'Não estou em guerra com ninguém', diz chefe da defesa no Chile; mortes chegam a 11

Fala contradiz postura do presidente, que havia falado em 'guerra' no domingo à noite

Rafael Balago
São Paulo | Reuters e AFP

Depois de um fim de semana de violentos protestos, o Chile amanheceu nesta segunda-feira (21) com uma declaração que tentava retomar a normalidade. "Veja, sou um homem feliz e a verdade é que não estou em guerra com ninguém", disse o general Javier Iturriaga del Campo. 

A fala contradiz a postura do presidente Sebastián Piñera, para quem o país está "em guerra contra um inimigo poderoso, implacável, que não respeita nada nem ninguém e está disposto a usar a violência e o crime sem nenhum limite". 

Na noite de segunda, Piñera disse que vai se reunir com líderes dos partidos, tanto do governo quanto da oposição, para propor o que chamou de "acordo social". 

Javier Iturriaga, general do Exército do Chile e comandante das forças de defesa durante o estado de emergência
Javier Iturriaga, general do Exército do Chile e comandante das forças de defesa durante o estado de emergência - Reprodução/Twitter

Centenas de milhares de chilenos foram às ruas em manifestações contra o alto custo de vida no país. O aumento de tarifas de metrô (que já foi cancelado pelo presidente Sebastián Piñera) foi o estopim da crise atual, mas o movimento reflete a insatisfação com uma grande desigualdade econômica e com custos de saúde e educação.

De um lado da Praça Itália, principal ponto de concentração em Santiago, jovens batiam tambores e panelas, soavam apitos e cantavam pedindo a saída de Piñera —sempre observados por soldados e policiais, nas laterais das ruas, e por helicópteros no alto. 

Do outro lado, houve confrontos com militares, muitas barricadas e novos saques.

Francisca Morales, 30, estava com o irmão, a tia e a mãe na manifestação pacífica. Pelo segundo dia, ela e a família deixaram a região de Vitacura, uma das mais nobres da cidade, para se juntar aos manifestantes. “Foi lindo, me emocionei”, disse na volta para casa. 

Em vários momentos, os chilenos gritaram palavras de ordem pedindo a saída dos militares. Mas homens e tanques do Exército seguem nas ruas, já que várias cidades continuam sob estado de emergência.

O general Iturriaga anunciou ainda um novo toque de recolher em Santiago, valendo das 8h da noite às 6h da manhã desta terça. 

No primeiro dia de trabalho desde que os protestos começaram, muitos empregadores liberaram os funcionários e as aulas foram suspensas em praticamente todos os colégios e universidades.

Ônibus e linhas de metrô funcionaram parcialmente na hora da volta para casa, mas muitas pessoas preferiram se juntar aos protestos, que são os maiores em muitos anos.

Na manhã desta segunda, o governo informou que 11 pessoas morreram nos atos (que incluíram a destruição de várias estações de metrô) e incêndios. Foram três vítimas no sábado e oito no domingo. E cerca de 2.100 foram detidas. 

A alta comissária para direitos humanos da ONU e ex-presidente do Chile Michelle Bachelet pediu investigações independentes sobre as mortes no fim de semana, citando "alegações perturbadoras" de uso excessivo de força pelos policiais. 

Em uma entrevista coletiva, Iturriaga pediu que as pessoas tentem voltar à rotina normal e disse que o início da manhã foi "um despertar lento de uma cidade em paz". Ele afirmou também que ao menos 16 supermercados em Santiago funcionariam nesta segunda-feira (21) —muitos estiveram fechados depois da onda de saques ao comércio. 

Iturriaga, 53, tem se tornado o rosto do Exército nesta crise no Chile. Ele foi nomeado comandante da defesa nacional durante o estado de emergência decretado na madrugada de sábado (19).

Em uma entrevista logo após o anúncio do presidente, ele apareceu na TV com boina preta, símbolo de um batalhão de operações especiais, e uniforme camuflado, para uso em campo.

Falou sobre as medidas, como a necessidade de autorização para a realização de reuniões em espaços públicos, com voz calma e pausada. Sua postura, com as mãos à frente do corpo, era contida.

A imprensa chilena o descreve como um homem duro e reservado, de poucas palavras, mas capaz de colocar ordem nas coisas. E como um militar em ascensão nos últimos anos. 

Sua nomeação foi recebida com alguma surpresa. Esperava-se que um general responsável pela região de Santiago, onde o estado de emergência entrou em vigor, assumisse o comando da situação. Iturriaga é comandante da Educação e Doutrina do Exército, responsável por todas as instituições militares de ensino do país. 

Ele entrou no Exército em 1980. Formado como oficial de Estado-Maior, comandou várias brigadas e setores militares. Em 2014, atuou como adido militar do Chile no Brasil.

Em 2017, chefiou a operação de combate aos incêndios florestais em Santa Olga, e ganhou visibilidade. Foi decretado estado de catástrofe em algumas regiões, e ele ficou responsável pelo comando militar da situação.

No ano seguinte, foi promovido a general de divisão. Sua nomeação ocorreu em meio a um escândalo de fraudes no Exército chileno. Suspeitos de participar de desvios de verbas, 21 generais foram aposentados pelo governo e substituídos por novos nomes. 

Esta é a primeira vez que os militares vão às ruas para conter um protesto popular desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet, em 1990, cujo governo foi marcado por crimes como tortura e desaparecimento de opositores. 

A família Iturriaga é suspeita de ter participado dessas ações. O general Dante Iturriaga, pai de Javier, foi acusado de levar presos a um centro de tortura na época da ditadura. E Pablo Iturriaga, seu tio, investigado por participar do sumiço do ex-clérigo Omar Venturelli, que foi jogado ao mar.

Colaborou Rafael Carneiro

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