Descrição de chapéu The Washington Post Governo Trump

Ajudei a registrar telefonemas de 2 presidentes, e abuso do sistema pela Casa Branca é alarmante

Ligação suspeita entre Trump e presidente da Ucrânia desencadeou processo de impeachment

Kelly Magsamen | The Washington Post

O denunciante que está no centro da controvérsia sobre a Ucrânia disse que autoridades da Casa Branca ordenaram que as informações sobre o telefonema do presidente Donald Trump com o presidente Volodimir Zelenski fossem removidas do servidor geralmente usado para armazenar essas informações e colocadas em um servidor hiper-seguro com senha.

Tais proteções especiais são geralmente reservadas para materiais de maior sensibilidade —informações detalhadas sobre operações secretas, por exemplo, cuja exposição pública pode causar a morte de pessoas.

A decisão foi altamente suspeita, disseram várias autoridades da Casa Branca, segundo o denunciante, porque "a ligação não continha nada remotamente sensível do ponto de vista da segurança nacional".

Na sexta-feira, a Casa Branca confirmou que os advogados do Conselho de Segurança Nacional ordenaram que os registros de ligações telefônicas fossem colocados nesse servidor.

O presidente Donald Trump, durante ligação com o líder russo Vladimir Putin, na Casa Branca
O presidente Donald Trump, durante ligação com o líder russo Vladimir Putin, na Casa Branca - Jonathan Ernst - 28.jan.17/Reuters

Servi com os presidentes George W. Bush e Barack Obama e trabalhei para quatro conselheiros na equipe do Conselho de Segurança Nacional (CSN).

Participei de reuniões presidenciais e telefonemas com líderes estrangeiros e passei centenas, se não milhares, de horas na Sala de Situação da Casa Branca. É difícil exagerar o quão anormal e suspeito seria tratar a ligação dessa maneira.

Isso sugere fortemente que os funcionários da Casa Branca tinham conhecimento de graves irregularidades cometidas pelo presidente e tentaram enterrá-las —um profundo abuso de sistemas sigilosos para fins políticos e possivelmente criminosos.

(Os registros das conversas de Trump com o presidente russo, Vladimir Putin, e as autoridades sauditas também estavam restritos a um grupo estranhamente pequeno de autoridades, como parece agora, mas não está claro se os memorandos foram colocados no servidor especial.)

Nos meus quase seis anos na equipe do CSN, nunca vi pessoalmente nem ouvi falar de os registros de uma chamada presidencial serem transferidos para o sistema de "senha".

Tal medida seria justificável apenas se um presidente e um líder estrangeiro discutissem material tão sensível que oficiais de inteligência individuais com autorização ultrassecreta precisassem ser "checados" para ter acesso a eles —uma perspectiva improvável, mesmo com nossos aliados mais próximos.

Os presidentes tendem a discutir questões gerais de política externa, não os pequenos detalhes de ações secretas.

Mover o memorando para o servidor de senha sugere que as autoridades de Trump realmente sabiam que a ligação era tão grave quanto dizem os críticos do presidente.

O argumento de alguns assessores de Trump —de que eles protegeram as conversas dele para evitar vazamentos— é dificilmente menos prejudicial, se o objetivo era evitar vazamentos de conversas nas quais o presidente usou o poder dos EUA para sua própria vantagem política (ou endossou a interferência estrangeira nas eleições dos Estados Unidos).

Se o servidor de senha foi usado para evitar vazamentos em geral —a interpretação mais benevolente—, isso significa que todas as ligações telefônicas do presidente com líderes estrangeiros estão armazenadas lá?

Isso, por si só, representaria um afastamento notável do uso pretendido do sistema de classificação.

Pessoas de fora dos círculos de segurança nacional poderiam se perguntar se as ligações de um presidente a líderes estrangeiros são, por natureza, sensíveis o suficiente para serem colocadas no servidor especial. Elas não são.

Certamente, os telefonemas presidenciais são extraordinariamente bem protegidos, o que condiz com sua importância.

Essas ligações são a moeda do reino da política externa. Elas são cuidadosamente preparadas, com a ajuda de profissionais, e (normalmente) usadas apenas para promover os interesses nacionais dos EUA.

