Conferência pró-Trump exibe vídeo fictício no qual presidente atira em jornalistas

Episódio mostra como discurso anti-mídia de presidente americano influencia seus partidários

Michael S. Schmidt Maggie Haberman
Washington | The New York Times

Um vídeo fictício com uma cena macabra do presidente Donald Trump atirando, esfaqueando e agredindo brutalmente membros da imprensa e adversários políticos foi exibido na semana passada numa conferência de partidários do republicano em seu resort de Miami.

Vários dos porta-vozes principais do líder americano —incluindo seu filho Donald Trump Jr, sua ex-porta-voz oficial Sarah Huckabee Sanders e o governador da Flórida, Ron DeSantis— fizeram parte da programação de palestras do evento de três dias promovido pela organização pró-Trump American Priority, no resort Trump National Doral Miami. 

O vídeo, que inclui o logotipo da campanha de reeleição do republicano em 2020, é composto de uma série de memes. O clipe mais violento mostra a cabeça de Trump superposta ao corpo de um homem que, no interior da “Igreja do Fake News”, abre fogo contra fiéis que têm os rostos de críticos do presidente ou os logotipos de organizações de mídia, incluindo PBS, NPR, Politico, The Washington Post e NBC.

Cena de vídeo fictício exibido em conferência pró-Trump no qual o presidente aparece atirando em críticos
Cena de vídeo fictício exibido em conferência pró-Trump no qual o presidente aparece atirando em críticos - Reprodução

Trump para no meio da igreja, tira uma arma do bolso de seu paletó e se lança em um massacre explícito.

O presidente dispara sobre os fiéis que tentam fugir. Ele dá um tiro na cabeça do (movimento) Black Lives Matter e também acerta no tiro na Vice News.

Alguns dos presentes na igreja tentam deter Trump. Ele os afasta e se dirige ao altar, derrubando vários bancos da igreja. Ele luta com um fiel que tem o logotipo da Vice News como rosto, derrubando-o ao chão, e então lhe desfere um tiro à queima-roupa. No pano de fundo, o ex-diretor do FBI James B. Comey tenta fugir.

Em seguida Trump ataca vários de seus críticos. Ele acerta um tiro na nuca do falecido senador John McCain.

Dá um tiro no rosto da personalidade de televisão Rosie O’Donnell e então a esfaqueia na cabeça. Ele dá um soco na deputada democrata Maxine Waters, da Califórnia. Ateia fogo à cabeça do senador democrata Bernie Sanders, seu rival na disputa presidencial.

Trump faz o senador republicano Mitt Romney, do Utah, de refém, e então o joga ao chão. Ele golpeia o ex-presidente Barack Obama pelas costas e o joga contra uma parede.

Outras figuras mostradas no vídeo incluem Mika Brzezinski, da MSNBC; a ex-secretária de Estado Hillary Clinton; o ex-presidente Bill Clinton, o produtor de cinema Harvey Weinstein e o deputado democrata Adam B. Schiff, que, como presidente do Comitê de Inteligência da Câmara, dirige a investigação de impeachment de Trump.

Parece ser uma cena editada de um massacre numa igreja mostrado na comédia de humor negro “Kingsman: Serviço Secreto”, de 2014.

A revelação de que o vídeo foi exibido mostra como o discurso anti-mídia de Trump influenciou seus partidários e penetrou a propaganda política deles. 

Trump fez dos ataques à imprensa um dos pilares constantes de sua Presidência; em 2017 ele colocou no Twitter um vídeo semelhante, embora muito menos violento. Nas últimas semanas ele vem atacando o inquérito de impeachment que enfrenta e intensificando seus ataques à imprensa, tachando-a repetidas vezes de “inimiga do povo”.

Uma pessoa que assistiu à conferência na semana passada filmou o clipe com seu celular e, por meio de um intermediário, o enviou a um repórter do New York Times. 

Partes do vídeo foram postadas no YouTube em 2018 por um usuário com histórico passado de criar montagens pró-Trump.

Alex Phillips, organizador do evento, disse em comunicado no domingo que o clipe foi exibido na conferência, dizendo que foi parte de uma “exposição de memes”. Ele criticou o vídeo e disse que sua organização está investigando como ele chegou a ser exibido.

“Conteúdos foram apresentados por terceiros e não foram associados à conferência nem endossados por ela em qualquer capacidade oficial", disse. "A American Priority rejeita toda violência política e visa promover um diálogo sadio sobre a preservação da liberdade de expressão. O assunto está sendo investigado.”

Organizadores do evento se negaram a dizer exatamente onde no resort de Trump o vídeo foi exibido.

Uma pessoa próxima ao filho de Trump disse que Donald Jr. não sabia que o vídeo tinha sido mostrado na conferência, enquanto Sarah Sanders disse que não sabia da existência do vídeo até ser procurada por um repórter do New York Times.

Tim Murtaugh, um porta-voz da campanha de Trump, afirma que o "vídeo não foi produzido pela campanha, e a campanha não tolera a violência”. 

Uma porta-voz do governador DeSantis não respondeu a um e-mail pedindo seus comentários.

Ao longo de sua campanha de 2016 e de sua Presidência, Trump vem demonizando a imprensa, em parte devido à frustração com a cobertura que ela faz de sua administração e em parte porque ele gosta de ter um adversário a quem atacar. 

Alguns dos assessores do presidente admitem reservadamente que ele também se esforça para solapar a confiança da população na grande imprensa para fazer as pessoas duvidarem da veracidade de relatos pouco favoráveis sobre o que acontece em sua administração.

O presidente disse em um comício na sexta-feira (11) que existe “uma aliança profana de políticos democratas corruptos, burocratas do estado profundo e a imprensa que divulga fake news”.

Tradução de Clara Allain 

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