Descrição de chapéu The New York Times

Prisão de uma das mulheres de líder do EI foi peça-chave para descobrir sua localização

Esposa e mensageiro foram interrogados pela CIA, o que permitiu que operação fosse realizada

Washington

As informações sobre a localização do líder do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Baghdadi —em uma aldeia remota no noroeste da Síria, em uma parte controlada por grupos rivais, da Al Qaeda—, vieram após a prisão e o interrogatório de uma das mulheres de Baghdadi e de um mensageiro, segundo duas autoridades do governo americano.

Armada com essa pista inicial, a CIA, a agência de inteligência americana, trabalhou de forma próxima a oficiais de inteligência iraquianos e curdos no Iraque e na Síria para identificar o paradeiro preciso de Baghdadi e colocou espiões para monitorar sua movimentação.

Isso permitiu que unidades dos EUA fizessem um ataque neste sábado (26), em que Baghdadi morreu, segundo o presidente dos EUA, Donald Trump.

Mas a decisão repentina do líder americano de retirar as forças americanas do norte da Síria prejudicou o planejamento e obrigou o Pentágono a realizar um arriscado ataque noturno, antes que se perdesse a capacidade de controlar tropas, espiões e aeronaves de reconhecimento, segundo autoridades militares, de inteligência e antiterrorismo.

A morte de Baghdadi, disseram eles, foi possível mesmo depois das decisões de Trump.

As autoridades elogiaram os curdos, que continuaram fornecendo informações à CIA sobre Baghdadi ainda que Trump tenha decidido retirar as tropas americanas da Síria —o que deixou os aliados sem ajuda para enfrentar uma ofensiva turca.

Os curdos-sírios e iraquianos, disse um dos membros do governo, forneceram mais informações para a operação do que qualquer outro país. O planejamento inicial para essa ação começou no meio do ano.

A unidade do comando de elite da Força Delta do Exército começou a elaborar e ensaiar planos para conduzir uma missão secreta cheia de obstáculos para matar ou capturar o líder do EI.

O local era muito afastado, em um território controlado pela Al Qaeda. O espaço aéreo daquela parte do país era controlado pela Síria e pela Rússia. Por duas vezes, os militares tiveram de cancelar missões no último instante.

"Foi somente na quinta (24) e sexta-feira (25) que o presidente fez sua decisão e nos deu sinal verde para prosseguirmos", disse o secretário de Defesa, Mark Esper, no domingo (27) durante o programa "This Week", da ABC.

Esper afirmou que não sabia se os Estados Unidos seriam capazes de realizar o ataque de helicóptero contra o complexo em que estava Baghdadi se as tropas americanas tivessem sido completamente retiradas da Síria, como Trump havia planejado originalmente.

"Teria que consultar essa informação com nossos comandantes", disse Esper no programa "State of the Union”, da CNN.

Além do relato de Trump, mais de meia dúzia de oficiais do Pentágono, dos serviços de inteligência e contraterrorismo e militares forneceram essa cronologia do ataque depois que o presidente aprovou a operação.

Por volta da meia-noite de domingo —17h de sábado em Washington—, oito helicópteros dos EUA, em especial CH-47 Chinooks, decolaram de uma base militar perto de Irbil, no Iraque.

Voando baixo e rápido para evitar serem detectados, os helicópteros cruzaram rapidamente a fronteira e voaram sobre a Síria —um arriscado voo de 70 minutos em que as aeronaves receberam tiros esporádicos— até a região de Barisha, ao norte da cidade de Idlib, no oeste da Síria.

Pouco antes do pouso, os helicópteros e outros aviões de guerra começaram a disparar sobre um conjunto de prédios, oferecendo cobertura para comandos da Força Delta e seus cães militares descerem em uma área de pouso.

Durante a coletiva na Casa Branca deste domingo, Trump parecia ansioso para fornecer detalhes do ataque.

O presidente disse que, com os helicópteros disparando do alto, os militares ultrapassaram a porta frontal, preocupados com minas terrestres, antes de destruir uma das paredes do complexo. Isso permitiu que eles entrassem e enfrentassem um grupo de combatentes do EI.

O presidente, juntamente com Esper, o vice-presidente, Mike Pence, e o general Mark Milley, o chefe de Estado-Maior do Exército, assistiram a um vídeo do ataque que foi transmitido à Sala de Emergência da Casa Branca por aeronaves de vigilância que orbitavam sobre o campo de batalha.

Os comandos da Força Delta, sob fogo, entraram no complexo, onde fizeram disparos e mataram várias pessoas. Trump disse que os militarem também retiraram onze crianças da área de perigo.

Baghdadi se refugiou em um túnel subterrâneo, perseguido por militares dos EUA. Segundo Trump, o líder do EI levou três filhos consigo, provavelmente para usá-los como escudo humano.

Temendo, aparentemente com razão, que Baghdadi usasse um colete suicida, os militares enviaram um cão treinado para seguir Baghdadi, disse Trump. Foi então que o líder do EI detonou os explosivos, ferindo o cachorro e matando as três crianças.

 

Esper descreveu, ao programa "This Week", o clímax do ataque terrestre que durou duas horas: "Ele [Baghdadi] está em um complexo com alguns outros homens e mulheres e um grande número de crianças. Nossos agentes especiais têm táticas, técnicas e procedimentos que seguem para tentar chamá-los para fora. No final das contas, como disse o presidente, ele decidiu se matar e levou consigo algumas crianças pequenas, segundo acreditamos".

Já Trump foi mais descritivo. "Pude assistir grande parte do ocorrido", disse. Baghdadi "morreu depois de entrar em um túnel sem saída, choramingando, chorando e gritando por todo o caminho", afirmou o presidente.

Trump disse que al-Baghdadi "arrastou três de seus filhos pequenos consigo" e que o líder do Estado Islâmico "explodiu a si mesmo, matando a si e três crianças".

Esper não repetiu particularidades como "choramingando" e "chorando", ditas por Trump. "Não tenho esses detalhes", disse. "O presidente provavelmente teve a oportunidade de conversar com os comandantes em campo."

No total, as tropas dos EUA ficaram no local por cerca de duas horas, disse Trump, retirando combatentes dos edifícios e recolhendo informações que, segundo o presidente, contêm detalhes importantes sobre as operações do EI.

Trump disse que os militares já tinham amostras de DNA do líder do Estado Islâmico, que usaram para fazer uma confirmação de sua identidade.

Quando todos os americanos embarcaram em seus helicópteros e iniciaram o voo de volta ao Iraque —na mesma rota que usaram para entrar, segundo Trump—, aviões de guerra dos EUA bombardearam o complexo para garantir que ele fosse destruído, afirmou Esper.

Logo após as 21h de Washington neste sábado —quatro horas depois que os helicópteros decolaram—, Trump tuitou: "Algo muito grande acaba de acontecer!"

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