Descrição de chapéu The New York Times

Trump confunde aliados dos EUA com abandono repentino de curdos na Síria

Posições inconsistentes do presidente sobre Oriente Médio deixam região ainda mais volátil

David D. Kirkpatrick Ben Hubbard David M. Halbfinger
The New York Times

A inesperada anuência do presidente Donald Trump a uma incursão turca no norte da Síria nesta semana abalou aliados dos EUA, e não apenas por representar uma traição de parceiros leais.

O que os alarmou ainda mais foi a imprevisibilidade absoluta do presidente.

Suas posições inconsistentes em relação ao Oriente Médio, que mudam a todo momento, injetaram um novo elemento de caos numa região que já é volátil, deixando os aliados dos EUA sem saber qual é a posição dos norte-americanos e por quanto tempo ela continuará valendo.

Líderes políticos americanos anteriores eram claros quanto às suas intenções, comentou Mowaffak al-Rubaie, ex-assessor de segurança nacional iraquiano.

“Este sujeito é regido pela emoção”, disse. “É tudo imprevisível.”

Rebeldes sírios apoiados pela Turquia em ação contra os curdos são vistos no vilarejo de Yabisa, próximo à fronteira dos dois países - Khalil Ashawi/Reuters

As incertezas agravam os receios sempre presentes quanto à durabilidade do engajamento dos EUA com o Oriente Médio.

Presidentes americanos vêm prometendo há quase 15 anos reduzir a presença do país na região, alarmando parceiros como Israel e os monarcas do Golfo Pérsico que dependem da proteção dos Estados Unidos.

Mas poucos líderes americanos até hoje tomaram e anunciaram decisões importantes de política externa com a rapidez e a aparente improvisação de Trump.

Para analistas, muitos aliados não estão mais apenas preocupados com a possibilidade de uma retirada de Washington —eles temem que o imprevisível presidente atual possa abandonar tudo e correr para a saída mais próxima de um momento para outro.

Sua decisão de sair do caminho da incursão turca foi aparentemente tomada de supetão durante um telefonema com o presidente turco, surpreendendo muitos de seus próprios assessores.

Ela abriu a porta para uma investida turca feroz contra a milícia apoiada pelos EUA e liderada por curdos sírios, milícia essa que teve papel fundamental na batalha terrestre para retomar o território capturado pelo Estado Islâmico. O ataque aos curdos cria o risco de um retorno do Estado Islâmico.

Essa foi apenas a mais recente em uma série de voltas e reviravoltas na política externa dos EUA na região, incluindo duas na Síria apenas neste ano. Em dezembro, Trump prometeu retirar o contingente inteiro de cerca de 2.000 militares americanos que estavam no país. Mas mais tarde ele mudou de ideia, retirando apenas cerca de metade.

Trump já lançou vários avisos de que os EUA estariam com “as armas carregadas e engatilhadas”, prontas para lançar uma ação militar contra o Irã. Mas, quando o Irã derrubou um drone espião americano, neste ano, mudou de posição nos instantes finais e cancelou um ataque planejado com mísseis.

No mês passado ele criticou o Irã por orquestrar um ataque contra instalações petrolíferas sauditas, mas se negou a adotar qualquer ação militar.

Sua relutância levou os dois aliados mais importantes dos EUA na região, Arábia Saudita e Israel, a reavaliar o engajamento dos EUA com a contenção do Irã e, consequentemente, com garantir a segurança deles.

Críticos dizem que o zigue-zague das políticas de Trump deu novo ânimo a seus adversários regionais, assustou os parceiros dos EUA e convidou a Rússia e diversos atores regionais a buscar exercer sua influência.

“A situação é de caos”, disse Michael Stephens, estudioso da região no Royal United Services Institute, em Londres. “A região está em caos porque a potência hegemônica aparentemente não sabe o que quer fazer, e por isso ninguém mais sabe.”

Quando Trump recuou de sua decisão de retirar todas as tropas americanas remanescentes na Síria, pareceu ter dado ouvidos aos avisos de seus chefes militares e assessores sobre as consequências tenebrosas que poderiam advir de uma retirada abrupta.

A presença das forças americanas no norte da Síria ajudou a preservar a área como refúgio seguro para a milícia liderada por curdos que tem sido a aliada mais crítica de Washington em campo na luta contra o Estado Islâmico.

Agora essa milícia liderada por curdos está atuando como carcereira de milhares de combatentes do Estado Islâmico mantidos em campos e prisões no norte da Síria, perto da fronteira turca.

Os líderes da vizinha Turquia, que há décadas combate separatistas curdos em seu próprio território, encararam a milícia curda síria como uma ameaça e falavam abertamente sobre fazer uma investida do outro lado da fronteira para esmagá-la —desde que as tropas americanas saíssem de seu caminho.

Mas, apesar dos avisos sobre o interesse dos EUA em proteger seus aliados curdos leais e em conter os combatentes do Estado Islâmico detidos, nesta semana Trump descreveu a situação difícil dos curdos como sendo problema de outros.

Descrevendo turcos e curdos como “inimigos naturais”, disse: “Agora é hora de outros na região, alguns dos quais donos de grande riqueza, protegerem seu próprio país”.

Outros países estão se apressando para se adaptar à nova realidade.

“Acho que muitos países do Oriente Médio estão analisando a possibilidade de efetuar grandes mudanças em seus planos estratégicos de defesa, porque deixaram de encarar os EUA como um aliado confiável”, comentou Gamal Abdel Gawad Soltan, assessor do Centro Al Ahram de Estudos Estratégicos, no Cairo, instituição financiada pelo estado.

“Será muito difícil convencer países do Oriente Médio de que os Estados Unidos falam a sério, e essa é uma mudança grande no cenário estratégico do Oriente Médio.”

Alguns analistas dizem que os inimigos dos Estados Unidos também podem estar tomando nota.

“Se você é alguém que é um rival do outro lado –se você é iraniano, russo, turco, do Estado Islâmico, do Hizbullah—, você entende que agora é o momento de fazer avanços”, argumentou Shimrit Meir, colunista do jornal israelense Yediot Ahronot.

“Este é o momento. Porque quando o presidente dos Estados Unidos fala abertamente ‘odeio a interferência militar no Oriente Médio e é para isso que fui eleito, vamos acabar com isso’, não é difícil os iranianos entenderem que estão com muita margem de manobra.”

Al-Rubaie, ex-assessor de segurança nacional iraquiano, disse que duas guerras, bilhões de dólares gastos e milhares de vidas americanas perdidas deveriam ter feito do Iraque a “coroa” da política americana no Oriente Médio.

Mas, para ele, Trump não enxerga o Iraque e, em vez disso, enfoca apenas o grau de influência iraniana.

Os iraquianos “se sentem abandonados”, disse. “Sentem que os americanos os abandonaram, abandonaram o país à própria sorte.”

“Para os americanos, seus amigos são descartáveis”, afirma. “Você procura os americanos, e eles estão procurando a saída mais próxima. Você se volta para eles e não os encontra."

Tradução de Clara Allain

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