Descrição de chapéu Latino América 21

Por que Evo Morales não quer debater?

A explicação é evitar que os bolivianos o questionem, controlem e avaliem

Jorge Dulón Fernández
Latino América 21

Há quase 80 dias, o candidato à presidência da Bolívia pela Alianza Comunidad Ciudadana (CC), Carlos Mesa, convidou para um debate o candidato ilegal do Movimiento al Socialismo (MAS), Evo Morales.

A resposta não se fez esperar. O candidato à presidência e seus porta-vozes declararam publicamente que Evo estava acostumado a debater única e diretamente com o povo.

Tal resposta, além de servir como saída política, deixou muito que pensar. O que significa exatamente debater com o povo? Por que é importante que os candidatos debatam? Que aspectos positivos se pode obter de um debate? Quanto mais democracia, mais debate? Analisemos.

Debater com o povo significa praticamente nada. É impossível pensar que um só candidato possa debater com o conjunto de pessoas que vivem na Bolívia. O problema, ao que parece, é que o presidente Morales está acostumado a ouvir a própria voz, e para ele debater com o povo é realizar um monólogo em uma praça pública e ser aplaudido e celebrado com veemência.

Evo só fala com os seus militantes e evita fazê-lo com a enorme massa de cidadãos que se opõem a ele. É o mal do poder quase absoluto, a sensação de que o líder sabe tudo e acredita que as maiorias sempre lhe darão razão.

O presidente da Bolívia, Evo Morales, aguarda, sentado, o início da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York
O presidente da Bolívia, Evo Morales, pouco antes da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York - Carlo Allegri - 24.set.2019/Reuters

O que o presidente precisa entender é que, em pleno século 21, o debate se converteu em ferramenta fundamental da comunicação política e da democracia. Graças a essa ferramenta, os cidadãos podem conhecer de uma maneira diferente e digerível as distintas opiniões e propostas estruturais para o país, que no caso das eleições presidenciais da Bolívia se expressam em forma de programas de governo.

A virtude de um debate tem a ver exatamente com isso, dar opções aos cidadãos, mostrar capacidades, linhas de pensamento, projetos, programas, e deixar que os eleitores sejam as pessoas que contrastam e tenham a possibilidade de escolher com base nesses programas. O debate, nesse sentido, se converte inclusive em um instrumento pedagógico por meio do qual o cidadão pode aprender sobre os diferentes temas abordados nele.

Lamentavelmente, na Bolívia ao que parece não existe o costume de debater, e menos ainda o de dialogar, e por isso o nível de debate é mínimo. Isso fica claro, nessa época de campanha eleitoral, no caso de alguns candidatos a deputado e senador que não se preparam ou ficam nervosos e não oferecem os insumos valiosos de informação que são fundamentais para a democracia.

O mesmo acontece com alguns jornalistas, que parecem não preparar suas perguntas para o formato do debate e improvisam o tempo todo, o que leva os temas a serem repetidos e os futuros eleitores a não receber informações valiosas.

A qualidade do debate foi decaindo pouco a pouco. Talvez seja por isso que há mais de 13 anos não existem espaços de debate plural. Desde que ocorreu ao presidente Evo a ideia de debater com ninguém, a grande maioria dos bolivianos relaxou e recaiu na mesma lógica de não exigir debates.

O que se converte em um círculo vicioso, dessa forma. Se os candidatos recusam o debate, os cidadãos não têm espaços amigáveis para receber informações e portanto acorrem às urnas para votar sem conhecer a essência das propostas. Portanto, sem sabê-lo, correm o risco de votar em um candidato irresponsável, corrupto e em busca de se perpetuar no poder. Ou seja, a votação se converte em uma roleta russa na qual o cidadão vota de acordo com "a sorte".

Se, pelo contrário, os debates fossem realidade na Bolívia, como acontece em quase todos os países democráticos do planeta nos quais o debate plural, argumentado e pluripartidário é fomentado, os cidadãos poderiam exercer controle adequado sobre o cumprimento dos programas de governo quando o candidato vencedor assumir o cargo, em uma lógica de corresponsabilidade entre o Estado e a sociedade.

Carlos Mesa, ex-presidente da Bolívia e candidato que rivalizará com Evo Morales nas próximas eleições no país, durante  entrevista
Carlos Mesa, ex-presidente da Bolívia e candidato que rivalizará com Evo Morales nas próximas eleições no país - David Mercado - 22.jul.2019/Reuters

Além disso, o debate poderia levar à possibilidade de acordos mínimos entre diferentes opções. Ou seja, se no debate forem identificadas coincidências entre os candidatos, na hora de exercer o poder os cidadãos poderiam exigir que essas posições coincidentes se tornem realidade.

Enfim, podemos afirmar que os debates são muito importantes para a formação de uma opinião cidadã responsável, para gerar participação cidadã, para desenvolver a corresponsabilidade entre o Estado e a sociedade e para educar os cidadãos.

E assim, se na Bolívia o debate em seu mais alto nível não for fomentado, o país sofrerá as consequências negativas, ou seja, a possibilidade de participação se reduzirá, o nível de conhecimento e opinião quanto às propostas, projetos e programas será mínimo, e com isso, de maneira quase inconsciente, o autoritarismo e a ignorância da sociedade continuarão a ser fomentados.

Talvez seja essa a explicação mais profunda para que Evo Morales recuse até o hoje o debate: evitar que os bolivianos o questionem, controlem e avaliem.

Jorge Dulon Fernández é administrador público e cientista político (Universidad de Chile) e mestre em gestão e políticas públicas (MpD UCB – Harvard).

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@latinoamerica21

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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