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Ofensiva turca na Síria deve ser passeio, mas confusão só está no começo

Curdos não têm como evitar o poderio de Ancara, mas ataque pode gerar nova frente

Igor Gielow
São Paulo

O início da ofensiva turca para estabelecer uma zona de segurança em território hoje dominado pelos curdos tem tudo para ser um relativo passeio do ponto de vista militar. Politicamente, contudo, a confusão está só começando.

As forças curdas são basicamente unidades de guerrilha, com bastante experiência em combate urbano devido à guerra civil iniciada na Síria em 2011. Mas não são páreo para as cenas que começaram a surgir nesta quarta (9), com aviões e artilharia atingindo alvos no norte sírio.

Significativamente, os primeiros relatos de bombardeio ocorreram nas cidades de Tal Abyad e Ras al-Ain, que sediavam bases de forças especiais americanas. Nos dois postos, estima-se que estavam 1.000 dos 2.000 soldados dos EUA no país.

Tanque turco ruma à fronteira da Síria para tomar parte da ofensiva que começou nesta terça (9)
Tanque turco ruma à fronteira da Síria para tomar parte da ofensiva que começou nesta terça (9) - Bulent Kilic/AFP

As bases foram evacuadas após o telefonema entre os presidentes Donald Trump e Recep Tayyip Erdogan, que selou a traição do americano aos seus antigos aliados curdos e abriu o caminho para a ação do turco. Não se sabe se as tropas deixarão a Síria, rumo ao Iraque ou de volta para casa.

Na ofensiva, assim como nas duas operações anteriores que garantiram um bolsão de turcos e rebeldes sírios no noroeste da Síria, tanques, caminhões blindados, peças de artilharia e caças-bombardeiros F-16 estão em campo.

Do lado liderado pelos curdos, que tem alguns elementos árabes, uma grande quantidade de fuzis e munição, mais talvez 500 veículos de diversos tipos —nada que faça frente ao poderio turco.

Naturalmente, pode haver uma resistência posterior na base da guerrilha, mas dificilmente as SDF (Forças Democráticas Sírias) terão como evitar o estabelecimento do tampão que visa isolar curdos sírios daqueles que moram no sul da Turquia e são vistos por Ancara como uma ameaça separatista e terrorista.

As SDF surgiram em 2015 como uma amálgama de oito grupos, liderados pelos curdos do YPG (Unidades de Proteção Popular).

Eles têm talvez uma dúzia de tanques apreendidos nos combates com o grupo terrorista Estado Islâmico, que por sua vez havia roubado os veículos em conflito com Damasco. Mas eles defendem principalmente prédios governamentais da área autônoma que as ​SDF querem ver como embrião do Curdistão sírio.

Além disso, receberam grande quantidade de munição e armas de combate manual dos EUA de 2015 para cá, e operam também um número incerto de foguetes antitanque. Oficialmente, têm 100 mil integrantes, mas o número efetivo que participa de combates é desconhecido: talvez 40 mil, talvez todo o contingente declarado.

Os turcos não divulgaram o número de forças na operação. Suas forças são modernas e contam com 355 mil homens na ativa, fora um número semelhante na reserva imediata. Hoje, têm cerca de 5.000 soldados estacionados na área que controlam com rebeldes sírios no país.

Aqui começa o verdadeiro problema da ofensiva: o status do tal bolsão de segurança desejado pelos turcos. Nesta terça (9), o principal ator externo do conflito até aqui, o presidente russo, Vladimir Putin, conversou ao telefone com Erdogan e pediu respeito ao território sírio.

Foi um pouco de jogo de cena, já que Moscou e Ancara têm cooperado na guerra civil, mas também um sinal para que a ação não ocorra fora das áreas curdas. A ditadura de Damasco, capitaneada por Bashar al-Assad, só recuperou controle de boa parte do país porque Putin decidiu intervir com poderio aéreo em 2015, apoiando forças terrestres iranianas no socorro ao regime.

A questão principal é que os turcos estão aliados a rebeldes contrários a Damasco, o Exército Livre da Síria, de extração secular e que participou da luta tanto contra Assad como o Estado Islâmico —que dominou parte do território do país e do Iraque e foi declarado derrotado neste ano.

Nos meios diplomáticos russos, há quem acredite numa costura do pós-guerra que inclua esses rebeldes, mantendo o esquema de poder de Assad, não necessariamente com o ditador à frente do regime, mas protegido de retaliações.

É bastante incerto o grau de sucesso de tal arranjo, e a ofensiva turca poderá abrir uma frente renovada de combates numa guerra civil que já matou mais de 350 mil pessoas. Pior ainda, opor as forças de Ancara às de Damasco.

Aí Putin terá de entrar como mediador, já que tem peso militar e político para tanto, como já faz ao tentar acomodar os interesses do Irã e de um assertivo Israel na Síria —Tel Aviv, com uso de força, deixou claro que não permitiria a presença de tropas de Teerã na sua vizinhança imediata.

Por fim, é também uma incógnita o grau de promessa de restabelecimento de relações que Trump possa ter oferecido a Erdogan. Os dos membros da Otan, aliança militar chefiada por Washington, estão com as relações estremecidas e romperam importante cooperação bélica devido à compra de armas russas pela Turquia.​​

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