Após atingir NBA, Hong Kong também vira estorvo a gamers

Jogador profissional é banido por apoiar atos pró-democracia no território chinês

São Paulo

Assim como ocorre nas transmissões de futebol, após uma partida de videogame os competidores são entrevistados. Blitzchung, codinome de Chung Ng Wai, jogador profissional de Hearthstone, um popular jogo de cartas para computadores e celulares, aproveitou a oportunidade para expressar apoio aos protestos de Hong Kong

Rindo, a dupla de locutores da partida se escondeu da câmera pouco antes de Blitzchung gritar em mandarim "libertem Hong Kong, revolução da nossa era", slogan usado pelos manifestantes. 

O jogador trajava uma máscara e óculos de segurança, indumentária associada aos protestos por mais democracia no território semiautônomo.

A transmissão para plataformas online foi cortada logo depois, e a gravação desapareceu dos canais oficiais do game. A empresa norte-americana Blizzard, desenvolvedora de Hearthstone e promotora do torneio, inicialmente baniu o jogador por um ano de campeonatos e reduziu para zero os US$ 10 mil (R$ 41 mil) que ele havia ganhado até então em premiações.

Mas após a punição causar polêmicas nas redes sociais a Blizzard voltou atrás. Em comunicado no site da empresa publicado no sábado (12), avisa que diminuiu a suspensão do jogador para seis meses e reestabeleceu seu prêmio em dinheiro. Ambos os narradores foram demitidos.

O jogador Chung Ng Wai, com óculos e máscara em referência às manifestações em Hong Kong, durante entrevista pós-partida do game Hearthstone
O jogador Chung Ng Wai, com óculos e máscara em referência às manifestações em Hong Kong, durante entrevista pós-partida do game Hearthstone - Reprodução

Em conversa com os fãs, na terça (8), o honconguês Blitzchung disse não se arrepender. "Embora pareça que desperdicei quatro anos [de treinamento em Hearthstone], tenho algo mais importante em meu coração. Se perdermos, Hong Kong terminará para sempre." 

A polêmica é mais um desdobramento dos protestos que tomam as ruas de Hong Kong desde junho. Ativistas pedem a manutenção do regime conhecido como "um país, dois sistemas", que garante liberdades desconhecidas na China continental e punição a policiais que agrediram ativistas, entre outras demandas. 

Por mais que as reivindicações tenham apelo a valores globais, as empresas que desejam vender para o 1,3 bilhão de potenciais consumidores chineses se dobram às vontades do Partido Comunista. 

Recentemente, Apple e Google removeram aplicativos associados aos protestos antigoverno. Um deles, o HKmap.live, apontava onde havia atividades policiais, uma espécie de Waze de protestos. 

O governo é sensível a qualquer manifestação de apoio. Bastou um tuíte para o canal de TV estatal CCTV cancelar a exibição dos jogos da pré-temporada da NBA disputados no país. A causa foi uma postagem de Daryl Morey, gerente-geral do time de basquete Houston Rockets, em apoio aos protestos em Hong Kong. 

Morey apagou a mensagem e pediu desculpas, mas isso não impediu a repercussão.

Há um ponto em comum na polêmica do basquete e na dos games: a empresa de tecnologia Tencent, que detém os direitos de transmissão das partidas da NBA pela internet. Assim como a CCTV, ela também suspendeu as transmissões dos jogos dos Rockets e ofereceu reembolso aos assinantes. 

Antes do imbróglio, Tencent e NBA fecharam acordo estimado em US$ 200 milhões por ano (pouco mais de R$ 800 milhões) para a transmissão dos jogos até a temporada 2024-2025. 

Esportes digitais também interessam ao conglomerado chinês. A companhia é dona de quase 5% da Activision-Blizzard. A gigante chinesa avaliada em US$ 390 bilhões (R$ 1,6 trilhão) tem participação em outras empresas de videogame, como a Ubisoft.

Em 2018, os games da marca faturaram US$ 570 milhões (R$ 2,3 bilhões) na região da Ásia e do Pacífico, cerca de um quarto das vendas totais no ano. Somados os jogos da Activision-Blizzard, que incluem a franquia de tiro Call of Duty e o jogo de celular Candy Crush Saga, a região rendeu mais de US$ 1 bilhão em vendas no ano passado. 

Por meio de uma postagem, a empresa apontou que Blitzchung infringiu uma norma relacionada a "ofensa a parte ou grupo do público", o que resultaria em eliminação do torneio.

A punição repercutiu nas redes sociais. A hashtag #BoycottBlizzard (boicote Blizzard) foi uma das mais usadas, junto com mensagens críticas à desenvolvedora e imagens de jogadores deletando o próprio perfil dos jogos da empresa. 

Uma das ações dos jogadores foi usar uma personagem chinesa do game de tiro em primeira pessoa Overwatch, da própria Blizzard, em montagens de apoio às manifestações. 

A censura a Blitzchung conseguiu até mesmo uma rara união na polarizada política americana. Tanto o senador democrata Ron Wyden quanto seu colega republicano Marco Rubio repudiaram o ato em suas redes sociais. 

O streamer e comentarista Brian Kibler, competidor de jogos de cartas há duas décadas, anunciou que não terá mais nenhum envolvimento com o torneio Grandmasters.

Funcionários da Blizzard fizeram um protesto silencioso contra a própria empresa cobrindo partes de uma estátua na entrada da principal sede da empresa, na Califórnia. 

A escultura de um monstro de 3,5 metros de altura traz no piso à sua volta oito valores que, em tese, são defendidos pela empresa. Dois deles foram tapados por papel e fita adesiva: "pense globalmente" e "todas as vozes importam". 

A expectativa é como isso repercutirá na Blizzcon, o evento de fãs da Blizzard marcado para novembro na Califórnia. Muitos prometem aproveitar a convenção para levar os protestos pró-democracia diretamente à chefia da empresa.

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