Protestos contra governo do Iraque deixam 65 mortos

Manifestações começaram por desemprego e serviços precários, mas agora criticam corrupção

Bagdá | Reuters

Franco-atiradores da polícia dispararam contra manifestantes em Bagdá no terceiro dia de protestos contra o governo no Iraque. O número de mortos subiu para 65 nesta sexta-feira (4).

As manifestações, que parecem independentes de qualquer partido político, começaram na capital por causa do desemprego e de serviços públicos precários, mas se transformaram em pedidos de combate à corrupção.

Até agora, ao menos 600 pessoas foram feridas.

Os manifestantes afirmam que a classe política é corrupta e não toma atitudes para melhorar as suas vidas, no que está sendo considerado um teste para o primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi, que completa um ano no cargo no fim do mês.

O premiê pediu calma aos iraquianos, que têm recebido com desdém suas propostas de reforma política.

O clérigo mais influente do país culpou os políticos locais pelos protestos, afirmando que eles não conseguiram melhorar as condições de vida da população. O religioso pediu que eles atendessem às demandas dos manifestantes.

Nas ruas de Bagdá, a polícia parecia concentrar suas ações em indivíduos específicos. Repórteres da agência Reuters viram um homem cair ao chão após ser atingido na cabeça. Ele foi declarado morto ao chegar no hospital.

Os jornalistas também presenciaram um homem ficar gravemente ferido no pescoço depois que franco-atiradores abriram fogo contra a multidão de manifestantes. Era possível ouvir tiroteios em Bagdá na noite de quinta (3).

A polícia matou três pessoas que tentaram invadir o prédio do governo regional na cidade de Diwaniya. Na vizinha Hilla, um manifestante foi espancado até a morte. 

Os protestos se espalharam para o sul do país, onde ficam as duas cidades. A maioria da população da região é muçulmana xiita. 

Policiais disseram ter encontrado cada vez mais manifestantes carregando armas.

Outras três pessoas três morreram em um distrito de Bagdá, e em outros lugares da cidade manifestantes atearam fogo a veículos do Exército.

​Residentes da capital fizeram fila na frente de supermercados e lojas de alimentos para estocar suprimentos em caso de aumento repentino nos preços ou outras restrições de segurança pelas autoridades.

Na quinta, ao menos 4.000 ativistas se reuniram na praça Tayaran, em Bagdá, e tentaram marchar para a praça central Tahir, mas foram recebidos com tiros e gás lacrimogêneo.

A Anistia Internacional pediu que o governo controle as forças de segurança e investigue as mortes.

"É escandaloso que as forças de segurança iraquianas lidem repetidamente com os manifestantes com tanta brutalidade usando força letal e desnecessária. É crucial que as autoridades garantam uma investigação totalmente independente e imparcial", disse Lynn Maalouf, diretora de pesquisa da Anistia Internacional no Oriente Médio.

As Nações Unidas instaram o governo a "exercer o máximo de contenção" e a permitir protestos pacíficos.

A violência começou poucos dias antes da peregrinação xiita de Arbaeen, quando se espera que 20 milhões de fiéis caminhem pelo sul do Iraque por dias —a jornada é dez vezes maior que a tradicional viagem a Meca, na Arábia Saudita.

O conflito no Iraque forçou o vizinho Irã a fechar uma das principais fronteiras usadas pelos peregrinos. Um clérigo iraniano afirmou que os Estados Unidos e Israel eram os culpados pela onda de protestos, argumentando que eles planejavam impedir a peregrinação.

O Catar orientou seus cidadãos a evitar o país.

O Iraque luta para se recuperar desde que derrotou o Estado Islâmico em 2017. Sua infraestrutura foi destruída por décadas de guerra civil sectária, ocupação estrangeira, duas invasões dos EUA, sanções da ONU e guerra contra seus vizinhos.

Com o país finalmente em paz e livre para o comércio, muitos iraquianos dizem que seu governo falhou em reconstruir a nação.

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