Descrição de chapéu The New York Times

No que se transformará o furacão Dorian? Qual a largura do olho? Suas perguntas respondidas

Fenômeno passou pelas Bahamas e se aproxima da costa Leste dos Estados Unidos

Adam Sobel
The New York Times

Enquanto o furacão Dorian –uma das tempestades mais fortes já registradas no Atlântico— continua a fustigar as Bahamas e se aproxima da parte continental dos Estados Unidos, milhões de pessoas que podem estar em seu caminho estão observando, preocupadas.

Perguntamos aos leitores o que eles querem saber sobre o Dorian. Quem responde as perguntas é o professor Adam Sobel, cientista atmosférico, diretor da Iniciativa sobre Condições Climáticas Extremas, da Universidade Columbia, e autor do livro “Storm Surge”, sobre a supertempestade Sandy.

O que faz um furacão mudar de direção?

O deslocamento dos furacões é determinado principalmente pelo que os meteorologistas chamam de “fluxo direcional” ou “fluxo ambiental”, ou seja, os ventos em escala maior, excluindo a circulação giratória do próprio furacão.

.
Palmeiras agitadas pelo vento gerado pela aproximação de Dorian em Cabo Canaveral, na Flórida - Eve Edelheit/The New York Times

Pense no furacão como um redemoinho que você desenha num rio com um remo de canoa: ele possui sua própria circulação pequena, mas, na escala maior, o redemoinho todo flutua acompanhando a correnteza do rio.

O fluxo ambiental pode apresentar variações de velocidade e direção em diferentes altitudes; a tempestade segue principalmente os ventos de baixas altitudes, mas os ventos em altitudes maiores também exercem uma influência.

Se deixado sozinho, um furacão flutuaria lentamente em direção ao polo Norte ou polo Sul, dependendo do hemisfério em que se encontrasse. Mas o fluxo direcional raramente deixa o furacão flutuar sozinho.

Um furacão muda de direção quando encontra um fluxo direcional que sopra em direção diferente do que o furacão estava sendo impulsionado antes.

Os furacões geralmente se formam em baixas latitudes, em que o fluxo tende a ser de leste a oeste, de modo que os furacões geralmente se deslocam inicialmente em sentido oeste.

Mas, quando eles chegam um pouco mais perto de latitudes mais altas, os ventos direcionais se invertem e sopram de oeste a leste.

Por isso é comum ver furacões seguindo caminhos que se “recurvam”, ou vão de leste a oeste em baixas latitudes e então voltam de oeste a leste quando chegam a latitudes mais altas –que é o que o que se prevê que o Dorian faça, mas há muita incerteza quanto às chances de ele atingir a terra nessa trajetória.

Qual é a largura do olho? Visto desde o espaço, o olho parece claro até a superfície. Isso é possível?

O olho do Dorian estava bastante compacto no fim de semana, mas está crescendo à medida que a tempestade se enfraquece lentamente.

Na manhã do domingo (1º), o Centro Nacional de Furacões americano avaliou que o olho do Dorian tinha 37 quilômetros de diâmetro e era bem definido.

Na terça-feira (3) o Centro divulgou que o olho parecia estar mais largo que isso e que a parede do olho estava ficando um pouco irregular.

Sim, o ar dentro do olho de um furacão maduro pode estar claro até a superfície, se bem que às vezes também há nuvens baixas presentes, como o Centro Nacional de Furacões disse que era o caso na terça-feira. O satélite GOES-16 mostrou nuvens baixas visíveis girando no interior do olho.

Quando o olho do furacão passa sobre a terra, está calmo por dentro? Quanto tempo isso dura?

Sim, o olho de um furacão geralmente é calmo, certamente calmo em comparação com a tempestade à sua volta. Os ventos mais fortes do furacão geralmente estão na parede do olho, na borda do olho.

O tempo que o olho leva para passar por cima de um ponto em terra depende do tamanho do olho e da velocidade de deslocamento do furacão (não da velocidade dos ventos).

Se o olho tiver 32 quilômetros de largura, o furacão estiver se deslocando a 16 km/h e o centro passar diretamente sobre você, o olho levará cerca de duas horas para passar.

Os furacões apresentam variações grandes tanto no tamanho de seus olhos e na velocidade de seu deslocamento; logo, o tempo levado pelo olho para passar sobre um ponto pode variar muito. Mas isso geralmente não leva muito tempo.

O Dorian, infelizmente, vem passando sobre as Bahamas numa lentidão lancinante –durante algum tempo sua velocidade de deslocamento caiu para apenas 1,6 km/h.

Estar sob o olho de um furacão por muito tempo não é problema, mas estar sob a parede do olho por muito tempo é um problema tremendo. É por isso que vimos as ilhas serem tão gravemente devastadas.

Como é calculada a velocidade dos ventos no caso de um furacão como o Dorian?

A estatística fundamental que o Centro Nacional de Furacões divulga em cada um de seus avisos –e que vai determinar a categoria da tempestade na escala Saffir-Simpson— é a “velocidade máxima sustentada dos ventos” na superfície (mais precisamente, dez metros acima da superfície).

