Sem transporte público em dia de eleição, bolivianos vão caminhando até as urnas

Em busca de 4º mandato, Evo Morales disputa pleito com ex-presidente Carlos Mesa

Sylvia Colombo
La Paz e São Paulo

Em dia de eleições na Bolívia, caminha-se. Caminha-se longas distâncias se o cidadão vive no altiplano ou na região de El Alto. Neste último, há grandes centros de votação, mas, sem transporte público no dia da eleição, é preciso andar.

A população do altiplano anda ainda mais. Nem sempre o centro de votação em que uma pessoa está inscrita é perto de onde vive. E como não há ônibus nem transporte informal, proibidos por lei, anda-se, às vezes vários quilômetros.

Uns vão com a família. Há mulheres que carregam nas costas os produtos que, depois do voto, serão vendidos no mercado.

No mundo do altiplano boliviano (a uma hora de La Paz), como em todas as comunidades andinas da Bolívia, domingo é dia de mercado popular. E quem não estiver com sua barraquinha montada para vender suas coisas, sai no prejuízo.

“Por isso saímos para votar muito cedo, para votar rápido e depois levar as coisas para o mercado, sem perder tempo, em Achacachi”, diz o camponês Gilbert Arano, 42, que vive a alguns quilômetros dessa cidade.

Em Alto, ao lado dos centros de votação, grupos de vendedores de comida são formados. Há sopa, refeições completas, refrescos e frutas. Com o comércio oficial todo fechado por ser feriado, eles são a única opção de refeição para quem vota ou mora na região. 

No pleito deste domingo (20), o atual presidente, Evo Morales, disputa o quarto mandato, e seu principal rival é o ex-mandatário, Carlos Mesa.

Para que o Evo seja reeleito no primeiro turno, precisa obter 50% dos votos ou 40%, mais 10 pontos percentuais de diferença com relação ao segundo colocado.

Nas ruas de La Paz a votação ocorre com tranquilidade. Faz sol, e não seria diferente na capital: todos têm de andar para votar, fazendo do ato um passeio.

Famílias, grupos de jovens ou pessoas sozinhas caminham. Levam o cachorro para passear, depois observam com cuidado cada local que possa estar vendendo algo de comer ou servindo alguma refeição.

Os supermercados não estão abertos. Alguns restaurantes —principalmente os de hotéis— funcionam e ficam cheios.

Álcool, porém, não é servido, pois a Lei Seca começa dois dias antes da eleição e só termina na manhã de segunda-feira (21).

O sommelier do restaurante Gustu, um dos principais da cidade, estava nervoso na sexta-feira. “Começar a Lei Seca tão cedo quebra nossas pernas. Não vamos abrir no fim de semana, pois o rendimento cai muito.”

Já em Santa Cruz de la Sierra, cidade anti-Evo, paira certa tensão.

No começo da tarde, mais de 50 pessoas foram detidas por protestos próximos a locais de votação. 

O grupo preso faz parte do movimento “Bolivia Dice No” (a Bolivia diz não), que, desde o referendo de 2016  –cujo resultado foi a rejeição de que Evo participasse do pleito– vem realizando manifestações defendendo que a postulação do presidente para um quarto mandato é ilegal.

Esse questionamento também foi levantado em instâncias internacionais. Na manhã deste domingo, o ministério das Relações Exteriores da Colômbia emitiu comunicado anunciando que o presidente Iván Duque apresentaria junto à Corte Interamericana de Direitos Humanos uma consulta sobre a validade da candidatura de Evo.

O secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), Luis Almagro, já havia feito reprimendas públicas às ambições de Evo. Porém, em maio, passou a declarar que a postulação era justa e legal, depois de uma visita ao país

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