Presidente do Chile pede a ministros que coloquem cargos à disposição

Durante discurso, Sebastián Piñera disse também que pretende encerrar estado de emergência no país

Santiago | AFP e Reuters

Em pronunciamento transmitido via redes sociais neste sábado (26), o presidente do Chile, Sebastián Piñera, disse que pediu a todos os ministros de seu governo que coloquem seus cargos à disposição para "poder estruturar um novo gabinete e enfrentar as novas demandas [da população]".

Ainda que não tenha dado detalhes da mudança, um documento obtido pela agência de notícias Reuters sugere que o mandatário pretende substituir os chefes de pelo menos nove ministérios, incluindo os de Defesa, Economia, Transporte, Meio Ambiente e Interior, cujo titular é Andrés Chadwick, primo de Piñera e alvo de ativistas devido a sua atuação para frear os protestos, repelidos com violência pela polícia.

Durante o comunicado, feito no Palácio de La Moneda, sede da Presidência, em Santiago, o líder chileno afirmou que pretende encerrar neste domingo (27) o estado de emergência decretado no país, se "as circunstâncias permitirem".

O presidente do Chile Sebastián Piñera, durante um discurso em Santiago
O presidente do Chile Sebastián Piñera, durante um discurso em Santiago - Pedro Lopez /AFP

Desde o começo das manifestações, ao menos 18 pessoas morreram e 6.000 foram detidas. O cálculo de perdas para os negócios do país gira em torno de US$ 1,4 bilhão.

Quando o número de mortes ainda era 15, Piñera foi à televisão pedir desculpas pelo que chamou de "falta de visão" para antecipar a crise social que convulsiona o país.

Em meio à onda de violência, pediu ajuda a uma de suas maiores adversárias políticas, a ex-presidente Michelle Bachelet, atual Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, para que investigue a situação, incluindo denúncias de abuso policial.

Junto com a fala do presidente, as Forças Armadas anunciaram a suspensão do toque de recolher decretado em Santiago desde sábado passado, numa tentativa de restabelecer a normalidade na cidade.​

A declaração de Piñera ocorre um dia depois de uma grande manifestação na capital chilena, quando mais de 1,2 milhão de pessoas se reuniram em um ato pacífico na praça Itália, tradicional local de protestos no país.

O ato, chamado de "a maior marcha do Chile", marcou o oitavo dia de protestos. Inicialmente contrárias ao aumento de 3,75% na tarifa de metrô, as mobilizações debandaram para outras reivindicações e hoje representam o episódio social mais grave em quase três décadas no país, desde o final da ditadura de Augusto Pinochet, em 1990. 

Mesmo com o cancelamento do reajuste, as mobilizações só cresceram. As demandas agora englobam melhoria no acesso à saúde e à educação, serviços privatizados e que consomem boa parte da renda dos chilenos. Ainda que o Chile seja uma das economias mais estáveis da América Latina, é ao mesmo tempo uma das mais desiguais da região. 

Piñera voltou neste sábado a elogiar a marcha, chamando-a de "muito alegre e pacífica", e afirmou que ela "abre caminhos de esperança". O presidente chileno também disse que vai enviar ao Congresso medidas para atender os pedidos apresentados durante os atos.

Dentro do que chamou de "agenda social", estão melhorias nas aposentadorias e a estabilização do preço de serviços básicos, como água e energia elétrica. Para colocá-las em prática, pediu aos parlamentares cooperação para aprovar as medidas, assim como um esforço conjunto da sociedade para que o país volte à normalidade de forma "responsável". 

Neste sábado, mais de mil voluntários limparam o que restou da grande marcha que tomou Santiago um dia antes e que contou com alguns episódio isolados de violência. 

Cinco das setes linhas do metrô funcionaram, e o sistema de ônibus operou com 98% de sua capacidade. Muitos estabelecimentos comerciais voltaram a abrir suas portas.

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