Indígenas velam corpo de líder morto em protestos no Equador

Na TV, o presidente Lenín Moreno chamou os manifestantes para um "diálogo direto"

Sylvia Colombo
Quito

Durante toda a madrugada desta sexta-feira (11), os indígenas concentrados no parque del Arbolito, em Quito, realizaram o velório do quinto manifestante morto nos protestos no Equador.

O líder Inocencio Tucumbi, 50, dirigente da Conaie (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador), morreu durante uma manifestação na quarta-feira. Uma sobrinha dele disse que Tucumbi foi emboscado por policiais a cavalo e recebeu vários golpes.

Seu filho mais velho pediu “justiça com paz”.

O corpo chegou à Casa da Cultura no fim da quinta-feira, e o caixão foi colocado sobre o palco durante a cerimônia fúnebre. O centro cultural fica no parque del Arbolito, que é um dos acampamentos dos indígenas na capital.

O caixão foi carregado desde a entrada do anfiteatro pelos policiais que estavam sendo mantidos retidos pelos indígenas. 

Policiais que foram detidos por manifestantes carregam caixão
Policiais que foram detidos por manifestantes carregam caixão de líder indígena morto durante os protestos no Equador; agentes foram liberados após dez horas, na quinta (10) - Rodrigo Buendía/AFP

“Carreguem nossos mortos, e com respeito”, dizia o líder que comandava o ato, com microfone na mão. Dali, os policiais foram levados a outra praça da cidade, onde foram entregues a representantes da ONU (Organização das Nações Unidas). Nenhum deles apresentava ferimentos.

O pior levante do Equador em anos ocorre devido a um acordo assinado com o FMI (Fundo Monetário Internacional), que garantirá um empréstimo de US$ 4,2 bilhões (R$ 17,05 bilhões).

Em contrapartida, o governo concordou em adotar medidas como o corte de subsídios a combustíveis, em vigor há quatro décadas.

A decisão gerou um aumento de até 123% nos preços da gasolina e do diesel e revoltou a população

Por volta das 11h da manhã do nono dias de protestos, os indígenas começaram a marchar em direção à Assembleia Nacional.

O grupo, porém, foi parado por bombas de gás lacrimogêneo e forçado pela polícia a voltar aos acampamentos. Enquanto isso, houve uma carreata de taxistas nas ruas centrais, contra o decreto que retira o subsídio ao combustível.

No fim da tarde, ainda havia vários indígenas na região próxima à Assembleia Nacional. Muitos usavam máscaras cobrindo as bocas e conversavam em pequenas rodas. 

As ruas estavam sujas, com lixo revirado, restos de cartazes e papel queimado no chão. Ainda havia um cheiro forte de gás no ar por conta das bombas de gás lacrimogêneo usadas pela polícia para dispersar os manifestantes pela manhã.

Diferentemente do dia anterior, não houve discursos e não se via uma liderança clara comandando os grupos, principalmente depois do pronunciamento em cadeia nacional do presidente Lenín Moreno. 

Ele falou menos de um minuto em cadeia nacional, chamando os indígenas para um "diálogo direto" e para que "o país recupere a calma rápido". "Envio essa mensagem à liderança das organizações indígenas e suas bases. É indispensável frear a violência, é preciso encontrar soluções para os assuntos do país e sobretudo do campo. Faço um chamado aos dirigentes para que conversem diretamente comigo", disse. 

A Junta dos Moradores de Quito anunciou que no domingo (13) vai organizar um mutirão para limpar as ruas do centro histórico. Os moradores foram convocados a comparecer às 8h levando escovas, vassouras e baldes.

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