Descrição de chapéu Governo Trump

Mensagens revelam que Trump negociou visita à Casa Branca em troca de investigação contra Biden

Ex-enviado dos EUA à Ucrânia entregou novas conversas em depoimento de inquérito de impeachment

São Paulo e Kiev | Reuters

Novas mensagens trocadas entre diplomatas de Washington e Kiev reveladas nesta sexta-feira (4) deixam mais clara a pressão exercida pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para que o governo ucraniano investigasse a família do democrata Joe Biden.

A divulgação das conversas acontece no mesmo dia em que o novo procurador-geral da Ucrânia, Ruslan Ryaboshapka, anunciou a revisão de casos conduzidos por seus antecessores, incluindo o da Burisma, empresa de gás na qual Hunter Biden, filho do pré-candidato à Presidência, atuou como membro do conselho de administração. 

Os presidentes Volodimir Zelenski (Ucrânia) e Donald Trump (EUA), durante encontro em Nova York, à margem da Assembleia Geral da ONU - Jonathan Ernst - 25.set.19/Reuters

Segundo as mensagens, divulgadas pela Câmara dos Representantes dos EUA, Trump só aceitaria receber na Casa Branca o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, caso ele retomasse a investigação contra os Biden e a anunciasse publicamente.

Ex-vice-presidente de Barack Obama (2009 a 2017), Joe Biden é um dos principais pré-candidatos democratas à eleição presidencial de 2020 e um dos mais frequentes alvos de ataques de Trump. 

Embora as mensagens não citem os Biden nominalmente, congressistas democratas defendem que se trata de uma prova clara de que o presidente usou o poder da política externa dos EUA para tentar obter ganhos políticos pessoais. 


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A acusação é o ponto central do processo de impeachment contra o republicano, que começou após um delator ter avisado superiores de que havia algo suspeito em uma conversa de Trump com o presidente ucraniano.

Nesta sexta, duas fontes disseram ao New York Times que uma segunda autoridade do setor de inteligência está considerando testemunhar no Congresso sobre o caso.

Segundo o jornal, ele é uma das pessoas ouvidas no inquérito para corroborar as declarações do primeiro informante e possui mais informações diretas do que ele sobre os fatos que geraram a denúncia. 

As novas mensagens reveladas nesta sexta foram entregues aos deputados pelo ex-enviado especial dos EUA à Ucrânia Kurt Volker, que depôs a portas fechadas no Congresso nesta quinta-feira (3).

Em uma delas, de 25 de julho, horas antes do telefonema entre Trump e o líder ucraniano, Volker escreveu a Andrey Yermak, assessor de Zelenski.

“Ouvi a Casa Branca dizer —supondo que o presidente Z convença Trump de que ele investigará / ‘irá a fundo no que aconteceu’ em 2016, definiremos a data da visita a Washington.” O contato mostra que o governo americano condicionou a ida à Casa Branca à retomada das apurações.

Duas semanas depois do telefonema, ainda não havia acordo para a visita de Zelenski à Casa Branca, e os diplomatas buscavam formas de convencer os ucranianos a atender o pedido de Trump.

Outra mensagem entregue por Volker mostra que Gordon Sondland, embaixador dos Estados Unidos para a União Europeia, sugeriu em 9 de agosto que Zelenski organizasse uma entrevista coletiva para anunciar a retomada da investigação. 

Sondland e Volker não só recomendaram o anúncio como também elaboraram um rascunho de parte do discurso que o presidente ucraniano faria na ocasião.

“Nós pretendemos iniciar uma completa, transparente e imparcial investigação sobre todos os fatos e episódios disponíveis, incluindo aqueles que envolvem a Burisma e as eleições dos EUA de 2016, o que evitará que esse problema aconteça novamente no futuro”, escreveu Volker. Sondland respondeu: “Perfeito”.

Assim como fizeram com o agora ex-enviado especial, os deputados democratas pediram à Casa Branca que fornecesse documentos sobre o caso. Como o prazo estabelecido pelos comitês da Câmara —esta sexta-feira— não foi respeitado, o governo americano foi intimado a fazê-lo. 

