Parlamentares pró-democracia interrompem discurso de líder de Hong Kong

Pronunciamento anual é impedido pela 1ª vez na história; fala foi concluída em vídeo

Hong Kong | Reuters

A chefe-executiva de Hong Kong, Carrie Lam, foi obrigada a interromper seu discurso anual no Parlamento nesta quarta (16) e terminá-lo em uma transmissão de vídeo.

Tanto no momento em que ela entrava no Legislativo quanto durante o procunciamento, deputados da oposição zombaram e gritaram slogans pró-democracia, o que a forçou a abandonar a fala.

Esta foi a primeira vez que um líder da ex-colônia britânica não consegue fazer o discurso anual no Parlamento, algo que ocorre desde 1948.

O Legislativo retomou as sessões nesta quarta depois de ter sido suspenso em 12 de junho, quando foi cercado por manifestantes que exigiam o cancelamento do controverso projeto de extradição.

A chefe-executiva de Hong Kong, Carrie Lam, deixa o Parlamento após ter discurso interrompido
A chefe-executiva de Hong Kong, Carrie Lam, deixa o Parlamento após ter discurso interrompido - Anthony Wallace/AFP

Lam, cuja imagem está abalada após quatro meses de protestos pró-democracia, esperava recuperar a confiança em sua administração.

Ela teve de interromper as tentativas iniciais de realizar o discurso após legisladores pró-democracia pedirem "cinco exigências, nem uma a menos", ecoando as demandas dos ativistas que ocupam as ruas. 

Os pedidos incluem sufrágio universal e uma investigação independente sobre a aplicação de força excessiva da polícia ao reprimir as manifestações.

crise geopolítica eclodiu quando Lam apresentou um projeto de lei para alterar as regras de extradição do país, o que abriu brecha para que cidadãos fossem enviados para julgamento na China continental, onde os tribunais são considerados menos justos.

A resposta de milhares de manifestantes foi ocupar as ruas de Hong Kong, protestando não só contra a lei, mas também contra o altíssimo custo de vida e o domínio chinês sobre o território.

Ex-colônia britânica, a região retornou ao controle das autoridades chinesas em 1997 sob um conjunto de regras conhecido como "um país, dois sistemas", que garante certas liberdades desconhecidas na porção continental da China.

Em sua declaração, nesta quarta (16), por vídeo, Lam não se desculpou sobre a resposta do governo aos protestos —a polícia disparou milhares de bombas de gás lacrimogêneo e centenas de balas de borracha contra ativistas que jogaram coquetéis molotov e tijolos.

"Quaisquer atos que defendam a independência de Hong Kong e ameacem a soberania do país, além dos interesses de segurança e desenvolvimento, não serão tolerados", disse ela.

"Apesar do momento tempestuoso e das enormes dificuldades que Hong Kong está enfrentando, acredito que, se aderirmos rigorosamente ao princípio de 'um país, dois sistemas', seremos capazes de sair do impasse."

Mais tarde, a chefe-executiva disse em uma entrevista coletiva que havia realizado reuniões a portas fechadas com alguns membros do movimento de protestos e que, quando as manifestações cessarem, ela realizaria outras para lidar com a situação política.

A parlamentar pró-democracia Tanya Chan disse que Lam deveria renunciar por não atender às cinco demandas dos ativistas. "As duas mãos dela estão ensopadas de sangue. Esperamos que Carrie Lam se retire e desista", afirmou Chan em uma entrevista para a imprensa.

Na entrevista, Lam, que já negou a possibilidade de renunciar, rejeitou duas das cinco demandas —anistia aos acusados ​​e voto universal—, dizendo que a primeira era ilegal e a segunda estava fora de seu poder.

Crise habitacional

Hong Kong possui alguns dos imóveis mais caros do mundo, e a falta de condições para que jovens consigam pagar por um lugar próprio alimentou em parte os protestos.

Lam disse que seu governo aumentaria os projetos habitacionais. As medidas estariam entre as mais ousadas dos últimos anos para recuperar grandes terrenos controlados por um punhado de empreiteiros poderosos.

"Estamos determinados a criar oportunidades de compra e venda de imóveis para pessoas de diferentes grupos de renda, de forma que eles possam fazer de Hong Kong sua casa", afirmou a líder.

Lam disse ainda que cerca de 700 hectares de terras privadas seriam trazidos de volta ao uso público sob o que é conhecido como uma lei de retomada de terrenos.

Homem assiste à fala da líder de Hong Kong pela televisão; ela foi obrigada a abandonar seu discurso anual no Parlamento em função de protestos da oposição - Philip Fong/AFP
Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.