Descrição de chapéu The Wall Street Journal

Estado Islâmico usa app TikTok para espalhar propaganda do grupo terrorista

Vídeos de cadáveres e combatentes armados foram publicados em rede social chinesa popular entre adolescentes

Georgia Wells
The Wall Street Journal

Militantes do grupo Estado Islâmico estão postando vídeos curtos de propaganda na rede social TikTok, conhecida pelo conteúdo leve e muito usada por adolescentes.

Os vídeos —desde então removidos, de acordo com a política do aplicativo— mostravam cadáveres nas ruas, combatentes do EI armados e mulheres que se autodenominam "jihadistas e orgulhosas". 

Muitos foram adaptados a canções do EI. Alguns incluíam filtros TikTok —imagens de estrelas e corações que flutuam pela tela numa aparente tentativa de agradar aos jovens.

"Prometemos lealdade até a morte", cantavam vozes em árabe em um dos vídeos, que parecem ter sido postados nas últimas semanas.

Logo do aplicativo chinês TikTok em tela de celular
Logo do aplicativo chinês TikTok em tela de celular - Joel Saget - 14.dez.18/AFP

As publicações, feitas por aproximadamente 25 contas, identificadas pela empresa de inteligência de redes sociais Storyful, pareciam ter como alvo os usuários da TikTok como parte de uma nova demonstração de força —e possível ferramenta de recrutamento— quando as tropas americanas se retiram da Síria

O EI se concentra na propaganda online desde o início, incluindo o uso de redes sociais para espalhar sua mensagem, o que o diferencia de outros grupos jihadistas.

As publicações se seguiram à divulgação no mês passado pelo grupo extremista de uma suposta mensagem do líder Abu Bakr al-Baghdadi, na qual ele pedia a seus seguidores que redobrassem esforços para promover a causa, depois de perder o controle do último trecho de seu autoproclamado califado em partes da Síria e do Iraque no início deste ano.

Os vídeos publicados na TikTok nem sempre são apelos diretos de recrutamento, de acordo com Elisabeth Kendall, especialista em extremismo na Universidade Oxford, no Reino Unido. 

Às vezes, eles pretendem despertar entusiasmo e apoio ao Estado Islâmico, particularmente os que apresentam hinos do grupo extremista.

"A rima, o ritmo, as letras evocativas e a apresentação entusiástica são especialmente atraentes para os jovens", disse ela.

"Esse método cativante de cantar junto para propagar a ideologia do EI faz com que ele se espalhe rapidamente e permaneça na memória coletiva. Tende a ser muito mais eficaz do que sermões ou debates e tratados teológicos."

O conteúdo extremista marca um novo desafio para a TikTok. O aplicativo, de propriedade da Bytedance Ltd., com sede em Pequim, apresenta videoclipes que começaram a ganhar popularidade nos Estados Unidos em 2018 e foram adotados por adolescentes

Foi o terceiro aplicativo mais instalado em todo o mundo no primeiro trimestre, atrás do WhatsApp e do Messenger, da Facebook, e cerca de 30% dos usuários têm menos de 18 anos, segundo documentos internos da TikTok obtidos pelo Wall Street Journal.

Parte do que tornou a TikTok atraente para os usuários é a natureza de seu conteúdo, que inclui estudantes colegiais dançando, brincadeiras inofensivas, sincronização labial e guardas de segurança engraçados. 

Para manter sua cultura de diversão e alegria, a TikTok investiu em algoritmos avançados que podem detectar muitos tipos de conteúdo prejudicial. 

A TikTok também contratou milhares de moderadores de conteúdo na China, nos EUA e em outros lugares para selecionar o que entra ou não no aplicativo.

As regras da empresa proíbem organizações terroristas e criminosas de usar a TikTok. "NÃO use TikTok para promover e apoiar essas organizações", afirma a empresa em suas diretrizes. 

Os vídeos que promovem o Estado Islâmico mostram que a implementação das diretrizes é difícil.

"Este é um desafio de toda a indústria, complicado por maus atores que tentam ativamente burlar medidas de proteção, mas temos uma equipe dedicada a proteger agressivamente contra comportamentos maliciosos na TikTok", disse uma porta-voz da plataforma.

