Primeiro café que vende produtos de maconha é aberto nos Estados Unidos

Itens como cervejas, chás e cigarros podem ser consumidos ali ou levados para casa

Fernanda Ezabella
Los Angeles

“E para acompanhar a couve-de-bruxelas, gostaria de uma sativa ou uma indica?” A pergunta vem da garçonete que tenta harmonizar a comida com as variadas formas de maconha disponíveis no primeiro restaurante legalizado de cannabis nos EUA.

O menu de maconha tem 14 páginas e inclui cigarros avulsos, flores secas, óleos e acessórios para consumo, como cachimbos de cerâmica e um bong gravitacional. 

Prato do Lowell Cafe, em West Hollywood, no condado de Los Angeles, cujo menu de maconha tem 14 páginas e inclui cigarros avulsos, flores secas, óleos e acessórios para consumo, como cachimbos de cerâmica e um bong gravitacional
Prato do Lowell Cafe, em West Hollywood, no condado de Los Angeles, cujo menu de maconha tem 14 páginas e inclui cigarros avulsos, flores secas, óleos e acessórios para consumo, como cachimbos de cerâmica e um bong gravitacional - Wonho Frank Lee/Divulgação

Apesar de estar dentro da lei, os próprios funcionários e os clientes ainda estão aprendendo a lidar com a novidade.

O Lowell Cafe abriu suas portas neste mês em West Hollywood, nos arredores de Los Angeles. Foi a primeira cidade da Califórnia a emitir licenças para negócios que permitem seu consumo. A droga é legalizada para maiores de 21 anos em 11 estados do país.

Mais de 300 projetos disputaram as oito licenças, que serão renovadas anualmente. O café é o primeiro a estrear e deve ser seguido por um spa e um lounge de jogos virtuais. 

O Lowell Cafe é um investimento de US$ 3 milhões (R$ 12,3 mi) de uma marca californiana de cigarros de cannabis, apoiada financeiramente por celebridades como Miley Cyrus e Chris Rock.

O restaurante não vende pratos de comida feitos com maconha, já que precisa seguir as leis estaduais que permitem apenas venda de cannabis em produtos pré embalados ou testados em laboratório. Tampouco serve álcool. 

No menu canábico do Lowell Cafe, há chocolates, latinhas com pastilha e pacotes de gomas, além de cinco tipos de bebidas com THC, o componente psicoativo da planta. O cardápio de comida, com duas páginas, oferece pratos orgânicos como saladas, sanduíches, sobremesas e cafés.

“Queremos criar um ambiente onde a cannabis é harmonizada com os pratos, como fazemos com vinhos”, disse à Folha a diretora geral do Lowell Cafe, Lily Estanislao. “O objetivo é focar nas duas coisas, comida e erva, mas sabemos que maconha é o que está trazendo as pessoas.”

O espaço tem um clima de restaurante moderninho hipster, com néon na porta, paredes cobertas de plantas e luz baixa no concorrido pátio com duas oliveiras. A música é pop, rock e hip-hop. É provavelmente o único restaurante no estado onde os frequentadores podem fumar livremente (embora tabaco seja proibido), e é possível sentir o cheiro logo na entrada.

Os vizinhos, que incluem uma sinagoga, reclamaram e o restaurante instalou um sofisticado sistema de filtragem de ar, como os usados em cassinos de Las Vegas. Na visita da Folha, o cheiro no pátio não era forte, a não ser quando o vizinho de mesa testava o tal bong gravitacional.

Enquanto uma garçonete cuidava dos pedidos de comida, outra apelidada de “flower host” (host das flores) oferecia sua expertise como sommelier de maconha. Apesar da diretora geral afirmar que essas hosts foram cooptadas das lojas de maconha, um papo rápido revelou experiência inexistente. “Ainda não tive tempo de provar muita coisa”, se desculpou a “flower host”.

A maconha oferecida é dividida em sativa e indica, espécies da planta que se desenvolveram em partes diferentes do mundo e que teriam efeitos distintos no corpo humano, embora pesquisas científicas mostrem que essa classificação faz pouco sentido. 

Como a droga segue ilegal no âmbito federal, classificada na mesma categoria que heroína e LSD, existem pouquíssimos estudos realizados por universidades americanas, deixando para os usuários, plantadores e agências de marketing a classificação muitas vezes esotérica das diversas estirpes canábicas.

O cardápio afirma que o cigarro pronto Kushberry Cheesecake traz uma grama da erva sativa e propriedades “revigorantes e ativas”, com 22% de THC. Custa US$ 20. Já um maço de 14 cigarros (2 gramas cada) chamado Focused Sativa vale US$ 85 e promete “euforia e estímulo mental”. Para se sentir “social e divertido”, a sugestão é a flor seca Super Sour Diesel, com 27% de THC (3,5 gramas por US$ 55).

A diretora geral disse que a casa oferece descontos em serviços de táxi e que os manobristas estão treinados para não devolver as chaves para quem parecer fora de si. “São funcionários que trabalharam em casas noturnas e que estão acostumados a lidar com gente embriagada”, disse.

Apesar disso, o espaço não tem um protocolo para aplacar efeitos colaterais, como as chamadas “bad trips” ou surtos psicóticos. “Bom, você sabe, temos estratégias pessoais”, disse Lily. “Dizem que mastigar pimenta preta corta o efeito.”

Barbara Savine, dona de casa e mãe de duas meninas, foi ao restaurante animada com a novidade, mas precisou ser levada para casa por uma amiga, antes de terminar a sobremesa. Acostumada a doses baixas de pastilhas de cannabis, passou mal ao dar dois tragos num cigarro. Ao procurar a “host das flores”, ouviu apenas a dica de “tomar água”.

“Adorei meu drinque canábico, estava me sentindo ótima e resolvi tentar algo mais”, disse Savine, 47. “Dei dois tragos para experimentar e, logo em seguida, me senti super lenta e meio que girando. Mal conseguia levantar a colher do sorvete. Minha amiga percebeu rapidamente, mas levou um tempão para conseguir a conta e dar o fora dali.”

Mesmo assim, ela pretende voltar para levar sua mãe, que fuma maconha há muitos anos e vive num estado onde a droga é ilegal. “Ela vem me visitar no Natal e sei que vai ficar encantada. E eu, provavelmente, vou ficar apenas no drinque.”


Alguns itens do menu

Chá - US$ 10 
Disponível nas versões Tranquili-tea, Sensuali-tea, Sympa-tea e positivi-tea. 3 a 10 mg de THC por saquinho

Refrigerante Keef Kola - US$ 10 
10 mg de THC por garrafa

Cerveja Too Roots - US$ 12 
Sabores: Enough Said (tudo dito), Tropical Infamy (infâmia tropical) e Grapefruit fight (luta da toranja) 5 mg de THC por lata 

Balas Wyld Gummies - US$ 20 
10 mg por unidade 

Infusão Kikoko Honey Shots - US$ 8 
Versões para relaxar e para acelerar

Infusão de cannabis Social Tonic - US$ 10 
2 mg de THC e 4 mg de CBD por lata

Flores secas Chiquita Banana - US$ 55 
Promete relaxamento sem sedação

Maconha concentrada Ghost Hulk - US$ 135 
Traz notas de morango e de diesel

Stundenglass gravity bong - US$ 75 
Aparato faz com que o usuário inale maior quantidade de fumaça por tragada

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