seria um abuso do sistema e não era consistente com as responsabilidades da Diretoria para Programas de Inteligência. De acordo com funcionários da Casa Branca com quem conversei, "não foi a primeira vez" sob este governo que uma transcrição presidencial foi colocada nesse sistema codificado apenas com o objetivo de proteger informações politicamente sensíveis - em vez de sensíveis à segurança nacional.

[trecho sigiloso]

(S / ■■■■■■■■■) Gostaria de desenvolver duas questões mencionadas na Seção IV que podem ter uma conexão com a ação geral de pressionar a liderança ucraniana. Como não sei definitivamente se as decisões mencionadas abaixo estão relacionadas às ações mais amplas que descrevi, escolhi incluí-las no anexo confidencial. Se elas realmente representam deliberações e decisões políticas genuínas formuladas para promover a política externa e a segurança nacional dos EUA, é possível argumentar de forma aceitável que os fatos são confidenciais.

(S / ■■■■■■■■■) Soube por autoridades dos EUA que, em 14 de maio, ou por volta desse dia, o presidente instruiu o Vice-presidente Pence a cancelar sua viagem planejada à Ucrânia para comparecer à posse do presidente...

[trecho sigiloso]

Zelenski em 20 de maio; O secretário de energia Rick Perry liderou a delegação. De acordo com essas autoridades, também foi "esclarecido" que o presidente não queria se encontrar com Zelenski até ver como ele "optaria por agir no cargo”. Não sei como essa orientação foi comunicada ou por quem. Também não sei se essa ação estava relacionada ao entendimento mais amplo, descrito na carta não confidencial, de que uma reunião ou telefonema entre o presidente Trump e o presidente Zelenski dependeria deste último mostrar vontade de "se alinhar" nos assuntos que tinham sido divulgados publicamente por Lutsenko e Giuliani. 

  • (S / ■■■■■■■■■) Em 18 de julho, um funcionário do gabinete de Gerenciamento e Orçamento (OMB, na sigla em inglês) informou aos departamentos e agências que "no início do mês" o presidente emitira instruções para suspender toda a assistência de segurança dos EUA a Ucrânia: nem o OMB nem a equipe do NSC sabiam por que essa instrução havia sido emitida. Nas reuniões interagências de 23 e 26 de julho, os funcionários da OMB declararam novamente de forma explícita que a instrução para suspender essa assistência veio diretamente do presidente, mas ainda não tinham conhecimento de uma razão política. No início de agosto, ouvi de funcionários americanos que algumas autoridades ucranianas estavam cientes de que a ajuda dos Estados Unidos poderia estar em risco, mas não sei como ou quando souberam disso.
     

Tradução de AGFox

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