Nanico na disputa democrata, prefeito de NY sofre ainda mais na sua cidade

Prefeito da cidade americana é criticado pela lentidão em reagir a problemas do dia a dia da metrópole

Rafael Balago
São Paulo

Em 13 de julho, Nova York teve um apagão que atingiu áreas importantes, como a Times Square. Conforme a noite caía, imagens da TV mostravam as ruas mergulhando na escuridão. 

Na outra metade da tela, o prefeito Bill de Blasio dava entrevista ao vivo, prometendo providências, em um lugar bem iluminado. Estava em Iowa, a 1.700 km da cidade que comanda, em outra missão: tentar ser presidente dos EUA.

O pré-candidato democrata à Presidência Bill de Blasio discursa em Des Moines, no estado de Iowa
O pré-candidato democrata à Presidência Bill de Blasio discursa em Des Moines, no estado de Iowa - Stephen Maturen - 10.ago.19/Getty Images/AFP

Blasio foi criticado por estar longe da cidade e por demorar a voltar. E não só naquele dia: a sensação de que é um prefeito distante o acompanha há algum tempo. Seus rivais dizem que ele costuma ser mais ágil para tomar posição em polêmicas nacionais do que em lidar com o dia a dia.

O prefeito resolveu disputar a Presidência, mesmo tendo mais dois anos e meio de mandato. A ideia não foi bem recebida: pesquisa realizada em abril mostrou que 76% dos nova-iorquinos acham que ele não deveria concorrer.

E o plano não vai bem. Em três meses de pré-campanha, não vieram apoio político nem financeiro. Segundo o site RealClearPolitics, ele oscila em torno de 0,5% dos votos. Suas doações somam pouco mais de US$ 1 milhão. Bernie Sanders, líder de arrecadação, registra US$ 46 milhões, segundo dados do site OpenSecrets.

Mais de 20 democratas disputam a candidatura. Com os números baixos, Blasio deve ficar de fora dos debates. Ausente da TV, a campanha ficará ainda mais difícil. 

Entre as promessas do candidato estão a ampliação de direitos sociais, algo que fez durante sua gestão em Nova York. Também busca marcar posição contra o presidente Donald Trump. Em um ato de campanha na Carolina do Sul, ele se apresentou, com orgulho, como “o pior prefeito dos EUA segundo Trump”.

Na área internacional, Blasio se envolveu, em abril deste ano, em polêmica com o presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que seria homenageado no Museu de História Natural, chamando-o de “perigoso” e homofóbico. Após pressões do prefeito e de ativistas, o evento foi realizado em Dallas (Texas).

O interesse de Blasio por assuntos externos, junto à falta de declarações de que Nova York é incrível, como faziam seus antecessores, gerou outra questão: ele seria um prefeito que não ama a cidade.

Blasio nasceu em Manhattan, mas cresceu nos arredores de Boston —e é criticado por torcer para o Boston Red Sox no beisebol, arquirrival dos New York Yankees.

Sua juventude foi difícil: seus pais se divorciaram quando ele tinha sete anos. O pai, Warren, teve sérios problemas com o álcool e cometeu suicídio quando Blasio tinha 18.

O interesse dividido entre a cidade e o mundo vem desde sua formação: graduou-se em urbanismo e fez mestrado em relações internacionais.

Em 2000, foi gerente da vitoriosa campanha de Hillary Clinton ao Senado. No ano seguinte, elegeu-se vereador em Nova York, cargo no qual ficaria por quase uma década. Em 2010, tornou-se procurador-geral municipal. Na posição, foi crítico a propostas do então prefeito democrata, Michael Bloomberg, que queria diminuir o número de professores para equilibrar o orçamento.

Em 2014, foi eleito prefeito com a promessa de reduzir a desigualdade e as ações policiais de parar e revistar pessoas nas ruas, que atingiam especialmente negros.

Cumpriu a promessa, ao mesmo tempo em que reduziu a criminalidade. No entanto, em seu primeiro ano, a polícia matou o jovem negro Eric Garner durante uma abordagem. Ele morreu sufocado. 

A morte gerou uma onda de protestos, especialmente porque a Justiça se recusou a punir o agente, e o episódio deu origem ao movimento Black Lives Matter (vidas negras importam). 

Na época, Blasio fez um discurso duro e disse que sempre orientou seus filhos adolescentes a terem cuidado com a polícia. Ele é casado com a poeta negra Chirlane McCray.

A postura irritou a corporação, e a tensão segue até hoje. O agente que matou Garner só foi demitido no último mês. 

A lista de desafetos do prefeito inclui também a imprensa local. Para ele, os jornalistas perdem tempo com polêmicas banais, como uma sobre o local onde ele se exercita.

Embora viva em uma residência oficial em Manhattan, Blasio optou por seguir treinando em uma academia no Brooklyn, que fica a 40 minutos de carro, pois queria seguir perto de ex-vizinhos e amigos. Surgiram queixas de que o hábito atrasaria o trabalho na prefeitura durante a manhã.

Apesar do seu esforço para ir à região, parte do Brooklyn ficou contra ele em 2018. O prefeito queria levar para lá uma nova sede da Amazon. Mas moradores protestaram, por temerem que a presença da empresa encarecesse os custos locais —a companhia acabou desistindo da ideia.

Mesmo que seu projeto presidencial naufrague, Blasio tem mais dois anos para buscar um legado como prefeito e tentar fazer as pazes com a cidade. A primeira votação das primárias presidenciais ocorrerá em Iowa, em 3 de fevereiro. Se ele estiver em Nova York nesse dia, certamente ganhará pontos com seus vizinhos.

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