Descrição de chapéu The New York Times

Estudante que tomou tiro no peito em Hong Kong não ligava para política até junho

Tsang Chi-kin, 18, se recupera no hospital após ser alvejado na terça-feira (1º)

Hong Kong | The New York Times

Ele era o tipo de estudante de 18 anos mais interessado por basquete do que pelos estudos. Um dos quatro vice-presidentes da associação de estudantes, que, segundo colegas, nunca demonstrou interesse por política até este ano.

Amigos o descreviam como charmoso e engraçado, com cabelos longos que às vezes prendia em um rabo de cavalo. Apenas mais um aluno. Não um ícone, nem um símbolo, nem um para-raios.

Jovem participa de ato de repúdio contra a ação violenta da polícia - Susana Vera - 2.out.2019/Reuters

Mas na terça-feira (1) o estudante Tsang Chi-kin se tornou tudo isso quando foi baleado pela polícia durante um dia de violentos protestos em Hong Kong.

O tiroteio --a primeira vez em que policiais no território chinês semiautônomo usaram munição letal contra um manifestante em quase quatro meses de protestos-- representou uma nova escalada na violência que assolou a cidade.

Tsang levou um tiro no peito. A bala de ponta oca por pouco não acertou seu coração e a coluna, mas perfurou um pulmão. Na quarta-feira ele estava em terapia intensiva, mas em condição estável, de acordo com a Autoridade Hospitalar.

"Ele é uma pessoa muito afortunada, quando você olha para os órgãos que estão lá", disse o doutor Darren Mann, cirurgião de Hong Kong especialista em lesões balísticas.

O jovem foi um dos muitos milhares de manifestantes que se espalharam por Hong Kong na terça-feira e lutaram contra a polícia durante horas através da névoa de gás lacrimogêneo. Os confrontos de rua começaram poucas horas depois que o líder chinês, Xi Jinping, assistiu a um desfile militar cuidadosamente coreografado em Pequim para comemorar os 70 anos de domínio do Partido Comunista.

O tiroteio, que foi repetido durante horas nos canais de notícias na televisão local, dividiu a cidade.

Os defensores dos protestos pró-democracia dizem que o episódio resume tudo o que há de errado com o governo de Hong Kong, que priorizou a força bruta sobre o verdadeiro diálogo político. Os críticos do movimento, por outro lado, dizem que o tiroteio destaca os excessos vergonhosos de um movimento liderado por jovens que cada vez mais recorrem a vandalismo e ataques a policiais.

Sete amigos de Tsang discutiram as atividades do jovem, mas insistiram no anonimato porque temiam retaliação pela polícia ou por outros se suas identidades fossem conhecidas.

Tsang, segundo eles, mal tomava conhecimento de política até junho, quando os primeiros grandes protestos contra um projeto de lei que permitiria que os residentes de Hong Kong fossem extraditados para o continente para julgamento convulsionaram a cidade.

O jovem, disseram, ficou mais comprometido com o movimento, participando regularmente de protestos, de discussões políticas online e advogando maior democracia em Hong Kong.

A partir deste verão (no hemisfério norte), Tsang desempenhou um papel de liderança em um grupo de uma dúzia de manifestantes de várias escolas secundárias que participaram de protestos juntos, disseram seus amigos. Mas uma disputa pessoal no fim de semana passado levou a um racha no grupo antes unido.

Como resultado, Tsang estava com meia dúzia de pessoas no protesto na terça-feira em Tsuen Wan, bairro com edifícios residenciais da classe trabalhadora, quando foi baleado. Tsang e os outros adolescentes sobrepuseram seus guarda-chuvas abertos para criar uma parede de nylon enquanto atacavam a polícia, disseram os amigos.

Em um vídeo do tiroteio, manifestantes que jogam tijolos perseguem os policiais em menor número por cerca de dois quarteirões, até que um pequeno grupo de policiais se separa. Um manifestante que parece ser Tsang —usando óculos de natação e máscara de gás e carregando uma prancha de piscina—  é visto liderando um punhado de manifestantes vestidos de preto que perseguem um policial de choque e o jogam no chão. Eles chutam o oficial e o espancam com o que parecem ser tubos de metal.

Quando outro policial se aproxima com uma pistola para resgatar seu colega no chão, o manifestante vira-se para ele e acerta a mão no gatilho com um cano. Instantaneamente, o policial dispara contra o homem à queima-roupa. O manifestante cai e não é tratado durante vários minutos enquanto a polícia observa os ataques, segundo mostra o vídeo.

O comissário de polícia de Hong Kong, Stephen Lo, disse que o policial que atirou em Tsang agiu de maneira "legal e razoável", depois de dar um aviso verbal antes de abrir fogo. O policial havia sido agredido de perto, disse Lo, e não tinha outra escolha a não ser atirar. "A distância não foi determinada pelo policial, mas pelo agressor", afirmou.

Lo acrescentou que a polícia havia prendido Tsang, mas ainda não tinha decidido se apresentaria uma acusação. Na manhã de quarta-feira, o diretor e o vice-diretor da escola pública secundária de Ho Chuen Yiu disseram que Tsang não será punido e manterá seu lugar na escola.

Alguns apoiadores da polícia e das elites políticas de Hong Kong pediram que a escola adote uma linha mais dura.

"Você não pode denunciar diretamente suas irregularidades", escreveu Leung Chun-ying, ex-executivo-chefe de Hong Kong, em sua página no Facebook na quarta-feira. Antes de ser baleado, escreveu Leung, Tsang "espancara a polícia nas ruas com violência, junto com outros manifestantes".

Joseph Cheng, professor aposentado de ciência política na Universidade da Cidade de Hong Kong, disse que o tiroteio pode transformar Tsang em um símbolo poderoso para ativistas dos dois lados dos protestos.

Menos de 24 horas após o tiroteio, Tsang estava sendo saudado como um herói e ridicularizado como um bandido.

"Não sei se eles eram bandidos ou estudantes de verdade, mas todos sofreram uma lavagem cerebral grave", disse Junius Ho, legislador pró-Pequim em Hong Kong, em uma transmissão de vídeo no Facebook.

Centenas de pessoas se reuniram no sofisticado distrito Central na hora do almoço na quarta-feira. Elas cantaram slogans e o hino do movimento de protesto, "Glória a Hong Kong", como uma demonstração de apoio a Tsang.

Em mais um sinal de raiva pelo tiroteio milhares de manifestantes ocuparam importantes ruas na noite de quarta-feira em vários bairros de Hong Kong. Alguns deles atiraram bombas caseiras incendiárias em uma delegacia de polícia em Tsuen Wan. Um cartaz que circulou nas redes sociais convidava para reuniões em oito locais às 20h, para honrar "o estudante ferido".

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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