Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Apple e Google retiram aplicativos associados a protestos em Hong Kong

Serviço de mapas foi considerado uma ameaça à manutenção da ordem

The Wall Street Journal

Nos últimos dias, Apple e Google removeram de suas lojas digitais aplicativos associados aos protestos antigoverno em Hong Kong e entraram na controvérsia que relaciona empresas americanas aos tumultos.

A Apple retirou de sua App Store um serviço de mapas que permite aos manifestantes rastrear a atividade policial, um dia depois que o jornal People's Daily, dirigido pelo Partido Comunista Chinês, atacou a fabricante do iPhone, chamando o aplicativo de "software tóxico".

O app HKmap.live, que indica onde a polícia está - Tyrone Siu/Reuters

A Apple disse que removeu o aplicativo, chamado HKmap.live, por ser considerado uma ameaça à manutenção da ordem e aos moradores.

Separadamente, a unidade Google da Alphabet retirou de sua Google Play um jogo para celular que permitia que os jogadores assumissem o papel de um manifestante de Hong Kong. Segundo o desenvolvedor, o Google disse que o aplicativo, chamado The Revolution of Our Times (a revolução dos nossos tempos), violava regras relacionadas a "eventos delicados”.

Um porta-voz do Google disse que a empresa tem uma política que proíbe os desenvolvedores de “lucrar com eventos sensíveis, como tentar ganhar dinheiro com conflitos ou tragédias graves em andamento por meio de um jogo” e que considerou o aplicativo uma violação dessa política.

A rápida remoção de aplicativos considerados censuráveis pelas autoridades da China provavelmente ajudará a reduzir o risco de as duas gigantes da tecnologia entrarem em conflito com o governo chinês. Mas isso também poderia resultar em críticas no Ocidente de que as empresas estão do lado de Pequim no debate polêmico sobre o futuro de Hong Kong.

A presença do Google na China é relativamente pequena —serviços essenciais como pesquisa, Gmail e YouTube continuam bloqueados para a maioria dos cidadãos chineses. No entanto, para a Apple, "a decisão mostra quão importante é o mercado da China continental", disse Mark Tanner, diretor administrativo da China Skinny, uma empresa de pesquisa de mercado com sede em Xangai.

O recente aumento do nacionalismo na China, disse Tanner, "já pôs a Apple em uma posição vulnerável por ser uma marca americana, e eles não vão querer alimentar mais o sentimento nacionalista do consumidor".

As manobras da Apple e do Google contrastam com a abordagem adotada pela NBA (Associação Nacional de Basquete profissional dos Estados Unidos). A entidade enfrenta há uma semana uma crise em seu relacionamento com a China —seu mercado externo mais lucrativo e promissor.

Depois que um executivo do Houston Rockets tuitou apoio aos manifestantes de Hong Kong na semana passada, a NBA disse que era lamentável que os comentários do executivo tivessem decepcionado as pessoas na China. Depois, a associação afirmou o direito de liberdade de expressão do executivo e se recusou a se desculpar, mas sua resposta também provocou ataques de políticos de esquerda e de direita dos EUA.

Enquanto isso, a China cancelou as transmissões de jogos da pré-temporada, e a NBA perdeu os principais patrocinadores chineses.

Enquanto a NBA é uma liga sem alternativas diretas, a Apple tem cada vez mais rivais locais que oferecem telefones com recursos semelhantes por preço mais barato.

A Apple disse que retirou o aplicativo de mapas depois que o Departamento de Segurança Cibernética e Crime Tecnológico de Hong Kong disse que ele estava sendo "usado para atacar e emboscar a polícia" e que "os criminosos o usaram para vitimizar os moradores em áreas onde eles sabem que não há cumprimento da lei".

No Twitter, o desenvolvedor do aplicativo disse que a decisão é política e que o programa não põe os policiais em risco. 

A China foi responsável por US$ 52 bilhões em vendas da Apple no ano passado, um quinto do total da empresa.

Nos últimos anos, a Apple excluiu centenas de aplicativos de sua loja na China continental, incluindo o do jornal The New York Times. Os críticos acusaram a empresa de obedecer à censura para satisfazer as autoridades em um de seus mercados mais importantes. A Apple disse que é obrigada a cumprir as leis locais.

Outro aplicativo removido foi o jornalístico Quartz. Um editor da plataforma disse no Twitter que a Apple bloqueou o aplicativo a pedido do governo chinês, provavelmente devido à cobertura dos protestos em Hong Kong. A Apple alega que ele não cumpria a lei local.

A Apple também fez recentemente outra alteração em seu software em Hong Kong, removendo uma imagem digital da bandeira de Taiwan de sua lista de emojis nos teclados do iPhone. A China alega que Taiwan, governada de forma independente há 70 anos, faz parte de seu território legítimo. A Apple disse que removeu a bandeira em cumprimento da lei de Hong Kong.

A controvérsia em torno do HKmap.live, que identifica a presença da polícia com o emoji de um cachorro, dinossauro ou carro de polícia, tem causado incômodo para a Apple há uma semana.

A Apple inicialmente rejeitou o aplicativo, mas recebeu críticas em mídias sociais nos EUA e na Europa. Depois que o desenvolvedor recorreu dessa decisão e o aplicativo foi aprovado, a imprensa estatal chinesa passou a criticar a Apple.

Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China disse na quinta-feira, em resposta a perguntas sobre o aplicativo da Apple, que as empresas que fazem negócios na China devem respeitar suas leis e os sentimentos do povo chinês.

O HKmap.live ainda está disponível em Hong Kong e em outros lugares através da Google Play Store, que não está disponível na China continental.

Já o aplicativo The Revolution of Our Times foi removido do Google Play dias depois de entrar online.

O desenvolvedor, que não quis ser identificado, é um residente de Hong Kong que largou o emprego em uma fintech para trabalhar no jogo, que ele esperava fosse envolver pessoas que não estão interessadas nos protestos.

Segundo ele, o jogo registrou 4.500 downloads em três dias e, até o momento, faturou cerca de US$ 150 (R$ 616) em compras no aplicativo.

A política de "eventos delicados" do Google diz que a empresa não permitirá aplicativos que "não tenham sensibilidade aceitável ou lucrem com um desastre natural, atrocidade, conflito, morte ou outro evento trágico".

O desenvolvedor recorreu ao Google. "O aplicativo não está lucrando com uma tragédia", disse o desenvolvedor, acrescentando que planeja doar 80% da receita a uma entidade que ajuda a pagar os custos judiciais de manifestantes presos.

Tradução de AGFox

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