Subsidiadas na Europa, bikes elétricas enfrentam problemas nos EUA

Bélgica, Suécia, Escócia e Noruega já custeiam parte dos valores para incentivar compra

Rafael Balago
São Paulo

Nas bicicletas elétricas, cada pedalada vale por duas ou mais. Com isso, é bem mais fácil subir ladeiras ou percorrer distâncias longas. E governos da Europa apostam nelas para aumentar as viagens em duas rodas. 

Em setembro, Paris lançou um programa de empréstimo de bicicletas elétricas, ao preço de 40 euros (cerca de R$ 180) mensais, e planeja ofertar até 10 mil unidades.

Bicicleta elétrica Jump
Bicicleta elétrica Jump, da Uber, parada em rua de Paris, que estuda implementar subsídio para aquisição deste tipo de meio de transporte  - Benoit Tessier - 11.abr.19/Reuters

O governo regional avalia dar subsídios para os moradores que queiram comprar uma bike elétrica a partir de 2020. A proposta é cobrir até 50% do valor, com o limite de 500 euros (R$ 2.250). 

“Quero que todos tenham o mesmo direito à mobilidade elétrica e a um tipo de transporte mais limpo”, disse Valérie Pécresse, presidente do Conselho Regional de Île-de-France, à Deutsche Welle.

A capital francesa espera triplicar o total de deslocamentos via pedal, hoje em 2%. 

Outros países europeus, como Bélgica, Suécia, Escócia e Noruega, já dão subsídios similares. Em Portugal, o governo fornece até 250 euros (R$ 1.100) para a compra.

Com o avanço das baterias, as bicicletas elétricas ficaram mais leves e mais baratas. Geralmente, conseguem rodar mais de 60 km. O reabastecimento é feito na tomada. Na Holanda, um dos países onde as bicicletas mais fazem parte do cotidiano, as e-bikes representaram 40% do total das vendas em 2018. 

As bikes também ganham espaço nas redes públicas de empréstimo. Em Portugal, a Jump lançou em outubro um modelo de aluguel mensal. Por 24,90 euros (R$ 111), pode-se pedalar até 15 minutos por dia. Outro serviço, o Gira, é pago por trajeto, e a liberação é feita pelo celular.

Em setembro, Madri anunciou planos de somar mais 42 estações do Bicimad, que usa só elétricas.

Essas bicicletas não têm acelerador, mas sim um motor que aumenta a força das pedaladas. No Brasil, a velocidade é limitada a 25 km/h. Quando o ciclista supera essa marca, o auxílio é cortado. Ele pode ir mais rápido, mas terá de contar só com a força das próprias pernas.

Diferentemente das patinetes e motos elétricas, as e-bikes exigem algum esforço do usuário. Isso limita a velocidade e, ao mesmo tempo, funciona como um exercício, o que atrai a simpatia dos governos que buscam melhorar a qualidade de vida nas cidades. 

O debate sobre o que define uma bicicleta elétrica impacta a forma como esses veículos são regulados e taxados.

“Quando uma bike com motor deve ser registrada como veículo e licenciada? Em algum ponto isso se torna um veículo a motor. Qual ponto é esse?”, questionou o governador de Nova York, Andrew Cuomo.

Em junho, uma lei estadual de NY que autoriza as bicicletas e patinetes elétricos a circularem foi aprovada pelo Legislativo, mas aguarda a sanção do governador. Ele apontou questões de segurança para postergar a decisão.

Enquanto isso, há multa de US$ 500 (R$ 2.040) para quem for pego usando uma bicicleta elétrica na rua, além da apreensão do veículo. A lei estadual classifica-as como veículos a motor e exige seu licenciamento, mas não possui uma categoria para isso, o que na prática inviabiliza seu uso.

Lá, os modelos elétricos atraem especialmente entregadores de comida, cuja demanda tem aumentado com os aplicativos de delivery.

Também em NY, cerca de mil veículos elétricos do serviço Citi Bike foram retirados de circulação em abril. Houve alguns acidentes, principalmente por falha nos freios. 

Em San Francisco, mais problemas. Alguns modelos pegaram fogo em julho, e as mil unidades do sistema Motivate foram recolhidas. O Citi Bike e a Motivate são de propriedade da Lyft, maior concorrente da Uber nos EUA.

A Jump, da Uber, deixou de operar em cidades como San Diego e Atlanta. Entre as causas, estão vandalismo e mau uso.

Em Providence, moradores quebravam o cadeado que prendia a roda para usar a bike sem pagar. Nesse caso o motor não funciona, mas é possível pedalar. A prática foi apelidada de “bike zumbi”.

Algumas dessas bikes zumbi foram usadas por adolescentes em assaltos, segundo relatos da mídia local. Em uma tarde de agosto, cem jovens, parte deles com modelos da Jump, saiu em grupo e causou caos na cidade, bloqueando ruas, assustando pedestres e fazendo pequenos roubos. Em um dos casos, 15 deles invadiram uma loja e afanaram US$ 85 (R$ 347) em doces e salgadinhos. 

No Brasil, a vinda da Jump é comentada há meses, mas a Uber não informa a previsão para o início da operação.

Em São Paulo, a Yellow e a Tembici, que opera o Bike Sampa, começaram os testes com as elétricas no primeiro semestre pela Yellow e pela Tembici, que opera o Bike Sampa. “Enquanto as bicicletas comuns realizam em média cinco viagens por dia, as elétricas superam dez”, detalhou a Tembici, em nota. A empresa informou ainda que as viagens elétricas percorrem em média 8,3 km, contra 3,5 km das tradicionais. 

A Yellow também fez testes no primeiro semestre em São Paulo, mas suspendeu-os, devido a “razões técnicas e operacionais”. Não há previsão de retomada. 

Em paralelo, lojas de bicicletas oferecem aluguel mensal, que inclui manutenção e seguro, por cerca de R$ 250. Uma nova custa R$ 5.000.

O alto custo, próximo ao de uma moto, dificulta a expansão das bicicletas elétricas no Brasil. O IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) sobre elas é de 35%, contra 10% de uma com pedal normal. A tributação total das e-bikes, que inclui ainda ICMS, PIS e Cofins, supera 84%. 

“Taxa-se mais uma bicicleta elétrica do que uísque e bala de revólver”, compara Daniel Guth, diretor da Aliança Bike, que reúne várias empresas do mercado. “A bike elétrica é uma bike comum, e ambas deveriam ser taxadas da mesma forma”, defende.

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