“Parece claro que o presidente escolheu o caminho da provocação, da obstrução e do acobertamento”, afirmam, em carta, os presidentes dos comitês da Câmara, responsáveis pelo inquérito.

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, também perdeu o prazo para entregar documentos sobre a relação EUA-Ucrânia, segundo a CNN. O comitê de Relações Exteriores da Câmara afirmou, no entanto, que o Departamento de Estado entrou em contato e que eles esperam sua total cooperação.

 
Muitos registros requeridos contêm informações sensíveis e normalmente seriam declarados sigilosos.

Os presidentes dos comitês também requisitaram ao vice-presidente do país, Mike Pence, uma longa lista de documentos sobre as tratativas do governo com a Ucrânia.

O material tem o potencial de revelar se Pence participou do diálogo com Kiev.

“Recentemente, relatórios públicos levantaram dúvidas sobre qual papel o senhor [Pence] teria desempenhado, se reforçou ou transmitiu a mensagem do presidente [Trump] ao presidente ucraniano”, escreveram os democratas Adam Schiff.

Ainda nesta sexta, o inspetor-geral da Inteligência Nacional, Michael Atkinson, se reuniu a portas fechadas com congressistas no Capitólio. 

Ele foi o primeiro a receber a denúncia anônima que embasou o pedido de impeachment —e conduziu uma pré-investigação para verificar a validade das acusações .

Os democratas esperam que a colaboração de Atkinson ajude nos esforços de construir uma narrativa detalhada dos contatos entre Casa Branca e autoridades ucranianas. 

Atkinson já havia se encontrado com deputados do Comitê de Inteligência da Câmara, mas, à época, não estava autorizado a comentar detalhes da queixa.

À luz das novas informações divulgadas nos últimos dias, o senador republicano Mitt Romney (Utah), um dos poucos membros do partido de Trump que tem criticado a conduta do presidente, condenou os comentários feitos pelo republicano na quinta (3).

O presidente americano disse que os negócios de Hunter Biden com Pequim deveriam ser apurados. 

“Quando o único cidadão americano que o presidente Trump escolhe para ser alvo de uma investigação feita pela China é seu adversário político, durante o processo de escolha do candidato democrata [à eleição de 2020], é difícil acreditar que esse ato não tem motivação política”, afirmou o congressista, em nota.

“O apelo agressivo e sem precedentes do presidente à China e à Ucrânia para que investiguem Joe Biden é errado e deplorável”, completou.

Revisão do caso

O procurador-geral da Ucrânia, Ruslan Ryaboshapka, disse nesta sexta (4) que pretende rever diversos casos importantes que foram analisados por seus antecessores nos últimos anos, entre eles a investigação que pode estar relacionada à Burisma, empresa na qual Hunter Biden atuou como membro do conselho de administração.

No entanto, o procurador, que assumiu o cargo em agosto, disse não ter conhecimento de nenhuma conduta irregular de Hunter e que não foi contatado por advogado estrangeiro sobre esse tema. 

O filho de Biden trabalhou na Burisma Holdings, uma das maiores companhias de gás da Ucrânia, de 2014 —quando seu pai ainda era vice de Obama— até o meio deste ano.

A empresa foi investigada pelas autoridades ucranianas, mas Hunter não era o alvo do inquérito. Nunca foi encontrada nenhum irregularidade envolvendo o filho do pré-candidato democrata.

Durante seu mandato como vice-presidente, Biden pai pressionou a Ucrânia para demitir o então procurador-geral, argumentando que ele estava envolvido em corrupção. Ele foi substituído em 2016.

Rudy Giuliani, advogado pessoal de Trump, e o presidente afirmam que as ações de Biden visavam a proteger seu filho e não tinham nenhuma relação com a agenda diplomática americana de combate à corrupção na Ucrânia.

O advogado pessoal de Trump se reuniu várias vezes com autoridades ucranianas, dentro e fora do país, em seus esforços de comprometer a imagem de Biden e aumentar as chances de reeleição de Trump em 2020.

Com informações do New York Times

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