Coringa sai da tela para as ruas em protestos pela América Latina

Jovens usam máscaras do personagem na Argentina, no Chile e no Equador

Sylvia Colombo
Buenos Aires

O Coringa anda preocupado com os problemas da América Latina. Participou das eleições na Argentina e também foi visto nos protestos no Chile e no Equador —pelo menos de maneira alegórica. 

Sua última aparição foi num centro de votação na Grande Buenos Aires, em Lanús, no último domingo (20), na eleição argentina

Manifestante vestido de Coringa participa de protesto contra o governo chileno em Valparaíso
Manifestante vestido de Coringa participa de protesto contra o governo chileno em Valparaíso - Rodrigo Garrido - 28.out.19/Reuters

Um cidadão apareceu diante da mesa para recolher seu envelope para votar, vestido e maquiado como o personagem interpretado pelo ator Joaquin Phoenix no filme dirigido por Todd Phillips.

Entrou na cabine de votação, escolheu as papeletas de seus candidatos e saiu. Diante da urna, fez os gestos típicos do Coringa, fechou o envelope e depositou seu voto com uma gargalhada.

Embora isso não seja permitido pela Justiça Eleitoral argentina —o cidadão tem de votar sem óculos, máscaras ou maquiagem que prejudiquem sua identificação — o Coringa pôde exercer seu dever cívico.

Não é a primeira vez que ele dá suas caras pela América Latina. Nos protestos contra o presidente equatoriano, Lenín Moreno, no início do mês, a Folha presenciou o uso da máscara do Coringa por um adolescente de classe média que, com um grupo de amigos, foi marchar junto aos indígenas pelas ruas do centro de Quito.

Agora, no Chile, a imprensa local publicou várias imagens de manifestantes fantasiados de Coringa.

O personagem primeiro apareceu primeiro em máscaras usadas por estudantes que saltavam as catracas para não pagar o bilhete do metrô —o aumento da passagem foi o estopim dos protestos

Depois, surgiram também pessoas com o rosto maquiado ou simplesmente com uma bola vermelha no nariz. Em algumas estátuas e locais públicos, foi pichada a frase: "We are all clowns" (somos todos palhaços).

Os jovens parecem ter visto no Coringa um herói sintonizado com as suas causas.

No filme lançado no início de outubro, o personagem é um sujeito desempregado que vive com a mãe e sofre com os problemas sociais da imaginária Gotham City. O Coringa responde à realidade violenta e hostil que o rodeia, o que parece ocorrer com os jovens de classe média e baixa das grandes cidades latino-americanas.

Em entrevista ao jornal francês Libération, a historiadora Mathilde Larrère disse que “uma vez que as revoluções são feitas pelas classes trabalhadoras, se utilizam os elementos de sua cultura e de seu momento". 

Já para o escritor e ensaísta argentino Diego Stulwark, o Coringa tem uma certa sintonia com o sentimento dos manifestantes na América Latina. 

"Seu riso é como uma dor impossível, que capta muito bem situações que todos nós temos: querer aproveitar o mundo e ao mesmo tempo rebelarmo-nos, porque sabemos que não nos encaixamos no sistema, ao mesmo tempo não sabemos como romper com tudo", afirma.

 
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