Esse é o vento mais forte em qualquer ponto da tempestade que é sustentado por um período de pelo menos um minuto nessa altitude, que é aproximadamente a altura das copas de árvores.

Para saber com precisão quais são os ventos mais fortes em qualquer momento dado, em princípio seria preciso contar com medições feitas em toda parte do interior da tempestade nesse momento.

Em termos práticos, não será possível obter dados tão completos. Por isso os meteorologistas utilizam todos os dados que têm à sua disposição, somados à sua longa experiência e ao conjunto das pesquisas científicas existentes, para inferir o vento máximo sustentado.

O que poderia ser feito com as tecnologias existentes para tornar mais precisas as previsões sobre a força e trajetória dos furacões?

Qualquer coisa que nos desse mais medições do interior de furacões seria valioso. Custa caro levar aviões normais, operados por humanos, para dentro de furacões, por isso drones constituem uma opção promissora.

Já houve alguns experimentos que utilizaram drones para fazer o reconhecimento de furacões. Embora isso ainda não seja feito rotineiramente, é possível que seja no futuro.

Outra ideia é o Aeroclipper, um balão que está sendo desenvolvido na França que flutua em baixa altitude, arrastando atrás de si um cabo que se estende até a superfície do mar com instrumentos dispostos ao longo do cabo que medem o vento, a temperatura, a pressão e a umidade.

Depois de serem soltos, esses balões são impelidos livremente pelo vento, cobrindo distâncias longas sobre o oceano.

E, como os ventos superficiais tendem a convergir em direção a furacões, um balão tem grandes chances de acabar em um furacão e acompanhá-lo enquanto o furacão se desloca.

Assim, uma frota desses balões poderia gerar algumas observações de grande utilidade, especialmente pelo fato de operarem logo acima da superfície do mar, onde seria perigoso demais voar com um avião.

Várias tempestades recentes se deslocaram muito lentamente ou ficaram paradas. Por quê? A causa está ligada à mudança climática?

Um estudo recente constatou que nos últimos anos as tempestades vêm se deslocando mais lentamente que no passado. Esse resultado é provocante e importante, mas cientistas ainda estão tentando entender suas razões.

Não é algo que tivesse sido previsto como possível consequência da mudança climática. Se for, isso ainda precisa ser explicado e demonstrado mais conclusivamente. O fenômeno está sendo estudado.

A chegada de um furacão de categoria cinco no início da temporada significa que outros estão por vir?

Ótima pergunta. Pelo que sabemos, a existência de uma tempestade de categoria cinco não torna mais provável a chegada de outra depois. Não tenho conhecimento de nenhuma pesquisa que tenha demonstrado que esse seja o caso.

O que tipicamente causaria um furacão dessas dimensões a descrever uma virada acentuada na direção de seu giro?

A baixa velocidade de deslocamento do furacão Dorian como um todo (que não deve ser confundida com a velocidade de seus ventos em turbilhão, que é naturalmente muito alta) permite que o furacão seja empurrado em uma direção ou outra de modo mais errático do que se ele estivesse sendo empurrado por um vento direcional forte, que o manteria se movendo de modo mais constante.

Basicamente, porém, a tempestade se desloca com os ventos de grande escala na atmosfera que a cerca (veja a resposta à primeira pergunta).

Esses ventos, em sua maioria, são controlados pelas flutuações na circulação atmosférica global –os ventos alísios, as correntes do jato e os grandes sistemas de alta e baixa pressão.

Estas, por sua vez, estão relacionadas as padrões mais amplos de temperatura superficial (quente perto dos trópicos, frio perto dos polos, etc.) e podem ser influenciados por cadeias montanhosas e pelo contraste entre mar e terra.

Se um furacão passa perto de montanhas, o modo como as montanhas interferem na circulação pode alterar a trajetória do furacão, e isso poderia ter ocorrido se o Dorian tivesse chegado mais perto de Porto Rico ou da República Dominicana.

E os furacões se enfraquecem rapidamente quando passam sobre a terra.

​Por que os Estados Unidos sofre furacões na sua costa Leste, mas não na costa Oeste? O que há no oceano Atlântico que difere do Pacífico?

Furacões se formam, sim, no leste do Pacífico, ao largo da América Central, México e sul da Califórnia (e muitos se formam no Pacífico ocidental, perto da Ásia, embora ali sejam chamados tufões).

Mas, como os ventos de baixas altitudes nos trópicos geralmente sopram de leste a oeste, os furacões do Pacífico oriental tendem a se deslocar para longe da terra, não em direção a ela.

É por isso que os furacões atlânticos não atingem a África ocidental, embora frequentemente se formem ali.

Algumas tempestades do Pacífico oriental descrevem uma meia-volta e chegam à terra na América do Norte. Mas geralmente se enfraquecem muito antes disso, porque os furacões precisam de uma superfície oceânica quente para se manterem fortes, sendo que a temperatura da superfície do mar ao largo da Califórnia e da costa do Pacífico no norte do México é relativamente baixa.

Tradução de Clara Allain 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.