Descrição de chapéu The Washington Post Venezuela

Afinal, Maduro é o mentor ou o bode expiatório dos protestos na América Latina?

Acusado de ser responsável pela onda de atos, venezuelano vê adversários regionais enfrentarem problemas

Patricia Garip Rachelle Krygier Anthony Faiola
Santiago e Washington | The Washington Post

Enquanto as ruas da América do Sul se tumultuam na pior crise social da região em anos, um coro de críticos de direita está condenando o que consideram um elo irrefutável: a mão nefasta do presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Na verdade, os líderes regionais que um dia se uniram para tentar derrubar Maduro hoje sofrem em suas próprias terras, enquanto os aliados regionais socialistas da Venezuela estão de repente em ascensão.

Mas Maduro será mesmo uma figura do tipo Coringa, orquestrando protestos cada vez mais violentos a partir de seu covil em Caracas? Ou é o bode expiatório perfeito para explicar a verdadeira raiva que hoje se alastra por vários países da América do Sul?

Nicolás Maduro participa de evento com movimentos sociais em Caracas
Nicolás Maduro participa de evento com movimentos sociais em Caracas - 20.out.19/Presidência da Venezuela/Xinhua

A resposta, segundo mais de uma dúzia de autoridades, políticos, analistas e manifestantes entrevistados em vários países, talvez seja um pouco das duas coisas.

"Acho que o que está acontecendo é principalmente o produto de circunstâncias nacionais", disse Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano, com sede em Washington.

"Isso não significa que não haja agitação externa. Mas colocar a culpa lá fora é ignorar a questão de que há problemas domésticos fundamentais que podem ser responsáveis por toda essa inquietação."

Autoridades de alto escalão do Equador, do Chile, da Argentina e de outros países, entretanto, acusam Maduro pelo surto de graves protestos de rua —incluindo o caos atual no Chile, país normalmente estável, onde pelo menos 20 pessoas morreram em duas semanas de confrontos com as forças de segurança, e que nesta semana tomou a séria decisão de cancelar importantes cúpulas globais sobre comércio e mudança climática programadas para novembro e dezembro.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma ligação nesta semana com o presidente chileno, Sebastián Piñera, denunciou "esforços estrangeiros" não especificados para minar as instituições, a democracia e a sociedade chilenas.

Michael Kozak, secretário-assistente interino do Departamento de Estado para assuntos do hemisfério ocidental, pareceu culpar os russos, dizendo à agência de notícias EFE: "Identificamos nas redes sociais contas falsas que emanam da Rússia, pessoas que fingem ser chilenas, mas na realidade todas as mensagens que passam tentam minar as instituições e sociedades chilenas".

Maduro, que lidou com sérias rebeliões neste ano, vacilou entre parecer reivindicar o crédito pelos vários levantes no exterior e zombar das acusações de seus inimigos.

A certa altura, ele descreveu a turbulência regional como parte de um plano elaborado em um encontro da esquerda radical latino-americana organizado por seu governo em Caracas, em julho —o chamado Foro de São Paulo.

Mas ele também brincou. "Eles acham que eu mexo meu bigode e derrubo governos. Estou pensando: 'Qual é o próximo governo que quero derrubar?'"

Maduro, um autocrata de esquerda que foi classificado como usurpador e alvo de uma tentativa de derrubada apoiada pelo governo Trump e seus aliados regionais, pode pelo menos contemplar uma região fumegante e ver uma paisagem muito menos perigosa para seu futuro do que alguém poderia prever apenas algumas semanas atrás.

Dois de seus críticos regionais mais veementes —o presidente do Equador, Lenín Moreno, e Piñera, do Chile— viram sérias ameaças contra seus governos na forma de protestos de rua em larga escala neste mês contra a alta dos preços de gás, transporte público, eletricidade e outros serviços.

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, que pediu a renúncia de Maduro, perdeu sua candidatura à reeleição no último fim de semana para uma chapa peronista de esquerda que inclui a ex-presidente Cristina Kirchner, antiga aliada dos socialistas da Venezuela.

O presidente boliviano, Evo Morales, um firme defensor de Maduro, venceu as eleições em seu país.

Os adversários de Maduro afirmam que isso não é coincidência.

No Chile, na semana passada, Piñera disse que o país está "em guerra contra um inimigo poderoso" que "está disposto a usar a violência e a criminalidade sem limites, mesmo que isso signifique a perda de vidas".

Ele não especificou quem é o inimigo, mas a mensagem foi interpretada como uma sugestão de que Maduro estaria por trás da violência que assolou o país mais bem-sucedido da região.

Luis Almagro, secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), acusou categoricamente Caracas de intenção subversiva.

