Crise de Trump com Ucrânia aumenta pressão entre democratas por apoio a impeachment

Críticas à liderança se intensificam, e tomada de posição é exigida de deputados moderados

Nicholas Fandos Maggie Haberman Johnatan Martin
Washington | The New York Times

O presidente Donald Trump reconheceu, neste domingo (22), ter acusado de corrupção um de seus principais rivais políticos, Joe Biden, durante uma ligação telefônica para o presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski.

A confissão tem gerado acusações de que Trump se engajou deliberadamente para obter ajuda estrangeira para sua própria reeleição, o que intensificou a pressão sobre os democratas que relutam em pedir o impeachment.

O presidente dos EUA, Donald Trump, no Salão Oval da Casa Branca, em Washington - Joshua Roberts - 5.set.2019/Reuters

Muitos democratas já vinham sugerindo, em público e em particular, que as evidências dos últimos dias indicavam a pressão de Trump sobre o governo ucraniano, e acusavam sua tentativa de obstruir o acesso do Congresso a mais informações. 
 
O presidente do Comitê de Inteligência da Câmara, Adam Schiff, que se mostrou cético em relação aos telefonemas, disse que a Câmara agora pode "atravessar o [rio] Rubicão" —referência do Império Romano que simboliza a tomada de uma grande decisão— em vista das novas divulgações e da recusa do governo em fornecer informações relacionadas ao autor da denúncia.

Um grupo de parlamentares novatos moderados, que se opuseram a uma investigação de impeachment, disse que considerava mudar de opinião. Os progressistas, enquanto isso, intensificaram suas críticas à liderança do partido por não agir.

A rápida evolução da situação levou a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, a enviar um alerta para a Casa Branca: entregue o autor da denúncia até quinta-feira (26) ou enfrente um sério agravamento no Congresso, diz o documento.

Em uma carta aos democratas da Câmara, Pelosi não menciona a palavra "impeachment", mas sua mensagem pareceu sugerir a possibilidade.

“Se o governo persistir em impedir que esse delator divulgue ao Congresso uma possível violação grave dos deveres constitucionais por parte do presidente, ele entrará em um novo e grave capítulo de ilegalidade que nos levará a uma nova etapa de investigação”, escreveu Pelosi.

As acusações giram em torno da possibilidade de Trump ter pressionado um aliado vulnerável a tomar medidas para prejudicar Biden, possivelmente usando a ajuda militar dos Estados Unidos como alavanca.

A Ucrânia, hoje, trava uma guerra com a Rússia, e o governo Trump reteve temporariamente um pacote de US$ 250 milhões (R$ 1,04 bilhão) em financiamento militar. 

O jornal Washington Post revelou nesta segunda que o presidente americano ordenou a seu chefe de gabinete que congelasse as verbas previstas para a Ucrânia poucos dias antes do telefonema com Zelenski.

A ordem de Trump foi transmitida ao Pentágono e ao Departamento de Estado, que foram informados que a Casa Branca estaria revendo a necessidade do pacote.

O presidente americano não mostrou nenhum sinal de arrependimento no domingo, quando disse a assessores que os democratas estavam exagerando sobre um assunto que os eleitores relevariam.

Publicamente, ele trabalhou para focar a atenção não em suas próprias ações, mas nas de Biden.

Em entrevista a repórteres, o presidente defendeu que a ligação realizada em julho para o presidente Volodimir Zelenski foi "inteiramente apropriada" e evitou confirmar diretamente as notícias sobre o que foi discutido. 

O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski - Hannibal Hanschke - 18.jun.2019/Reuters

"A conversa que tive foi em grande parte para parabenizar e, principalmente, sobre o fato de que não queremos que nosso povo, como o vice-presidente Biden e seu filho, colaborem para a corrupção que já existe na Ucrânia", disse Trump.

Ainda não está claro se o mais recente escândalo em torno da conduta de Trump levará Pelosi ou outros democratas importantes a concordar com a continuação dos processos e da votação do impeachment.

O Comitê Judiciário da Câmara já vem investigado se deve recomendar um impeachment contra Trump por outros assuntos, mas, até então, Pelosi vinha questionando a força desses casos.

Os defensores do impeachment mencionam repetidamente as revelações —incluindo diversos casos de possível obstrução da justiça por Trump, detalhados pela investigação da interferência da Rússia nas eleições de 2016.

Mas eles se depararam com a resistência ou a indiferença de seus colegas e do público em geral. E, dada a oposição republicana quase unânime, qualquer processo de impeachment provavelmente resultaria em absolvição do Senado.

No domingo, a situação parecia não ter mudado, e a maioria dos parlamentares republicanos ainda não se pronunciavam sobre as últimas alegações contra Trump. As exceções foram dois parlamentares que sugeriram que a Casa Branca divulgasse o conteúdo de sua ligação com Zelenski.

