Após imbróglio com 2 contagens, Evo Morales e opositor estão empatados

Eleição na Bolívia tem metade dos votos apurados, e resultados mostram decisão em 2º turno

Sylvia Colombo
La Paz

Com pouco mais da metade dos votos apurados na Bolívia (53,46%), até as 18h locais (19h em Brasília), o atual presidente e líder indígena de esquerda Evo Morales e o segundo colocado na disputa presidencial, o centro-esquerdista e ex-presidente Carlos Mesa, estavam tecnicamente empatados. Evo tinha 42,51% contra 42,44% de Mesa.

Os bolivianos viveram 24 horas de tensão e expectativa. Quando foram dormir, no domingo (20), após a eleição, já tinham como fato consumado um resultado inesperado. Pelos números oficiais divulgados pelo órgão eleitoral até às 22h40 locais (23h40 no Brasil), já tinham sido computados mais de 80% dos votos e era quase certo que haveria um segundo turno

Contagem de votos em seção eleitoral de La Paz - Jorge Bernal/AFP

Já a manhã desta segunda-feira (21) foi de espanto e preocupação.

Durante toda a noite, nenhum voto havia sido computado, e a contagem oficial, que vinha sendo feita por meio das atas (fichas com o resumo dos votos de cada mesa), tinha sido suspensa. No momento da interrupção, elas marcavam 45,28% de Evo, contra 38,16% de Mesa. 

Na Bolívia, para ser eleito em primeiro turno, o candidato precisa ter 50% dos votos mais um, ou 40%, desde que com dez pontos percentuais de diferença com o segundo. Portanto, o resultado divulgado até então dava segundo turno, marcado para 15 de dezembro.

O tribunal eleitoral, porém, explicou que tinha cancelado a contagem da véspera porque uma segunda apuração, paralela à que estava sendo divulgada e que computava os votos por outro método (um a um), estava mostrando resultados diferentes.

Houve um princípio de confusão, alguns buzinaços pela cidade, gente caminhando nas ruas com a bandeira laranja usada na campanha de Carlos Mesa. Do lado de fora do Palácio Quemado, sede do governo, havia apoiadores do governo com bandeiras do partido de Evo Morales, o MAS (Movimento ao Socialismo).

Carlos Mesa, candidato à presidência na Bolívia, segue a apuração em La Paz - David Mercado/Reuters

Mesa reuniu a imprensa local e estrangeira no hall de um hotel de La Paz, às 10h (11h no Brasil) para dizer que o governo estava montando uma “fraude”, que o resultado claro era que “haveria um segundo turno” e que a interrupção na contagem era apenas uma justificativa “para ganhar tempo e inventar novas desculpas para inventar uma vitória no primeiro turno”.

Além disso, Mesa convocou a militância a sair às ruas de modo pacífico e a comunidade internacional a “acompanhar de perto” a contagem. "Há segundo turno e estamos nele."

Em entrevista à Folha, o ministro das comunicações, Manuel Canelas, disse que a interrupção da contagem na noite anterior havia sido “um erro”, mas que agora todos deveriam se concentrar na nova contagem, a tal que seria feita voto a voto, e que, portanto, demoraria mais.

“O órgão eleitoral errou ao não deixar claro que havia duas contagens. Uma vez que percebeu que a contagem dos votos estava dando outro resultado, resolveu interromper a das atas, para não causar confusão. Mas foi um erro, porque está dando à oposição espaço para dizer que houve uma fraude”, resumiu Canelas.

Assim como havia dito Evo Morales na noite anterior, em discurso no Palácio Quemado, Canelas confirmou que o governo boliviano estava convencido de que ganharia no primeiro turno. “Os votos rurais demoram mais em chegar, ainda não estão computados, e em geral são votos mais pró-Evo. Por isso estamos confiantes numa vitória no primeiro turno”, disse.

Mesa se opôs a essa “narrativa do voto rural”, dizendo que o órgão eleitoral já tinha todos os votos e que o estava divulgando seletivamente.

Em apoio a Mesa, o ex-presidente de direita Jorge Quiroga disse que “falar de voto rural hoje como se fosse algo que vem a cavalo e demora dias para chegar é uma enganação". "Estamos na época do WhatsApp, há smartphones e computadores na Bolívia, Evo usa uma desculpa de mais de 20 anos atrás. Isso é história para ganhar tempo e inventar um modo de fraudar a eleição.”

O novo método, de fato, é mais lento, os resultados vão saindo a conta-gotas e ainda podem demorar horas ou mesmo dias. Em caso de haver de fato segundo turno, os candidatos que estão em terceiro e quarto lugar, o pastor evangélico de origem coreana Chi Hyun Chung e o senador de direita Óscar Ortiz, já declararam que apoiarão Carlos Mesa.

Principais candidatos à Presidência

Evo Morales
Recorreu à Justiça para ter o direito a concorrer ao 4º mandato —o esquerdista é criticado por querer se
perpetuar no poder. Sob seu governo, a economia cresceu em média 4% ao ano

Carlos Mesa
Foi presidente de 2003 a 2005, quando renunciou durante uma intensa onda de protestos. Centrista, propõe reformas para diminuir a dependência econômica da Bolívia de mineração e combustíveis

ChiHyun Chung
O pastor evangélico de origem coreana é conhecido como ‘Bolsonaro boliviano’ e deve conquistar o 3º lugar. Afirmou que apoiaria Mesa em um 2º turno

Óscar Ortiz
Provável ocupante do 4º lugar, focou seu discurso no combate à corrupção. O senador liberal declarou apoio a Mesa em um eventual novo turno

Legislativo

Neste pleito, também serão eleitos legisladores para todas as 130 cadeiras da Câmaraeas 36 do Senado

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