Revolução Chinesa chega aos 70 com Hong Kong como calcanhar de Aquiles

Xi Jinping afirma que seguirá respeitando 'elevado grau de autonomia' da ex-colônia britânica

Bianka Vieira Diana Lott
São Paulo | AFP e Reuters

Milhares de soldados marcharam pela praça da Paz Celestial nesta terça feira (1º, segunda à noite em Brasília) durante a cerimônia de comemoração dos 70 anos da revolução que deu origem ao atual regime chinês.

Na costa sul do país, os agentes que policiavam as ruas quase vazias de Hong Kong não lembravam em nada o balé militar de Pequim. 

Militares marcham em Pequim durante a cerimônia de comemoração dos 70 anos da revolução que deu origem ao regime comunista chinês
Militares marcham em Pequim durante a cerimônia de comemoração dos 70 anos da revolução que deu origem ao regime comunista chinês - Liu Xu/Xinhua

Temendo que protestos pró-democracia ofuscassem a monumental comemoração, a China continental mais que dobrou o número de policiais e militares na ex-colônia britânica e barrou o acesso a vários prédios e vias públicas. Várias estações de metrô foram fechadas.

Durante seu discurso à nação, assistido por milhares de pessoas, o dirigente chinês, Xi Jinping, botou panos quentes na crise com Hong Kong.

“Avançando para o futuro, precisamos manter nosso compromisso com a promessa de reunificação pacífica e de ‘um país, dois sistemas’”, disse, referindo-se ao acordo firmado com o Reino Unido à época da devolução do território à China.

O arranjo garante liberdade de expressão, acesso sem restrições à internet e independência judicial a Hong Kong—direitos que não são compartilhados com os cidadãos da China continental.

Parte dos honcongueses parece discordar da ideia de que o regime tem respeitado esse princípio. Desde que chegou ao poder, em 2013, Xi vem gradualmente aumentando a repressão do regime sobre minorias e minando a independência de Hong Kong. 

 

Na segunda (30), as ruas de Hong Kong amanheceram cobertas por pichações. Entre as palavras de ordem estavam “liberdade para Hong Kong” e ofensas à China, como o termo “chinazi”, conjunção das palavras “china” e “nazista”.

Autoridades locais negaram uma autorização para a realização nesta terça de um protesto pró-democracia, mas preveem que ocorrerão atos “muito perigosos”.

Diplomatas que vivem no território estimam que Pequim aumentou o número de agentes de segurança de cerca de 5.000, antes dos protestos, para mais de 12 mil nas últimas semanas.

Parte das forças enviadas, segundo eles, incluem membros da Polícia Armada do Povo, um grupo paramilitar da China continental especializado em conter protestos.

 

As manifestações e a crise começaram em junho, quando o governo local propôs um projeto de lei, apoiado por Pequim, que autorizava a extradição de suspeitos para serem julgados pelos tribunais controlados pelo Partido Comunista na China continental.

A violenta repressão da polícia acabou por inflamar as manifestações, que continuaram mesmo após a chefe-executiva de Hong Kong, Carrie Lam, retirar a proposta no início de setembro —a decisão foi vista como o maior recuo do governo de Xi.

Nos últimos meses, o movimento adotou uma ampla agenda pró-democracia, incluindo a realização de uma reforma política que implantaria eleições diretas no território, a investigação de abusos por parte da polícia e a libertação de manifestantes presos. 

Em uma tentativa de controlar a narrativa sobre a crise em Hong Kong, o Partido Comunista tem adotado o discurso oficial de que os manifestantes são terroristas.

A orientação dada à mídia chinesa pelo Partido Comunista é que sejam divulgados conteúdos que priorizem a “energia positiva” das comemorações em detrimento de notícias negativas —incluindo acidentes e desastres naturais.

Em Pequim, como parte de uma investida “paz e amor”, imagens e mensagens patrióticas que elogiam o Partido Comunista têm sido projetadas nos arranha-céus da cidade. 

Ainda no discurso, Xi falou sobre questões referentes à economia do país, uma mensagem sutil aos EUA: “Não há força que possa abalar esta grande nação.”

Além do pronunciamento, haverá uma marcha protagonizada por 100 mil pessoas, 70 mil pombos e 70 mil balões —representando os 70 anos do regime. A atração principal é a parada militar com cerca de 15 mil homens, 160 aviões e dezenas de mísseis balísticos, uma forma de exibir ao mundo a China como superpotência global. 

A praça da Paz Celestial, onde ocorrem as festividades, foi palco do maior movimento de insurgência contra o regime. A repressão de estudantes que lideravam protestos a favor da democracia e contra a corrupção em 4 de junho de 1989 deixou centenas ou até milhares de vítimas, que se manifestavam havia semanas. A China nunca divulgou um número oficial de mortos.


A China comunista

1945
Japão se rende e desocupa a China. Guerra civil entre nacionalistas e comunistas é retomada

1º.out.1949
Líder comunista Mao Tsé-Tung proclama a República Popular da China. Nacionalistas fogem para Taiwan

1958
Mao lança o Grande Salto Para a Frente, para industrializar o país. O plano falha e mais de 20 milhões morrem de fome

1966
Mao cria a Revolução Cultural, para tentar apagar o passado chinês. Há forte perseguição a opositores

1972
Richard Nixon visita a China para marcar a retomada das relações com os EUA 

1976
Morre Mao, aos 82 anos

1978
Deng Xiaoping assume o comando e inicia reformas econômicas, que liberam investimentos estrangeiros e práticas capitalistas em algumas regiões

1989
Protestos pró-democracia são duramente sufocados, e momento fica conhecido como Massacre da Praça da Paz Celestial

1993
Morre Xiaoping. Jiang Zemin (1993-2003) e Hu Jintao (2003-2012) foram os dirigentes seguintes

2011
China se torna a 2ª maior economia do mundo

2012
Xi Jinping é escolhido dirigente. Em 2018, limite de mandatos é abolido, e ele poderá ficar no cargo indefinidamente

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