Ex-Podemos, Errejón será nome novo na próxima eleição da Espanha

Novo partido amplia racha na esquerda do país, que teve mais votos, mas não chegou a acordo

Rafael Balago
São Paulo

A falta de acordo entre líderes da esquerda espanhola levou o país à segunda eleição em um ano. E a novidade para a próxima votação será um racha ainda maior.

Iñigo Errejón, 35, foi parceiro de Pablo Iglesias, 40, na criação do Podemos, partido de esquerda radical, em 2014.

Eles se conheceram na Universidade Complutense de Madrid e conviveram por uma década antes de fundarem a legenda.

Na semana passada, Errejón anunciou sua candidatura por uma nova plataforma, chamada Más País, e buscará atrair candidatos ligados ao Podemos com a proposta de facilitar o diálogo com o PSOE (Partido Socialista Trabalhista Espanhol, de centro-esquerda) e, assim, formar um governo.

Iñigo Errejón, no evento de lançamento do Más País, na quarta-feira (25), em Madri - Sergio Perez/Reuters

O PSOE foi o mais votado nas eleições de abril: obteve 123 dos 350 assentos no Parlamento.

Junto com os 42 assentos da coligação Unidas Podemos, tinha condições para formar um governo. Mas não houve acordo: Iglesias queria ministérios de peso, e o PSOE, do atual premiê Pedro Sánchez, não cedeu.

Após meses sem acordo, uma nova eleição foi marcada para 10 de novembro.

A questão de como lidar com outros partidos é um dos pontos que separam Errejón e Iglesias, que defendia distância do PSOE. 

Em 2017, veio a primeira crise. Errejón perdeu o cargo de porta-voz do Podemos no Congresso, que na prática representa o posto de número 2 do partido, para Irene Montero, mulher de Iglesias.

No início de 2019, Errejón saiu do Podemos e se juntou ao Más Madrid, legenda criada pela então prefeita de Madri Manuela Carmena, que buscava a reeleição.

Na eleição municipal de maio, o MM ficou em quarto lugar, com 16% dos votos. O PP (Partido Popular, de direita) teve 24% e levou a prefeitura. Errejón foi eleito deputado regional.

No entanto, a ambição de voltar ao plano nacional logo ressurgiu. Na quarta (25), Errejón anunciou sua entrada na corrida eleitoral e a criação do Más País.

“Estou disposto a encabeçar uma candidatura que garanta um governo progressista”, discursou. “Damos um passo à frente para enfrentar a abstenção." Na última votação, um em cada quatro espanhóis não foi às urnas. 

“O eleitorado de esquerda será motivado [a ir votar]. Alguns para defender Iglesias, e outros para puni-lo”, avaliou José Fernandez-Albertos, cientista político do Conselho Nacional Espanhol de Pesquisas, em entrevista à Reuters.

Errejón aposta em atrair integrantes de seu ex-partido para a nova plataforma. Na sexta, dois deputados do Podemos da região de Múrcia anunciaram sua mudança para o Más País. 

“O Podemos que queríamos construir já não existe”, disse Óscar Urralburu, que deixou o cargo de secretário-geral do partido em Múrcia, em entrevista coletiva.

“Iglesias não soube ver a importância que governar teria. O Podemos foi criado para governar.”

Errejón também busca alianças com partidos menores, como o Equo, focado em demandas ambientais. Com isso, até sexta, o Más País somava acordos para ter candidatos ou integrar coalizões em 17 das 50 províncias espanholas. 

A movimentação do ex-aliado não agradou a Iglesias. “Éramos muito amigos, agora já não somos”, disse Iglesias, na terça-feira (24). 

“Não faz sentido pedir aos líderes políticos que sejam amigos. Isso não é o Gran Hermano (versão local do Big Brother)”, comentou Errejón ao El País, ao ser perguntado sobre o ex-companheiro de partido.

Teme-se que esta fragmentação dificulte ainda mais a formação de um governo. Há três partidos competitivos na esquerda (PSOE, Podemos e Más País) e outros três na direita (PP, Cidadãos e Vox).

A chegada de Cidadãos, em 2005, e Podemos, em 2014, romperam com o bipartidarismo que dominou a Espanha por décadas.

Mas gerou instabilidade e governos de maioria frágil, que levaram à realização de quatro eleições nos últimos quatro anos, avalia Leandro Consentino, professor de ciência política no Insper.

“Nenhum partido quer deixar o naco de poder que conquistou. O PSOE tem medo de perder sua base na esquerda. Ter o Podemos dentro do governo pode estimular o surgimento de novas lideranças, e levar o partido de Sánchez a ser tragado nas próximas eleições”, considera.

“E o Podemos se apega à aura de novidade e à postura de não ceder. Mas, se entrar no governo, será preciso se curvar em algumas coisas.”

Projeções com base no total de votos que obteve no início do ano em Madri indicam que Errejón pode garantir sozinho ao menos cinco assentos no Parlamento, que tem 350 postos.

Ainda é cedo para dizer se, desta vez, os vários retalhos vermelhos conseguirão formar uma colcha.

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