"Cancelamos permanentemente essas contas e dispositivos associados assim que identificados e desenvolvemos continuamente controles cada vez mais fortes para detectar proativamente atividades suspeitas", disse ela.

A TikTok removeu do site os vídeos sinalizados pelo Wall Street Journal e cancelou as contas responsáveis. A rede parecia já ter removido outros vídeos de propagação do terrorismo.

TikTok não é a única rede social que grupos extremistas usaram para espalhar suas mensagens e recrutar novos membros. 

Em 2017, Facebook, Twitter e YouTube enfrentaram críticas de governos de todo o mundo, alegando que suas plataformas se tornaram um paraíso para militantes do Estado Islâmico que tentavam difundir propaganda.

Em reação, as empresas de tecnologia contrataram milhares de moderadores de conteúdo e implementaram tecnologias automatizadas para eliminar rapidamente conteúdo censurável, incluindo a criação de um banco de dados compartilhado de identificadores de imagens e vídeos terroristas online. 

Com essas medidas, as empresas conseguiram remover conteúdo extremista mais rapidamente. O Facebook disse que removeu mais de 26 milhões de postagens e vídeos relacionados a grupos terroristas globais nos últimos dois anos.

Os vídeos se encaixam em um padrão do Estado Islâmico que tenta demonstrar sua relevância, mesmo enquanto diminui a quantidade total de propaganda originária do grupo, declarou Mia Bloom, professora da Universidade Estadual da Geórgia (EUA) que estuda como grupos extremistas usam plataformas online.

"Parte da intenção deles é dizer 'ainda estou aqui'", explicou Bloom.

Conteúdo menos radical agora representa um desafio maior para o Facebook, Twitter e YouTube. Às vezes, essas empresas lutam para decidir sobre remover mensagens que promovem teorias da conspiração, histórias racistas e outros conteúdos odiosos ou enganosos.

Quando essas empresas deixam essas postagens em seus sites, os usuários as acusam de facilitar o assédio e o abuso; outros acusam as empresas de censura quando o conteúdo é removido.

A TikTok parece estar adotando uma abordagem mais ativa para remover postagens controversas, e irritou alguns usuários por supostamente censurar algumas publicações para apaziguar a China. 

A empresa contratou recentemente dois ex-parlamentares dos EUA como parte de uma equipe para revisar sua política de moderação de conteúdo.

A presença de conteúdo extremista na TikTok pode prejudicar seu relacionamento já tenso com alguns legisladores em Washington.

O senador republicano Marco Rubio, da Flórida, pediu uma revisão da segurança nacional do acordo de 2017 que permitiu ao proprietário chinês da TikTok expandir seu alcance nos EUA.

As cerca de 25 contas responsáveis pelos posts extremistas identificados pela Storyful não ficaram caladas sobre suas lealdades. 

Elas usaram músicas do EI, bandeiras e referências à mídia oficial do grupo, a Agência Amaq. Algumas tinham mais de mil seguidores. 

A Storyful pertence à News Corp, empresa que controla o Wall Street Journal.

As contas transmitem as notícias do grupo, incluindo uma que publicou capturas de tela de declarações da Amaq. Uma mensagem de 11 de outubro afirmou que o Estado Islâmico detonou um carro-bomba no nordeste da Síria.

Outros vídeos mostravam imagens glamourosas de combatentes ao som de canções jihadistas. O atirador exibido em um vídeo —que recebeu 68 curtidas— disse que é a ordem de Deus e que eles não vão desistir. Essa conta tinha o nome de uma mulher.

As meninas pareciam ser o público-alvo de outros vídeos, que usavam a frase "amante da jihad" e muitos ícones de flores. Eles intercalaram imagens de vídeo de cavalos correndo e rapazes vestindo roupas ocidentais.

"Enviaremos uma mensagem para o mundo inteiro", disse um homem para a câmera em um dos vídeos. 
Corações cor-de-rosa se derramavam do vídeo, preenchendo a tela, enquanto o homem elogiava Abu Hamza Al-Muhajer, pseudônimo de um líder da Al Qaeda no Iraque que foi morto em 2010.

"Se o nosso primeiro lutador foi morto, o último lutador cuidará de tudo. Vocês verão." ​

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves  

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