Em derrota para Evo, resultado parcial aponta 2º turno na Bolívia

Apuração foi interrompida na noite de domingo (20) e observadores da OEA pediram explicações

Sylvia Colombo
La Paz

Contrariando as expectativas, o resultado parcial da eleição na Bolívia aponta para um provável segundo turno entre o presidente Evo Morales e o ex-mandatário Carlos Mesa. 

Com 89% das urnas apuradas, Evo tinha 45,7% dos votos contra 37,8% do rival —matematicamente, portanto, ainda era possível que o atual presidente vencesse em primeiro turno, embora a hipótese fosse improvável. 

Para vencer a eleição sem precisar de um segundo turno (marcado para 15 de dezembro), são necessários mais de 50% dos votos ou 40% com uma diferença de mais dez pontos percentuais em relação ao segundo colocado. 

Às 22h40 no horário local, o Tribunal Supremo Eleitoral interrompeu a apuração dos votos e informou que retomaria a contagem na segunda-feira (21). A Organização dos Estados Americanos (OEA) pediu publicamente que o tribunal explique por que a contagem foi interrompida.

O opositor Mesa comemorou o resultado das urnas mesmo antes do fim da apuração. “Estamos no segundo turno, agradeço a todos vocês, agora é uma disputa nova” afirmou ele a apoiadores.

O atual presidente, porém, disse ainda estar confiante na vitória imediata, principalmente porque faltam apurar os votos dos eleitores da região rural, que costumam apoiá-lo.

“O povo boliviano quer o processo de mudança, e nós confiamos no voto rural e vamos esperar a contagem até o final, até o último voto”, afirmou ele da varanda do palácio Quemado, sede do poder Executivo, em La Paz.

“Estamos enfrentando uma direita vinculada ao passado, e vamos ganhar. O povo boliviano está convencido de nossa revolução, não vamos voltar ao passado”, completou Evo.

Funcionários contam votos durante a eleição presidencial na Bolívia, em La Paz
Funcionários contam votos durante a eleição presidencial na Bolívia, em La Paz - David Mercado/Reuters

Antes do pleito, a maior parte das pesquisas mostrava uma reeleição presidente em primeiro turno ou, ao menos, uma vantagem maior sobre Mesa. Historicamente, porém, os levantamentos no país têm problemas. 

Segundo a apuração parcial, em terceiro e quarto lugares, com os votos agora a serem disputados pelos dois competidores, ficaram o pastor evangélico de origem coreana Chi Hyun Chung, com 8,7%, e em quarto o senador de direita Óscar Ortiz, com 4,4%, que já declarou seu apoio em uma nova votação. 

“O povo decidiu que haverá segundo turno e apoiaremos Carlos Mesa”, afirmou Ortiz pouco depois da divulgação dos resultados parciais. Chi também anunciou apoio ao opositor na sequência. 

O dia de eleições foi de tranquilidade em todo o país, segundo o Tribunal Supremo Eleitoral, em entrevista a jornalistas ao final da votação. 

Enquanto em La Paz não foram registrados atos de violência, em Santa Cruz de la Sierra, onde é mais forte o movimento anti-Evo, houve protestos e repressão por parte das forças de segurança. No total, foram realizadas mais de 100 detenções, segundo a política local.

O grupo preso faz parte do movimento "Bolivia Dice No" (a Bolivia diz não), que, desde o referendo de 2016 —cujo resultado foi a rejeição de que Evo participasse do pleito—, vem realizando manifestações defendendo que a postulação do presidente para um quarto mandato é ilegal.

Esse questionamento também foi levantado em instâncias internacionais. Na manhã desta domingo, o ministério das Relações Exteriores da Colômbia emitiu comunicado anunciando que o presidente Iván Duque apresentaria junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos uma consulta sobre a validade da candidatura de Evo.

O secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), Luis Almagro já havia feito reprimendas públicas às ambições do atual presidente boliviano. Em maio, depois de uma visita ao país, no entanto, passou a declarar que a postulação era justa e legal. 

Já na região do altiplano e em El Alto, vizinho a capital, o clima era de tranquilidade, mas a população tinha que caminhar longas distâncias para poder votar. 

Em El Alto há grandes centros de votação, mas, sem transporte público no dia da eleição, é preciso andar.

No pleito deste domingo, Evo disputou o quarto mandato, e seu principal rival é o ex-presidente Mesa.
O centro-esquerdista vem atraindo os votos de quem crê que uma reeleição de Evo seria um ataque à democracia. 

Estão com ele parte do eleitorado urbano, que realizam atos para que seja respeitado o referendo de 2016, cujo resultado foi "não" ao desejo de Evo de concorrer outra vez, e indígenas que se desiludiram com o presidente.

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