Elas se concentram em acordos de paz, acordos comerciais e assuntos de guerra e paz.

Os memorandos dessas conversas —como a divulgada no Congresso na semana passada— são gerados por profissionais de segurança nacional na Sala de Situação, incluindo funcionários de carreira das agências de inteligência, do Departamento de Estado e militares.

Essas pessoas produzem transcrições aproximadas, que são então revisadas com vistas à precisão por especialistas no assunto em questão da equipe do CSN que estavam ouvindo a ligação e, finalmente, pelo que é conhecido como "a Suíte" —pequenos escritórios na Ala Oeste que abrigam o chefe de gabinete do CSN, o vice-assessor de segurança nacional e o assessor de segurança nacional.

Depois que esses memorandos são produzidos, pouquíssimos membros da equipe do CSN têm acesso a eles —geralmente apenas os que trabalham diretamente nos assuntos discutidos no telefonema.

Os membros do Gabinete, especialmente o Secretário de Estado, podem receber cópias. Os memorandos podem ser classificados em vários níveis, com o nível de sigilo variando parágrafo por parágrafo.

A maioria desses memorandos é classificada como "secreta", por padrão. Para alcançar a classificação "ultrassecreta", eles teriam que envolver informações cuja divulgação não autorizada causaria danos "excepcionalmente graves" à segurança nacional dos EUA.

O status de "senha" é reservado para o subconjunto mais sensível de informações da categoria ultrassecreta. Essas classificações são feitas somente para proteção da segurança nacional, nunca por razões políticas.

O material até "ultrassecreto" é armazenado em um sistema de computador classificado altamente seguro usado pela equipe do CSN —não no servidor com senha.

Eu mesma classifiquei muitos desses documentos e, com base na minha experiência, o memorando da Ucrânia deveria ter ido para o sistema padrão.

Nada na ligação de Trump com Zelenski chega ao nível de "ultrassecreto". Os dois líderes trocaram elogios, e Trump enfatizou a importância dos Estados Unidos como aliado da Ucrânia.

Ele desdenhou dos esforços da União Europeia para ajudar o país, lamentou a demissão de um procurador ucraniano e criticou uma ex-embaixadora dos EUA na Ucrânia.

O que se destaca na ligação, é claro, é o que chamou a atenção do denunciante e de suas fontes —a solicitação para que Zelenski trabalhasse com o secretário de Justiça William Barr e com Rudy Giuliani, advogado pessoal de Trump, para encontrar informações negativas sobre o ex-vice-presidente Joe Biden e seu filho Hunter Biden.

Isso é politicamente embaraçoso, potencialmente ilegal e digno de impeachment, mas não tem nada a ver com segredos de Estado.

Se o presidente tivesse pedido a Zelenski apenas para erradicar a corrupção, como uma questão geral, como ele alegou, seria o assunto normal de um telefonema presidencial, merecendo uma designação "secreta".

O aparente abuso do sistema de classificação oferece motivos suficientes para a revisão do Congresso da conversa com a Ucrânia e os eventos que a cercam.

As perguntas em questão são simples: que motivo de segurança nacional foi oferecido para mover o registro da conversa de 25 de julho (e possivelmente outros) para o sistema com senha? Quais advogados do CSN tomaram essa decisão? O assessor de segurança nacional esteve envolvido?

Uma razão para investigar os tomadores de decisão é restabelecer a fé do público nos funcionários públicos que trabalham em questões de inteligência.

A equipe do CSN é composta principalmente por servidores públicos patrióticos e não políticos, que trabalham 18 horas por dia sem glória ou qualquer interesse pela atenção do público.

Eles passam pelos portões da Casa Branca todas as manhãs com um objetivo em mente: proteger a segurança nacional americana.

Eles merecem respostas sobre o que aconteceu nesse caso. Mais importante ainda, a população americana merece ter confiança na integridade de um processo de segurança nacional projetado para servi-la.

Kelly Magsamen foi membro do Conselho de Segurança Nacional e alta funcionária do Pentágono. Atualmente é vice-presidente para segurança nacional e política internacional no Center for American Progress. Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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