Rainha Elizabeth 2ª envia carta a alunos de escola pública do interior gaúcho

'Sua Majestade ficou feliz em ver as esplêndidas fotografias que vocês enviaram', afirma a correspondência

Paula Sperb
Porto Alegre

Alguns minutos das férias de verão da rainha do Reino Unido, Elizabeth 2ª, foram reservados a ler uma carta enviada por estudantes de Fagundes Varela, cidadezinha de 2.731 habitantes a 135 km de Porto Alegre, uma das menos populosas do Brasil. 

Do castelo de Balmoral, na Escócia, onde passava a temporada de calor com o marido, o príncipe Philip, a monarca ordenou a sua dama de companhia que redigisse uma resposta aos alunos da Escola Municipal Caminhos do Aprender. O colégio público é o único do município gaúcho.

A rainha Elizabeth2ª e o príncipe Charles acompanham cerimônia na cidade escocesa de Braemar
A rainha Elizabeth 2ª e o príncipe Charles acompanham cerimônia na cidade escocesa de Braemar - Russell Cheyne - 7.set.19/Reuters

“A rainha espera que vocês tenham gostado dos seus estudos. Sua majestade ficou feliz em ver as esplêndidas fotografias que vocês enviaram”, respondeu, em 12 de agosto, aos 25 alunos de duas turmas da terceira série do ensino fundamental.

A correspondência chegou a Fagundes Varela 15 dias depois, acompanhada de materiais educativos em inglês sobre a família real.

O mesmo material pode ser visto nas fotos do site oficial da realeza no qual aparecem outras crianças orgulhosas com suas respostas.

“Ela recebe muitas cartas, não imaginava que responderia. Gostei de aprender sobre o palácio”, disse Estér Boschetti, 8. 

“O palácio de Westminster [sede do Parlamento]?”, perguntou a repórter. “Não, o de Buckingham [sede da monarquia]”, respondeu, bem informada, antes de voltar à aula de música. 

Por meio de um projeto iniciado em abril, as crianças aprenderam matemática, geografia, história, português e inglês pesquisando sobre a monarquia.

O tema foi uma escolha dos próprios alunos a partir do interesse pelas figuras das rainhas das festas comunitárias locais. São jovens que usam coroas, vestidos de princesa e divulgam a economia e cultura da região. 

“Pedimos que prestassem atenção nas notícias durante alguns dias e acompanhassem o Jornal Nacional para ver se aparecia alguma rainha de verdade", conta a professora Nicole Cenci, 27, que realizou o trabalho junto à educadora Jéssica Tessaro.

"Um aluno assistiu à notícia sobre a crise no Reino Unido [causada pelas indefinições do brexit], que mencionava a Elizabeth 2ª. Então pesquisamos a família real.” 

A partir daí, foi uma imersão, iniciando pela coroação de Elizabeth, em 1953. “Eles aprenderam como funciona a hierarquia e como ela só virou rainha porque o tio abdicou ao trono”, diz Cenci.

Os estudantes fizeram uma réplica da coroa da rainha e construíram maquetes com pontos importantes de Londres. “As maquetes ajudaram a aprender sobre formas geométricas.” 

Os numerais romanos também foram estudados, usando o Big Ben como referência. O diâmetro em tamanho real foi desenhado no chão da escola, com os ponteiros do relógio de três e quatro metros.

“Assim eles entenderam as proporções de uma forma mais concreta e menos abstrata. Foi um projeto completo, com as habilidades e competências curriculares incluídas”, conta a professora. 

As roupas coloridas da rainha também chamaram a atenção das crianças, que estudaram hábitos culturais com direito a tomar o “chá das cinco”.

Todo o conteúdo que descobriram foi apresentado em um teatro em formato de telejornal.

Durante o projeto, descobriram quer era possível enviar uma carta à rainha. Traçaram uma estratégia: escreveriam pouco para não serem ignorados e anexariam as fotos dos trabalhos realizados. 

“O mais difícil foi resumir, porque eles tinham muitas perguntas”, relembra Cenci. A carta foi escrita em português e traduzida pela professora Daniela Emerick. 

As professoras aproveitaram a oportunidade para ensinar como se escreve uma carta (eles escreveram uns aos outros) e elementos de uma correspondência, como remetente e CEP. 

“Levamos eles à agência dos Correios da cidade. Eles viram o caminhão de cartas chegando, souberam como são organizados os endereços. Para muitos foi uma novidade, porque alguns moram na área rural, e as correspondências não chegam, eles precisam retirar na agência”, diz Cenci. 

A breve missiva foi postada em 4 de julho. “Surgiu o interesse de saber mais sobre a vida de uma rainha de verdade”, justificaram. “Gostaríamos de saber como Vossa Majestade faz para conciliar sua vida de mãe/avó com as responsabilidades da realeza.” 

A dúvida não foi respondida especificamente, mas Elizabeth recebeu em Balmoral, durante o descanso de verão, o neto William e Kate Middleton, pais de três de seus bisnetos.

“Agradeço muito por manterem Sua Majestade em seus pensamentos, isso foi muito apreciado”, encerrou a correspondência real. 


E se eu quiser falar com a rainha...?

  • As cartas devem ser enviadas para Her Majesty the Queen, Buckingham Palace, London, SW1A 1AA  (Sua Majestade A Rainha, Palácio de Buckingham, Londres, SW1A 1AA) 
  •  Elizabeth recebe correspondências diariamente por meio de sua equipe
  • O protocolo da família real estabelece que não é obrigatório tratá-la formalmente e que o autor da carta deve se sentir à vontade para escrever conforme desejar. Mas, caso opte por uma abordagem formal, dirija-se a ela como “Senhora” e despeça-se com “Tenho a honra de ser, Senhora, serva/o humilde e obediente de Sua Majestade” 
  • A rainha não se envolve em nenhuma disputa política ou pessoal —cartas com esses tópicos recebem uma resposta padrão com essa informação. Ela também não recebe presentes por questões de segurança
  • Não há indicação de que as cartas devam ser em inglês 
  • Também não há orientação sobre o tamanho do texto

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