Trump sediará próximo encontro do G7 em resorts cujo dono é ele mesmo

Uso de propriedade do presidente desperta acusações de possível conflito de interesse

Washington | The New York Times

O presidente Donald Trump receberá a reunião do G7 (grupo dos sete países mais industrializados do mundo) no próximo ano, em junho, no Trump Doral, seu hotel de luxo perto de Miami, disse nesta quinta-feira (17) o chefe de gabinete interino do presidente, Mick Mulvaney.

Mulvaney disse que o presidente considerou a possibilidade de "criticismo político" por escolher o resort, mas que Trump o escolheu mesmo assim porque funcionários da administração consideraram hotéis por todo o país e concluíram que esse era, "de longe, a melhor instalação física para essa reunião".

Entrada do resort Trump National Doral, na Flórida - Michele Eve Sandberg - 3.abr.2018/AFP

"É quase como se eles tivessem construído esse complexo para sediar esse tipo de evento", disse Mulvaney em entrevista coletiva. 

O chefe de gabinete disse que a questão não gera conflito de interesses. "O presidente deixou claro que não teve lucro desde que está aqui."

 
No entanto, Jerrold Nadler, democrata que lidera o Comitê de Justiça da Câmara, disse que ao receber uma reunião com os líderes mundiais e suas equipes, que somam centenas de pessoas, a Casa Branca teria potencialmente violado cláusulas da Constituição, que proíbe presentes ou pagamentos de governos estrangeiros.

O anúncio "está entre os exemplos mais descarados da corrupção do presidente", disse Nadler. "Ele está explorando sua posição e tomando decisões de governo para obter ganhos financeiros pessoais."

Realizar o evento no Doral força governos estrangeiros a pagar à família Trump para poder ficar em seu resort, disse Deepak Gupta, advogado constitucionalista. Ele está envolvido em dois processos que acusam Trump de violar a Constituição ao aceitar pagamentos de governos estrangeiros em seus hotéis. 

"Isso é indefensável", disse Gupta. "A mistura de interesses privados e ações oficiais que temos visto desse presidente é flagrante."

Sediar a reunião do G7 pode proporcionar uma receita inesperada para a Organização Trump e destacar o perfil do resort em todo o mundo.

"A marca de Donald Trump já é bastante forte", disse Mulvaney quando questionado sobre possíveis críticas. "É o nome mais reconhecido no idioma inglês."

O presidente esteve preparando publicamente as bases para sediar a reunião. Na cúpula deste ano, realizada em Biarritz, no sul da França, Trump sugeriu que seu luxuoso hotel de golfe seria um "ótimo lugar" para a próxima reunião.

"Tem uma área incrível, muitas centenas de acres, de modo que poderemos lidar com qualquer coisa que aconteça", disse Trump. "As pessoas estão realmente gostando e, além disso, possui prédios com 50 a 70 unidades. Assim, cada delegação pode ter seu próprio prédio."

Relatórios financeiros obtidos pelo New York Times como parte de processos fiscais mostraram que a propriedade perdeu US$ 2,4 milhões em 2014. As Organizações Trump não têm divulgado seus lucros nos últimos anos.

O resort foi o patrimônio que mais gerou dinheiro entre as propriedades da família Trump, que incluem hotéis, campos de golfe e prédios de escritórios. Ele gerou US$ 75,96 milhões em 2018, acima dos US$ 74,76 em 2017. Mas ambos os números são de faturamento, não de lucro.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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