Putin sofre derrota simbólica em eleição em Moscou

Partido do presidente perde espaço no Parlamento local da capital russa para candidatos obscuros

Igor Gielow
Estocolmo

Após os maiores protestos desde 2012 na Rússia, os eleitores de Moscou deram um recado ao presidente Vladimir Putin na eleição para a Duma (Parlamento) local da capital do país.

O partido de Putin, o Rússia Unida, perdeu espaço na assembleia: tinha 38 representantes (dez deles independentes, mas apoiados pela sigla) e neste domingo (8) elegeu 26.

É suficiente para manter o controle da Duma, que tem 45 deputados, mas altamente simbólico dada a natureza dos protestos que chacoalharam Moscou por vários fins de semana seguidos desde junho, quando a Comissão Eleitoral barrou diversos candidatos de oposição do pleito.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, dá o seu voto durante as eleições da Duma, em Moscou - Alexey Nikolsky - 8.set.2019/AFP

Vários deles eram ligados ao blogueiro e líder oposicionista Alexei Navalni, que foi detido por organizar protestos sem autorização.

A justificativa da comissão era formal, como falta de assinaturas consideradas plausíveis para o registro das candidaturas.

Os preteridos alegam que foram excluídos por perseguição política, e organizaram grandes protestos todos os sábados, levando a um aumento da repressão policial —centenas eram presos a cada fim de semana, e seus líderes acabaram processados, sujeitos a penas de até 25 anos de cadeia.

Sem seus representantes nominais, a oposição não só deu apoio a partidos tradicionalmente contrários a Putin, como o Iabloko, mas também fizeram campanha por qualquer candidato que tivesse possibilidade de derrotar os nomes do Rússia Unida em cada um dos distritos eleitorais moscovitas.

Assim, nomes conhecidos como o de Andrei Metelski, o presidente do Rússia Unida em Moscou, acabaram derrotados por desconhecidos. Os dados sobre a nova composição da assembleia ainda são parciais, tendo sido divulgados pela agência estatal RIA.

Além dos desconhecidos, o Iabloko e o Partido Rússia Justa ganharam três cadeiras cada um. O Partido Comunista subiu sua representação de cinco eleitos em 2014 para 13.

Houve eleições em todo o país, mas o pleito moscovita era o mais aguardado. A Duma em si quase não tem poder e é cedo para dizer se a votação se refletirá em um movimento que atinja eleições parlamentares, mas o encolhimento do Rússia Unida na capital é um sinal claro para Putin.

O presidente, reeleito pela quarta vez em 2018 e que teoricamente terá de deixar o Kremlin em 2024, enfrenta uma queda em sua popularidade.

O país tem dificuldade de se recuperar da recessão que o atingiu até 2016, crescendo apenas entre 1% e 2% desde então.

Putin vem sendo bem-sucedido em suas empreitadas de política externa, mas questões domésticas como a adoção de uma reforma previdenciária que aumentou a idade mínima para a aposentadoria o afetam: dos cerca de 80% de popularidade que vinha exibindo, hoje ele está na casa dos 60%.

Descrita no exterior como um regime autocrático, a Presidência de Putin tem na aferição da popularidade do líder um fator central para sua sustentabilidade.

É consenso entre analistas que a divisão de poder que ele estabeleceu entre as elites, criando disputas faccionais enquanto controla o sistema por cima, tem seu limite no quão popular Putin for.

Desta forma, uma combinação entre mais repressão contra ativistas e medidas populistas é bastante provável nos meses que se seguirão.

Putin não tem um sucessor apontado, e muitos especulam se ele mudaria a Constituição para tentar permanecer no poder —algo que se recusou a fazer no passado, quando deixou o cargo e assumiu o de primeiro-ministro no governo de seu pupilo Dmitri Medvedev (2008-2012).

A oposição, apesar da vitória de domingo, não está em melhor forma.

Não há um nome que agregue as diversas correntes anti-Putin, e Navalni é um nome com baixa penetração nacional —pesquisas sempre deram a ele quase traço de intenções de voto a presidente, ainda que ele tenha sido barrado de concorrer em 2018 por ter uma condenação judicial que diz ter sido uma armação de Putin.

 

O jornalista Igor Gielow viaja a convite da Saab

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