"Espero que o presidente possa compartilhar, de maneira apropriada, informações para lidar com o drama em torno do telefonema", disse o senador Lindsey Graham, da Carolina do Sul. "Acho que seria bom para o país se pudéssemos enfrentar essa questão."

O senador Mitt Romney, de Utah, candidato republicano à presidência em 2012, foi mais crítico, considerando "altamente importante que os fatos fossem divulgados".

"Se o presidente pediu ou pressionou o presidente da Ucrânia a investigar seu rival político, diretamente ou por meio de seu advogado pessoal, isso seria extremamente preocupante", disse.

Entrevistas com mais de uma dúzia de parlamentares democratas neste fim de semana deixaram claro que eles acreditavam que as últimas alegações tinham o potencial de serem incriminatórias, com perspectivas de promoverem a campanha de impeachment justamente no momento em que a tentativa parecia estar perdendo força. 

Eles não apenas sugerem que Trump usou o poder de seu cargo para extrair ganhos políticos de uma potência estrangeira, mas também que seu governo está tentando ativamente impedir o Congresso de descobrir o que aconteceu.

"Não quero contribuir mais para a divisão no país, mas minha maior responsabilidade como autoridade eleita é proteger nossa segurança nacional e nossa Constituição", disse a deputada Debbie Dingell, de Michigan, acrescentando que está "cada vez mais difícil” para os democratas evitarem uma investigação completa de impeachment.

Diversos parlamentares de primeiro mandato, que vinham se opondo ao impeachment, se reuniram reservadamente no fim de semana para discutir o apoio a um inquérito. O anúncio deve ocorrer depois de uma audiência agendada para quinta com o diretor Nacional de Inteligência, segundo fontes democratas familiarizadas com as conversas. 

O deputado Tom Malinowski, um novato de Nova Jersey que apoia uma investigação, disse que as novas revelações deixaram claro que o Congresso deve agir de maneira mais decisiva.

"Há limites sendo ultrapassados que eu temo que sejam ignorados se a Câmara não tomar medidas fortes para assegurá-los, defendê-los", disse.

"Se deixarmos [o assunto] nas mãos do povo americano para nos livrarmos disso, não estaremos defendendo o Estado de direito, não estaremos estabelecendo um precedente de que esse comportamento seja totalmente vedado", afirmou Malinowski.

O presidente do Comitê de Inteligência, Adam Schiff, da Califórnia, disse na manhã de domingo que as crescentes evidências de irregularidades e ocultação por parte do presidente deixaram à Câmara poucas opções.

Schiff conversou com Pelosi antes de fazer seus comentários para que as declarações fossem coordenadas, de acordo com duas pessoas próximas —um sinal de que a presidente da Câmara pode estar mais à vontade para avançar em uma discussão direta sobre o impeachment.

"Eu tenho muita relutância em seguir o caminho do impeachment", disse Schiff à CNN. “Mas se o presidente estiver negando ajuda militar, ele está tentando convencer um líder estrangeiro a fazer algo ilícito e prejudicando seu oponente durante uma campanha presidencial, então essa pode ser a única solução equivalente ao mal que essa conduta representa.”

Nos últimos dias, os progressistas no Congresso, frustrados, começaram a avaliar abertamente a abordagem lenta de Pelosi.

"Nesse momento, o maior escândalo nacional não é o comportamento criminoso do presidente —é a recusa do Partido Democrata de afastá-lo por isso", escreveu no Twitter a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez, de Nova York, que tem considerável influência entre os progressistas.

A deputada republicana Pramila Jayapal, do estado de Washington, disse que agora está pronta para votar imediatamente no impeachment de Trump, em vez de simplesmente continuar a investigação, e que planejava defender seu ponto de vista em público.

Mas a questão mais crucial é se os democratas dos distritos em que Trump ganhou ou quase perdeu podem aguentar a pressão para expulsá-lo.

Mesmo alguns democratas veteranos tradicionalmente cautelosos disseram que o partido pode não ter escolha a não ser avançar com o impeachment. 

Eles acreditam que os republicanos do Senado, que têm a maioria dos 53 assentos, pagariam um preço político pela proteção de Trump se votassem para exonerá-lo diante de evidências condenatórias de má-fé e de um voto da Câmara no impeachment.

"Eles precisam analisar de forma mais crítica o impeachment”, disse Terry McAuliffe, ex-governador da Virgínia e presidente nacional do partido, aliado de Pelosi, sobre os colegas democratas.

James Carville, estrategista democrata de longa data, disse que se opunha ao impeachment, mas agora acha que a Câmara deveria agir de forma "rápida e clara" depois de obter uma transcrição do telefonema de Trump.

"Deixe que os republicanos do Senado provem o seu próprio veneno”, afirmou.

Tradução por AG Fox

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