Corpo do ditador Francisco Franco é retirado de mausoléu e vai para cemitério comum

Remoção era questão de honra para governo de Pedro Sánchez, que busca reeleição

Madri | Reuters

Os restos mortais do ditador espanhol Francisco Franco foram exumados nesta quinta-feira (24) do enorme mausoléu onde estavam desde 1975, no Vale dos Caídos, nas proximidades de Madri.

Depois de ter sido retirado da cova sem incidentes, segundo o governo espanhol, o caixão foi carregado por oito familiares do ditador.

Familiares de Francisco Franco carregam o caixão do ditador na saída do Vale dos Caídos - Juan Carlos Hidalgo/AFP

Na sequência, foi embarcado em um helicóptero e levado para o discreto cemitério de El Pardo-Mingorrubio, também na capital espanhola. Ali, foi recebido por alguns apoiadores aos gritos de "viva Franco" e será sepultado junto à sua mulher em uma cerimônia privada.

Haverá uma missa para o novo sepultamento, em uma cripta familiar. A cerimônia será oficiada pelo padre Ramón Tejero, filho de Antonio Tejero, o tenente-coronel que liderou uma tentativa frustrada de golpe de Estado em 1981.

Os trabalhos começaram pouco antes das 11h (6h em Brasília). Momentos antes do início da operação, 22 membros da família do general, que governou a Espanha com mão de ferro entre 1939 e 1975 após sua vitória na Guerra Civil (1936-1939), entraram na basílica para acompanhar a exumação.

O processo tem muito simbolismo porque o monumento se tornou um lugar de exaltação do franquismo —e nenhum outro país da Europa Ocidental tem espaços semelhantes dedicados a homenagear ditadores. 

Por isso, o fim do mausoléu foi transformado em uma das prioridades do governo do primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez, que chegou ao poder em junho de 2018. 

"A Espanha moderna é produto do perdão, mas não pode ser produto do esquecimento", disse o premiê. "Um tributo público a um ditador era mais do que um anacronismo. Era uma afronta à nossa democracia."

O Vale dos Caídos foi construído por ordem de Franco para receber restos mortais dos combatentes de ambos os lados da Guerra Civil Espanhola. A construção do complexo durou quase 20 anos e dela participaram milhares de presos políticos.

Para o lugar, foram transferidos os corpos de mais de 30 mil vítimas, em nome de uma suposta "reconciliação" nacional.

Cerca de 500 mil pessoas foram mortas durante os três anos da Guerra Civil, que opôs os nacionalistas de Franco aos republicanos.

Outras dezenas de milhares de pessoas foram mortas e presas na ditadura que se seguiu e durou até a morte de Franco, décadas mais tarde.

Sánchez havia prometido a exumação ainda para 2018. Mas o processo foi adiado algumas vezes pela batalha judicial iniciada por sete netos do ditador.

A oposição, tanto de direita quanto de esquerda, acusa o líder do PSOE de utilizar a operação para obter dividendos eleitorais a pouco mais de duas semanas das eleições, marcadas para 10 de novembro.

"Isso deveria ser feito em um período não pré-eleitoral", disse o líder do partido de esquerda radical Podemos, Pablo Iglesias.

"Nós não vamos gastar nem um minuto para falar sobre o que aconteceu na Espanha há 50 anos", declarou recentemente o líder do conservador Partido Popular (PP), Pablo Casado.

O Vale dos Caídos, que guardava os restos mortais de Franco - Oscar del Pozo/AFP

O governo espanhol proibiu a família de Franco de colocar a bandeira espanhola sobre o caixão do ditador.

Mas seu neto mais velho e homônimo, Francisco Franco, carregou uma bandeira nacionalista da era Franco até o mausoléu.

Os familiares decoraram o caixão com uma coroa de folhas de louro, um tecido com o brasão da família e cinco rosas representando o partido que formava o núcleo do governo nacionalista de Franco.

A cerimônia e seus símbolos destacaram as profundas divisões políticas e sociais em relação ao legado do general.

Logo após sua morte, em um esforço para facilitar a transição à democracia, a Espanha aprovou um pacto perdoando crimes políticos cometidos sob Franco. Somente em 2007 o governo socialista promulgou uma lei que reconhecia aqueles que sofreram sob sua ditadura.

Uma pesquisa realizada no jornal El Mundo neste mês mostrou que 43% dos espanhóis eram a favor da transferência dos restos mortais de Franco, enquanto 32,5% eram contra.

Após a exumação, alguns espanhóis brindaram para celebrar na praça Porta do Sol, em Madri.​

Erramos: o texto foi alterado

O nome da praça em Madri onde espanhóis brindaram a exumação do corpo do ditador Francisco Franco é Porta do Sol, e não Pôr do Sol, como o local foi incorretamente identificado.
 

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