Chilenos fazem ronda noturna e trabalham de casa em meio ao caos

Fechamento de escolas, do metrô e de ruas muda rotina de moradores de Santiago

São Paulo

Metrô paralisado, escolas e universidades sem aulas, ruas e estradas fechadas, militares nas portas dos supermercados, toque de recolher. Desde que começaram os protestos massivos no Chile, há uma semana, moradores de Santiago tiveram que mudar suas rotinas e vivem os dias em suspenso, tentando manter algum grau de normalidade no meio do caos. Leia histórias de quatro deles.

 

Engenheiro faz ronda noturna em condomínio

Alguns chilenos estão tendo que fazer rondas noturnas em seus bairros para evitar a invasão de criminosos que aproveitam a situação para roubar. É o caso do engenheiro de suporte de computação Rodrigo Valenzuela, 43. Morador de um condomínio de casas longe do centro, ele se uniu aos vizinhos para vigiar as ruas do bairro a partir das 22h. 

A iniciativa começou depois que ladrões invadiram outro condomínio a três quadras de lá. “Só vi isso acontecer após o terremoto de 2010, quando também houve saques. Me voluntariei para fazer a ronda todas as noites. Os vizinhos mais idosos vão menos vezes por semana, mas todos se ajudam”, diz. 

O chileno Rodrigo Valenzuela, 43
O chileno Rodrigo Valenzuela, 43 - Arquivo pessoal

Depois que a linha de metrô que ele costumava usar teve estações incendiadas, Rodrigo passou a demorar 1 hora e 20 minutos para chegar ao trabalho de ônibus --meia hora mais do que antes. Começou a trabalhar de casa. “Tenho sorte de poder fazer isso. Quem não pode tem que sair muito mais cedo de casa.”

 

No último sábado, ele e a mulher compraram comida extra para estocar, com medo de haver desabastecimento. Guardados por policiais e militares, os supermercados permitem a entrada de pessoas em pequenos grupos. “A sensação é de que isso tudo vai continuar por um tempo. Tomara que a violência não continue e que venham as mudanças que a população precisa”, diz. 

Escolas fecham e enfermeira fica em casa com as quatro filhas

Mãe de três adolescentes e de uma bebê, a enfermeira e professora universitária Soledad Alejandra Jofre, 43, está com toda a família em casa devido ao fechamento das escolas. “Minhas filhas estão ansiosas. Tem dias que se reúnem com amigos, mas sempre antes das 17h, porque ficamos com medo de que elas fiquem na rua muito tempo.”

As meninas também pedem para ir às manifestações —os pais deixaram a mais velha, de 17, ir com uma amiga e acompanharam a mais nova, de 13, a um protesto perto de casa. “Elas já entendem tudo e querem impulsionar uma mudança no país”, diz. 

Soledad Alejandra Jofre, 43
Soledad Alejandra Jofre, 43 - Arquivo pessoal

A família aguarda todos os dias o anúncio do toque de recolher —que não tem hora certa para sair—  para ajustar os horários das atividades que ainda conseguem fazer. O marido de Soledad, que é radiologista, teve que atender por telefone durante um plantão, por não dar tempo de se locomover antes do horário limite. 

Para não encarar as filas e os militares armados nas portas dos supermercados, eles passaram a fazer compra em armazéns pequenos. “Temos recebido amigos e familiares para jantar, porque os restaurantes e mercados fecham cedo e eles não conseguem comprar comida a tempo. Não dá nem para sair para tomar um sorvete de tarde”, conta. 

Soledad diz que é difícil viver na incerteza e que acredita que as manifestações vão durar muito ainda. “É estressante viver assim, mas será bom se houver as mudanças que nossa cidadania espera. Por isso eu e minha família participamos, na medida do que conseguimos.”

Morador do subúrbio dobra tempo de ida ao trabalho

Funcionário de um banco no centro de Santiago e morador de um bairro afastado, o engenheiro de informática Felipe Nuñez, 31, vai para casa de moto, mas demora mais do que o dobro do que antes por causa das ruas bloqueadas: em vez dos 40 minutos habituais, uma hora e meia. 

“O principal transporte público era o metrô, e os empregos ficam muito concentrados no centro. Agora que não está funcionando bem, ficou muito complicado. Tem gente que caminha 40 minutos para conseguir voltar para casa.”

Felipe Nuñez, 31
Felipe Nuñez, 31 - Arquivo pessoal

As empresas que ainda funcionam, conta, estão flexibilizando os horários de entrada e saída dos funcionários. 

Felipe diz que houve desabastecimento de comida só em algumas regiões da cidade. Com ele aconteceu uma vez: foi comprar pão e não tinha. “Houve uma histeria coletiva e algumas pessoas compraram muita comida para estocar. Teve gente levando 20, 30 pães.”

Segundo ele, as medidas anunciadas pelo presidente para acalmar os manifestantes atendem  à população mais pobre, mas não à classe média, e são insuficientes. “A sensação é de incerteza, e não está claro de que vá terminar logo. Mas é importante dizer que existe as pessoas que vandalizam e existem aquelas que protestam nas manifestações massivas e pacíficas”, diz. 

Sem aulas, brasileira participa de protestos 

Vivendo em Santiago há cinco anos, a brasileira Ana Carolina Menezes, 29, foi para a rua para participar dos protestos. “A saúde e a educação são públicas, mas não são gratuitas. O sistema de aposentadorias é horrível. Mesmo não sendo daqui, isso me afeta porque para comprar um remédio é caríssimo e tenho que ter seguro saúde, por exemplo. Quero lutar para ajudar a melhorar”, afirma.

A brasileira Ana Carolina Menezes protestou de moto em Santiago contra o preço dos pedágios
A brasileira Ana Carolina Menezes protestou de moto em Santiago contra o preço dos pedágios - Arquivo pessoal

Estudante de história, ela está sem aulas na universidade desde o início das manifestações. A brasileira, que também atua com desenvolvimento de negócios de criptomoedas, conta que o edifício onde ela trabalha fechou. “Estou trabalhando de casa. Está tudo parado. Para sair à noite tem que pegar um salvo-conduto na delegacia, se não os militares te levam preso. Parece coisa de ditadura.”

Na manifestação desta sexta, Ana foi de moto com um grupo de motociclistas protestar contra o preço dos pedágios. "Está sendo incrível. Mas sempre com gás lacrimogêneo." No oitavo dia de protestos massivos no Chile, mais de 1,2 milhão de pessoas se reuniram na maior manifestação no país desde o retorno da democracia, em 1990. 

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