Após protestos violentos, Piñera cancela aumento na tarifa do metrô

General do Exército chileno decreta toque de recolher em Santiago; mais de 300 são presos

Santiago | AFP

O presidente do Chile, Sebastian Piñera, anunciou neste sábado (19), em uma mensagem no palácio presidencial de La Moneda, a suspensão do aumento da tarifa do metrô de Santiago, que resultou em violentos protestos na capital do país.

O general do Exército encarregado da segurança de Santiago ordenou um toque de recolher na capital chilena para enfrentar a onda prolongada de protestos. Ele já havia decretado estado de emergência horas antes.

“Depois de analisar a situação e os excessos que ocorreram hoje, tomei a decisão de decretar a suspensão das liberdades e movimentos por meio de um toque de recolher total”, disse o general Javier Iturrita.

Novos confrontos entre manifestantes e forças de segurança ocorreram durante todo o sábado. O que começou como um pacífico panelaço, com milhares de pessoas nas ruas, acabou virando atos de violência entre manifestantes mascarados e policiais e militares em vários pontos da cidade.

Ao menos cinco ônibus foram queimados.

À noite, um grupo que protestava incendiou o edifício do diário El Mercurio, o jornal mais antigo em circulação no Chile (fundado em 1827), segundo a imprensa chilena. Eles arrombaram a porta de entrada do prédio e atearam fogo no seu interior. Os bombeiros conseguiram apagar as chamas.​

O presidente do Chile, Sebastian Piñera, que recuou e cancelou o aumento da tarifa do metrô
O presidente do Chile, Sebastian Piñera, que recuou e cancelou o aumento da tarifa do metrô - Javier Torres/AFP

A capital passou a ser palco de protestos após a convocação de uma série de “evasões em massa” no metrô contra o aumento na passagem no horário de pico.

A manifestação de sexta (18), a princípio pacífica, acabou se transformando em protestos violentos que prosseguiram pela noite, com ataques incendiários contra prédios da companhia de eletricidade Enel e do Banco do Chile. 

Além disso, várias estações do metrô foram incendiadas com coquetéis molotov. 

Segundo informações da polícia, 308 pessoas foram detidas, 156 policiais ficaram feridos e 41 estações de metrô foram vandalizadas. Além disso, houve denúncias de 11 civis feridos.

Na manhã deste sábado, Piñera fez um comunicado à nação para anunciar a decretação do estado de emergência. Ele nomeou o general de divisão Javier Iturriaga del Campo como chefe da defesa nacional, responsável por comandar a operação.

“Nós estamos assumindo o controle, acionando nossas forças para evitar atos de vandalismo.”

Na sexta-feira, o governo já tinha invocado uma lei de segurança que estabelece penas mais duras contra quem causar danos ou impedir o funcionamento de serviços públicos e privados considerados essenciais. 

A empresa responsável pela operação dos transportes informou que o metrô da capital, que transporta cerca de 2,4 milhões de passageiros por dia, deixou de operar, e que o fechamento será mantido durante o fim de semana.

“Toda a rede de metrô se encontra fechada por causa dos distúrbios e dos destroços que impedem contar com as condições mínimas de segurança para passageiros e trabalhadores”, anunciou a empresa ferroviária metropolitana em uma rede social. 

Com base no aumento do preço do petróleo, no dólar e na modernização do sistema, o valor do bilhete do metrô de Santiago nos horários de pico (de manhã e à tarde) subiria de 800 (cerca de R$ 4,63) para 830 pesos (R$ 4,80), caso o presidente não tivesse recuado da decisão. 

Na sexta, a ministra dos Transportes, Gloria Hutt, afirmou a jornalistas que o aumento na tarifa não seria revogado. Segundo ela, o governo subsidia quase a metade dos custos operacionais do metrô, um dos mais modernos da América Latina.

“Essa discussão não deveria ter chegado a esse nível de violência”, disse ela. 

Nas últimas semanas, vários países da América do Sul foram sacudidos por protestos. 

No Equador, o presidente Lenín Moreno se viu obrigado a revogar uma medida que suspendia os subsídios aos combustíveis após uma onda de manifestações deixarem um saldo de 1.340 feridos, 1.192 detidos e oito mortos.

A retirada dos subsídios aos combustíveis era parte de um pacote de ajustes para cumprir metas acertadas com o FMI (Fundo Monetário Internacional), ao qual o país pediu um empréstimo de US$ 4,2 bilhões.

Na Argentina, após organizações sociais ocuparem por semanas as ruas de Buenos Aires, o Senado aprovou a prorrogação até 2022 da lei que determina uma emergência alimentar no país.

Por causa da situação delicada da economia argentina, a oposição ao presidente Mauricio Macri vinha organizando protestos pedindo a prorrogação da legislação. 

No Peru, milhares de pessoas participaram de atos nas ruas para apoiar a proposta do presidente Martín Vízcarra de antecipar as eleições legislativas e presidencial em um ano, para 2020, que encontrava resistência no Congresso.

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