Washington se torna capital do ódio nos EUA

Cidade tem maior índice per capita de crimes de intolerância entre grandes municípios americanos

Marina Dias
Washington

A vida noturna de Washington não é das mais agitadas, mas os bares das ruas U e 14, a cerca de dois quilômetros de distância da Casa Branca, costumam ficar abertos após a meia-noite.

Ali é o reduto em que jovens e gays de classe média prolongam suas noites nos fins de semana e onde os amigos Michael Creason e Zach Link passeavam em 15 de abril de 2018.

Adolescente de 13 anos que disse ter sido atacada e alvo de ofensas raciais em um beco enquanto caminhava para a escola, em Washigton 
Adolescente de 13 anos que disse ter sido atacada e alvo de ofensas raciais em um beco enquanto caminhava para a escola, em Washigton  - Astrid Riecken/The Washington Post

Sentados no Dirty Goose, um bar que ostenta a bandeira do orgulho gay logo na entrada, decidiram ir para casa antes de o relógio marcar 1h.

Ainda havia bastante gente na rua e, de mãos dadas, eles caminhavam pela calçada quando foram agredidos por três homens. Levaram socos e chutes enquanto uma mulher que passava filmava tudo.

Os registros da agressão —que mostram Creason desacordado— circularam na internet e refletem o novo título dado a Washington: o de cidade com maior taxa de crimes de ódio per capita entre as principais dos EUA.

Pesquisa do Centro para Estudo do Ódio e Extremismo da Universidade Estadual da Califórnia mostra que a atmosfera aparentemente tranquila das ruas largas e iluminadas da capital escondem índices estarrecedores.

Em 2018, Washington bateu o recorde de crimes de ódio desde 2010, com 205 casos reportados à polícia —especialistas dizem que o índice pode ser ainda maior, já que nem todas as vítimas registram a ocorrência.

Em números absolutos, a cidade de 700 mil habitantes só perde para Nova York e Los Angeles, as duas maiores do país, que oficializaram, respectivamente, 361 e 290 crimes do tipo no ano passado.

Nova York, porém, tem 12 vezes o tamanho de Washington e população de 8,6 milhões de habitantes, enquanto Los Angeles é seis vezes maior que a capital americana, com população de 4 milhões de pessoas.

O estudo analisou registros de departamentos de polícia nas 30 maiores cidades dos Estados Unidos de 2010 a 2018.

Os números têm crescido desde 2013 em todo o país e, no ano passado, atingiram um aumento de 9% em relação a 2017. Os chamados crimes comuns, por sua vez, diminuíram nacionalmente em 3,5% no mesmo período.

Somente em Washington, os crimes de ódio subiram 16% em 2018, passando de 177 casos em 2017 para os inéditos 205 no ano passado.

“Densidade populacional, mudanças demográficas, taxa de criminalidade, assim como lei abrangente, são possíveis razões para os elevados números de crimes de ódio em Washington”, diz Brian Levin, diretor do centro de pesquisa da universidade californiana.

As principais vítimas dos insultos e ataques são negros e gays, que compõem grande parte da população da capital dos Estados Unidos. Do total de crimes de ódio registrados no ano passado, mais da metade foi de ações contra pessoas negras e LGBTQ: 61 contra gays, 36 contra transgêneros e 39 contra negros.

Washington tem reputação de ser amigável com a comunidade LGBTQ —que representa 10% de seus habitantes— e já teve o apelido de “chocolate city”, referência à grande quantidade de negros.

Bairros centrais como Dupont Circle são famosos pelos vários bares e restaurantes frequentados por gays e transgêneros, enquanto a região de Shaw e ao redor da rua U —onde o casal de amigos foi atacado— são historicamente lembrados como o baluarte negro de Washington.

Agressões que envolvem etnia e religião completam o cenário de ódio na capital americana. Ativistas avaliam que há uma relação direta entre o aumento desses índices e a eleição do presidente Donald Trump, com sua habitual retórica contrária a minorias.

Quando o republicano foi eleito, em 2016, os registros de crimes de ódio nas maiores cidades do país somavam 1.730 casos. Em 2018, o número chegou a 2.009, uma alta de 16% em relação a dois anos antes. Em Washington, o aumento foi de 93% no mesmo período —de 106 para 205 casos.

“Há uma forte correlação entre o aumento dos crimes de ódio, a eleição de Trump e o incentivo público à intolerância feito por ele”, afirma Bobbi Strang, presidente da Aliança de Ativistas Gays e Lésbicas do Distrito de Columbia.

“Nosso presidente tem o dom singular de capacitar as pessoas a agirem com seus piores impulsos e se tornarem a pior versão de si mesmas.”

Em um país onde os ataques a tiros se tornaram uma dolorida rotina para a população, os crimes de ódio são geralmente noticiados e relacionados a esse tipo de ocorrência que atinge multidões.

Washington nunca registrou um massacre desse tipo, e os crimes de ódio na capital americana costumam ficar escondidos nos relatórios policiais, sem ampla cobertura da imprensa local e, muitas vezes, também sem um desfecho nas investigações.

Levin afirma que, na maioria dos casos, as autoridades locais não indiciam os agressores por crimes de ódio, geralmente por falta de evidências ou dificuldade de provar uma intenção específica.

Na capital americana, as autoridades têm se esforçado para tipificar os crimes de ódio tal como são, afirma Strang, mas a dificuldade de acusar e prender os agressores não pode significar impunidade ou a normalização desse tipo de comportamento.

“Quando as autoridades dizem que prender é difícil, não significa que é ‘impossível’, então discordo de qualquer suposição de que não há soluções para casos como esses.”

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