Por religião ou altruísmo, brasileiros foram à Síria combater Estado Islâmico

Paulistano e catarinense se tornaram voluntários de forças curdas para lutar contra grupo terrorista

Flávia Mantovani
São Paulo

No Brasil, eles se chamam Jefferson Silveira e Luís Felipe Alves. Na Síria, eram Soresh (guerreiro) e Baz Dilsoz (falcão que carrega uma promessa no coração).

Os codinomes de guerra foram dados aos brasileiros no Curdistão sírio (norte do país), onde atuaram como voluntários para ajudar a combater o Estado Islâmico (EI) e a libertar cidades e vilas ocupadas pelo grupo terrorista.

Luis Felipe, que foi voluntário no exército curdo na Síria, em sua casa em São Paulo - Danilo Verpa/Folhapress

Paulistano e sem experiência militar prévia, Luís Felipe, 30, participou do conflito de janeiro a julho de 2017. Catarinense e com cidadania americana, Jefferson, 46, teve uma passagem pelo Exército dos EUA e lutou cinco meses na Síria em 2015 e outros seis meses entre 2016 e 2017.

Ambos combateram junto ao YPG (Unidades de Proteção do Povo), milícia curda apoiada pelos EUA, para libertar as áreas ocupadas pelo Estado Islâmico. Eles não se conheciam antes e se encontraram brevemente durante a missão.

Ainda que o YPG tenha recebido centenas de voluntários internacionais, Luís Felipe e Jefferson, que entraram em contato com os curdos via redes sociais, dizem não terem ouvido falar de outros brasileiros além deles por lá. “Eles se perguntavam: ‘O que esse cara está fazendo aqui?’ Os europeus, que são a maioria dos estrangeiros, estavam ali pertinho, fazia mais sentido irem”, lembra Jefferson.

Segundo Luís, os estrangeiros eram divididos em três grupos: católicos, “políticos” (anarquistas ou de esquerda) e ex-militares que têm vício na adrenalina da guerra. “E todos conviviam muito bem”, conta.

Ele faz parte do primeiro grupo. Católico, decidiu ir ao combate após o padre francês Jacques Hamel ser degolado pelo EI em julho de 2016. “Isso chamou minha atenção para o sofrimento das minorias naquela região, em especial os cristãos. Tentei dar minha contribuição, ficar em paz com a consciência”, afirma.

Luís saiu do Brasil no Natal de 2016, dias depois de defender um mestrado em física nuclear pela USP. À família, disse apenas que seria voluntário na Síria —mas não como soldado.

O treinamento que recebeu lá era mais voltado para questões ideológicas do que bélicas, relata. “Os curdos são muito orgulhosos da história deles e gostam de receber estrangeiros para difundir a filosofia do [líder independentista curdo] Abdullah Öcalan, que é um herói local”, afirma.

Mesmo sem experiência prévia, Luís ficou responsável por manejar uma arma antiaérea, a dushka, criada por soviéticos na época da Segunda Guerra. “Quando a tecnologia dos aviões melhorou, ela foi redirecionada para ser suporte de infantaria. É uma arma muito potente, que derruba paredes.”

Também ajudava a localizar as muitas minas deixadas pelos jihadistas nas áreas reconquistadas. “Com o tempo você cria um faro para raciocinar como um especialista do Estado Islâmico e descobrir onde ele planta os explosivos. Vira um jogo de gato e rato”, diz. 

Ele afirma ter participado da liberação de 20 vilas e cidades. Em uma delas, viu uma bandeira do Brasil em um prédio que servia de base para os líderes da milícia terrorista. Trouxe como lembrança.

Ao entrar nos vilarejos, encontrava idosos que pediam que os soldados cortassem suas barbas (obrigatórias sob o regime do EI) e homens que pegavam três cigarros ao mesmo tempo —fumar era proibido, e um deles mostrou as costas feridas por chibatadas que levou ao ser pego no ato.

“Havia também quem fosse a favor do Estado Islâmico e nos visse como inimigos. Tinha senhorinha que passava por nós e cuspia no chão”, conta Luís.

O dia a dia, entretanto, era menos emocionante. A “visão romantizada de que há combate toda hora” contrastava com grande parte do tempo de “um tédio absurdo”.

