Tinder K ajuda solteiros kirchneristas a encontrar um par na Argentina

Semelhante ao PTinder no Brasil, sistema forma casais de ideologia peronista

Buenos Aires | AFP

Há quem diga que os opostos se atraem, mas não parece ser o caso para muitos argentinos que se cadastraram no Tinder K —grupos fechados no Facebook que têm três exigências: ser solteiro, peronista e kirchnerista.

Os Tinder K, que têm no total mais de 11 mil membros, começaram após o fim de 12 anos de governos kirchneristas (2003-2015), com a vitória do liberal Mauricio Macri nas últimas eleições.

Ali foi aprofundada “la grieta" (a greta), como chamam na Argentina a polarização política entre macristas e kirchneristas. 

O casal Cristina e Nestor Kirchner em foto de 2010
O casal Cristina e Nestor Kirchner em foto de 2010 - Juna Mabromata - 10.dez.10/AFP

O fenômeno não é novo. Nos Estados Unidos existem aplicativos para os seguidores do presidente Donald Trump (#donalddaters ou TrumpSingles) ou para os simpatizantes do Partido Democrata (#Liberalhearts).   

O fenômeno pouco a pouco está chegando à América Latina: uma advogada brasileira criou o PTinder para unir homens e mulheres que têm afinidade com o PT (Partido dos Trabalhadores) e com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). 

Os especialistas advertem, porém, que esses "nichos políticos" promovidos pelas redes sociais podem ser perigosos.

"O intercâmbio de ideias é essencial para uma democracia, e os aplicativos de encontros com viés ideológico limitam a probabilidade de achar um par que não valide suas ideias", opina Chelsea Reynolds, da Universidade de Comunicações de Fullerton, na Califórnia.

"Há duas décadas, você poderia se apaixonar por alguém na universidade, apesar de suas ideias políticas não serem as mesmas que as suas. Hoje seria quase impossível”, diz.

Segundo especialistas, é um fenômeno provocado pelas redes sociais, que encapsulam as pessoas de acordo com suas crenças ou ideologias.

“A tecnologia se dirige a criar nichos com denominadores comuns em termos ideológicos", afirma Carlos Fara, consultor político argentino, especialista em opinião pública e campanhas eleitorais. "Esses nichos fomentam as posições mais extremas”, acrescenta.

‘O amor k’

"Eu não poderia ter um companheiro que não tenha minha convicção política, a Cámpora [agrupação de marcada orientação peronista e kirchnerista]", explica Estefanía, 35. “Nós [os argentinos] estamos impregnados pela política."

"A família você não escolhe, mas um companheiro tem que pensar politicamente igual", acrescenta ela, que faz parte dos três grupos do Tinder K no Facebook, mas participa mais ativamente de um deles. 

Foi assim que conheceu, há dois anos, seu companheiro, que mora em Buenos Aires —ela vive na província de Chubut, na Patagônia.

Os grupos promovem festas, jogos virtuais ou debates públicos sobre assuntos sociais. “No ano passado, um dos casais formados no grupo se casou”, diz ela.

"Resistir" aos anos de macrismo

Os grupos —que não têm fins lucrativos— também são para "resistir aos quatro anos do macrismo". 

Se não acontecer uma reviravolta, tudo indica que a Argentina voltará a ser peronista com a provável vitória de Alberto Fernández nas eleições de 27 de outubro, acompanhado de Cristina Kirchner, sua vice na chapa. 

Macri agoniza no fim de seu mandato, com inflação alta (30% até agosto) e aumento da pobreza, que chegou a 35,4% no primeiro semestre de 2019. 

A maioria dos Tinder K reivindicam e se inspiram no modelo de casal de Néstor e Cristina, que ficaram juntos por 35 anos, até a morte do ex-presidente, em 2010.

"O amor deles é uma referência. Vejo fotos e vídeos de como se olhavam, de como ele a admirava”, conta Estefanía.

Mas ser kirchnerista não é garantia de sucesso. Os diferentes grupos Tinder K surgiram devido a divisões entre eles.

O mais antigo, criado um mês depois do triunfo de Macri em 2015, é definido como o "de maior quantidade de integrantes" (mais de 6.000).

Para Omar San, a ideia estava clara quando criou o grupo. "Os ânimos estavam muito River [Plate] contra Boca [Juniors], algo tinha que ser feito", contou, em alusão aos arqui-inimigos do futebol argentino.

De toda forma, ele esclarece: "Nós encontramos um par K para você, depois não garantimos que funcione".

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