Ex-enviado dos EUA foi um jogador ou um peão no caso da Ucrânia?

Kurt Volker está no centro da comoção política que ameaça Trump de impeachment

Washington | The New York Times

"Por favor, não publiquem esta carta", pediu Kurt Volker, 54, ex-funcionário de carreira do serviço diplomático, em 2016 a Eliot A. Cohen e Eric Edelman, duas ex-autoridades republicanas que lideravam um movimento de redação de cartas "Trump Nunca".

Seus argumentos não estavam errados, disse-lhes Volker, como lembram os dois lados. Mas ele argumentou que Donald Trump poderia realmente ganhar a eleição.

E Volker, que teve sua carreira interrompida depois que o presidente Barack Obama o demitiu do cargo de embaixador dos Estados Unidos na Otan, não iria se boicotar para um cargo graduado em outro governo.

Ele conseguiu muito mais do que queria.

O ex-enviado dos EUA à Ucrânia Kurt Volker chega para depor no comitê de Inteligência da Câmara dos EUA
O ex-enviado dos EUA à Ucrânia Kurt Volker chega para depor no comitê de Inteligência da Câmara dos EUA - 3.out.19/AFP

Volker foi enviado especial de Trump na Ucrânia até sua abrupta renúncia no final do mês passado e hoje é um ator central em uma comoção política que ameaça de impeachment a Presidência de Trump e contamina o relacionamento dos americanos com a Ucrânia.

O caso também sobrecarregou Volker com contas de advogados e poderá forçar sua demissão de outro cargo, o de diretor-executivo do Instituto McCain de Liderança Internacional, da Universidade Estadual do Arizona, com sede em Washington. 

Volker, que via sua tarefa como ajudar a Ucrânia a permanecer independente contra a agressão russa enquanto trabalhava para um presidente com um curioso fascínio pelo presidente Vladimir Putin, emergiu de sua missão como um homem que parece um participante ativo na iniciativa de Trump e seu advogado pessoal, Rudy Giuliani, para pressionar um governo estrangeiro a investigar rivais democratas nos EUA.

Amigos afirmam que Volker é mais uma vítima da era Trump —um diplomata de carreira que achou que poderia conciliar sua própria ambição e o serviço público enquanto trabalhava para um presidente que confunde o limite entre ganho pessoal e os interesses do país.

"Não tenho dúvida de que ele estava tentando fazer a coisa certa", disse Daniel Fried, ex-embaixador e funcionário há 40 anos do Departamento de Estado, que foi chefe de Volker no Conselho de Segurança Nacional.

"A questão não é quais eram seus motivos, mas se o que ele estava tentando fazer era simplesmente impossível porque ele enfrentava uma situação tão comprometida que não conseguiria resolvê-la com suas habilidades habituais."

Mas amigos que leram o depoimento de Volker ao Congresso na quinta-feira (3) também disseram estar frustrados porque ele encobriu seu próprio papel em vez de assumir a responsabilidade.

Eles apontaram uma desconexão entre o depoimento de Volker e uma série de mensagens de texto incriminatórias que ele enviou voluntariamente ao Congresso, nas quais se revela parte de um plano para a Ucrânia conduzir investigações politicamente úteis para Trump como condição para uma visita à Casa Branca.

Volker declarou em seu depoimento que "em nenhum momento eu estava ciente ou participei de uma iniciativa para instar a Ucrânia a investigar o ex-vice-presidente Biden".

Ele disse que Joe Biden "nunca foi um tema de discussão" nas mensagens de texto.

Mas as mensagens incluem referências à Burisma, empresa de energia ucraniana da qual Hunter Biden, filho de Biden, era membro do conselho de administração.

Era impossível não se entender o subtexto, disseram especialistas em política externa.

Volker, por sua vez, se considera irrepreensível, segundo pessoas que falaram com ele. Ele disse aos associados que as mensagens de texto não capturam a história toda.

"Ouvi da Casa Branca —supondo que o presidente Z [Zelenski] convença Trump de que ele investigará / 'irá ao fundo do que aconteceu' em 2016, marcaremos uma data para uma visita a Washington", escreveu Volker a um dos principais assessores do presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, em 25 de julho.

O texto parece mostrar que Volker entendeu que buscar um resultado político desejado —marcar uma reunião pessoal entre Trump e Zelenski para reiniciar o relacionamento— significava usar meios altamente questionáveis e o que os críticos chamam de abuso extraordinário do poder presidencial para chegar lá.

Mas Volker testemunhou na quinta-feira aos investigadores do Congresso que, em última instância, ele aconselhou os ucranianos a abandonar o acordo e que ele estava, como disse a associados, simplesmente tentando "impedir que algo ruim acontecesse".

Segundo amigos, ele se manteve otimista, comprometido com a ideia de que ajudou a orientar a política da Ucrânia numa direção bem-sucedida, e que sua decisão de não assinar as cartas "Trump Nunca" e servir no governo Trump foi a coisa certa a fazer.

Quando Volker ingressou no governo, em julho de 2017, assumiu uma tarefa difícil em circunstâncias normais: apoiar a democracia e a reforma na Ucrânia, enquanto dissuadia a agressão russa.

A dificuldade adicional, segundo amigos, era fazer tudo sob o comando de Trump, que conduzia uma política externa separada e heterodoxa por meio de Giuliani e queria manter um relacionamento próximo com Putin.

Volker —cujo papel não remunerado e em meio período como enviado especial significava que ele funcionava fora de qualquer processo formal do Departamento de Estado— tentou explicar sua lógica para se envolver no esforço de Giuliani para que a Ucrânia investigasse Biden, que concorre à nomeação presidencial democrata em 2020.

Ele enfrentou uma escolha, disse Volker em seu depoimento: "Não faça nada e permita que essa situação apodreça, ou tente consertá-la. Tentei consertar".

Especialistas em política externa disseram que essa visão foi ingênua.

"Donald Trump certamente não é alguém que possa ser enquadrado ou consertado", disse Andrew S. Weiss, que foi consultor para a Rússia do presidente Bill Clinton.

"Tudo o que sabemos sobre Giuliani aponta na mesma direção." Weiss disse que, sob a liderança de Trump, "o nível de disfunção na política para a Ucrânia é impressionante".

O Departamento de Estado se recusou a comentar o depoimento de Volker ou seu trabalho no governo. Volker também não quis comentar, e Giuliani não respondeu a um pedido de comentário.

Mas em uma aparição na Fox News na noite de sexta-feira (4) Giuliani descreveu Volker como "um grande diplomata" que "não sabe nada sobre investigação, não sabe nada sobre crime".

Os ex-colegas de Volker atribuíram a culpa ao homem que define o tom de seu governo de cima para baixo.

"A experiência demonstrou que quanto mais você se aproxima de Trump mais difícil é ficar limpo", disse Fried.

"Pessoas decentes são colocadas em situações impossíveis. Não acho que Kurt mereça se machucar. Poderia ter sido eu."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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