As tarefas no quartel incluíam cozinhar e limpar. Era comum faltarem mantimentos, e Luís chegou a ter alucinações após quatro dias sem comer: viu um elefante imaginário durante uma patrulha.

Enquanto estava lá, cerca de 15 estrangeiros morreram —ou “viraram pôster amarelo”, referência aos cartazes dessa cor onde são retratados os “mártires” do movimento. “Mas para cada estrangeiro, morriam 500 curdos. Era desesperador, e eles têm uma bravura impressionante.”

Enquanto Luís chegava para a libertação de Raqqa, considerada pelo EI a capital de seu "califado", três britânicos e um americano morreram em um só dia. Depois disso, os estrangeiros foram impedidos de combater, e ele decidiu voltar.

Cruzando ilegalmente a fronteira com o Iraque, porém, o grupo em que estava foi preso. Luís diz que foi “brutalmente agredido” e depois passou 34 dias detido em uma cela feita para 30 pessoas, mas que abrigava 78. “Conseguimos nos impor e ninguém mexia com a gente lá dentro, mas era um inferno”, conta. 

Foi libertado graças à ajuda do Itamaraty, que confirmou à Folha ter ajudado a tirar o brasileiro da prisão. Chegou tão magro em casa que não foi reconhecido pela irmã, que pensou se tratar de um ladrão.

Foi uma outra irmã de Luís que o estimulou a contar sua história pela primeira vez: ela teme que ele esqueça detalhes do que viveu

Para Jefferson Silveira, o “guerreiro”, a experiência na Síria foi tão transformadora que ele foi duas vezes. “Quando voltei da primeira vez para casa, assim que entrei no avião já me senti culpado. Eu me perguntava: por que saí? Por que não estou ajudando? Não tirava a guerra da cabeça.”

Jefferson Silveira em Balneário Barra do Sul, litoral norte de Santa Catarina - Alan Pedro/Folhapress

Ele viu grande diferença entre os dois momentos. Em 2015, quando fez parte da segunda leva de voluntários internacionais do YPG, a improvisação era maior. “Era desorganizado e precário, estilo Primeira Guerra. Não tinha comida, água, apoio médico, se levasse um tiro eram quatro horas até o hospital. [Nos EUA] eu tinha treinado em um exército com grandes grupos, equipamentos top de linha, era totalmente diferente.”

No ano seguinte, encontrou um pouco mais de estrutura. Jefferson diz que atuava como soldado na linha de frente e que encarou cenários aterrorizantes onde jihadistas do EI torturavam e matavam pessoas.

No bolso, Jefferson e os companheiros sempre tinham duas balas e duas granadas extras, para usar “caso tudo desse errado”. “Não ia me deixar ser capturado de jeito nenhum.”

Antes de deixar uma vila, os terroristas enterravam tambores de combustível cheios de explosivos, além das minas, para matar os recém-chegados. Outros riscos eram abrir uma porta com um detonador na maçaneta, pisar em um explosivo ou passar perto de um carro-bomba. 

“Uma vez estávamos em uma escola e mandaram três carros-bomba. Naquele dia tivemos umas 20 baixas”, conta.

Ele afirma que não foi a adrenalina do combate que o atraiu, mas a vontade de ajudar. “Vi o sofrimento da população no noticiário e quis fazer alguma coisa. Eles estavam escravizando mulheres, matando crianças, e àquela altura ninguém estava fazendo nada.”

Na época, Jefferson morava na Califórnia e não contou para a família o que iria fazer. “Sabia que a reação seria negativa, e já tinha botado na cabeça que queria ir. Só falei para um amigo, que me achou insano.”

Jefferson saiu da Síria na época da tomada de Raqqa. Hoje, voltou para Brusque, em Santa Catarina, onde vive do dinheiro que juntou nos EUA.

Em março, o YPG e seus aliados anunciaram a tomada de Baghuz, último vilarejo controlado pelo EI no país. Alertaram, porém, que o grupo jihadista continua sendo uma ameaça.

Luís Felipe, formado em física e filosofia, trabalha atualmente como programador em São Paulo. Ele classifica a experiência na Síria como “a mais terrível e mais maravilhosa” de sua vida.

“A guerra é horrível, mas foi também um momento de renovação, de fé, de amizades profundas. Ver a maldade e a bondade gigantescas do ser humano me deram uma visão melhor da vida.”

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