"Os ventos do regime bolivariano pressionados pelo madurismo e o regime cubano trazem violência, saques, destruição e um objetivo político de atacar diretamente o sistema democrático e tentar forçar a interrupção dos mandatos constitucionais", afirmou ele na semana passada. "Vimos essas tentativas documentadas no Equador e na Colômbia, e agora no Chile."

Moreno, do Equador, foi mais longe, alegando que Maduro está trabalhando com o ex-presidente Rafael Correa —inimigo de Moreno— para orquestrar um "golpe" em Quito. Ele afirmou que a dupla enviou de "200 a 300" agentes disfarçados de migrantes venezuelanos para semear o caos e derrubar seu governo.

Promotores em Quito estão investigando possíveis ligações venezuelanas com US$ 740 mil (R$ 2,94 milhões) em dinheiro que, segundo pessoas familiarizadas com a investigação, deveriam ser gastos em atividades antigovernamentais.

As autoridades equatorianas detiveram vários políticos de esquerda que participaram da cúpula de Caracas. Mas ainda precisam sustentar com provas muitas de suas denúncias (as autoridades equatorianas não responderam a pedidos de comentários). 

De fato, algumas afirmações provaram ser tudo menos concretas. A ministra do Interior, María Paula Romo, por exemplo, anunciou a prisão de 17 estrangeiros em 10 de outubro, incluindo vários venezuelanos, no aeroporto de Quito durante o auge dos tumultos no Equador. Mas todos, exceto dois, foram posteriormente libertados por um juiz por falta de provas.

"Alguns deles eram apenas motoristas venezuelanos do Uber que buscavam pessoas no aeroporto", disse Sebastián Hurtado, presidente da consultoria política equatoriana Profitas.

"Acho que o relacionamento existe, que Correa pediu o apoio de Maduro", afirmou. "Mas que tipo de apoio e como está funcionando é uma pergunta difícil de responder."

Amauri Chamorro, consultor político que trabalhou com Correa e outros líderes de esquerda, participou da cúpula de Caracas. Ele descartou como "ridículas" as teorias de que ela provocou inquietação em todo o continente.

"Acreditar que o Foro de São Paulo determinou, ordenou e coordenou, e —o mais ridículo de tudo— financiou o que aconteceu [no Chile e no Equador] é uma fantasia", afirmou. "Primeiro, o foro não discute esse tipo de coisa. Segundo, o Foro de São Paulo não tem capacidade de gerar isso. E terceiro, seria ignorar completamente o que realmente está acontecendo nesses países. Seria um erro analítico grotesco."

Guillermo González, presidente do Partido da Igualdade do Chile, disse que foi um dos 10 a 15 chilenos que participaram da cúpula. Eles pagaram pela viagem, mas o governo venezuelano os colocou em um hotel estatal.

González expressou admiração pela Venezuela e condenou os líderes regionais que tentaram depor Maduro. Mas insistiu que "não há venezuelanos" envolvidos no movimento social que abala o Chile há quase duas semanas.

"O que está acontecendo no Chile está acontecendo em todos os lugares", disse ele. "O sistema entrou em colapso porque as pessoas não estão comendo, ou comem só macarrão e arroz. Elas não têm moradia nem assistência médica."

Rodrigo Perez, 18, estudante do ensino médio no Chile, ajudou a organizar a campanha de saltar catracas em meados de outubro para protestar contra um aumento de tarifas do metrô que levou à agitação mais ampla que continua assolando o país.

Ele descreveu os protestos como totalmente orgânicos —uma resposta ao aumento do custo de vida e à forte desigualdade em um dos países mais ricos, mas mais desiguais da América Latina.

A queima de estações de metrô em outubro foi uma "surpresa" para os estudantes organizadores, disse ele.

"Temos perguntas sobre esses incêndios, mas o descontentamento social vem crescendo porque as políticas públicas ignoram a educação", afirmou. "Então os estudantes estão ficando mais radicalizados, há uma grande frustração."

No Chile, estudantes e sindicalistas envolvidos nos protestos dizem que não veem a Venezuela —um Estado falido, dirigido por um elenco de personagens, incluindo supostos narcotraficantes—  como um modelo a seguir.

"O chavismo da Venezuela não é socialismo, é o capitalismo vestido de socialismo", disse Simon Bousquet, 32, especialista em TI e líder sindical que participou dos protestos chilenos, referindo-se ao tipo de socialismo da Venezuela que leva o nome de Hugo Chávez, o falecido fundador de seu Estado socialista.

"A Venezuela passou de um governo neoliberal para uma burocracia", disse ele. "Não é um modelo para se imitar."

No entanto, há poucas dúvidas de que as forças de esquerda, quer influenciadas pelos venezuelanos e cubanos quer não, tentaram aproveitar o ímpeto do protesto para promover suas próprias agendas, incluindo demandas por uma nova Constituição no Chile.

"Em grandes ciclos de protesto como este, muitos interesses entram em jogo", disse Miguel Ángel Martínez Meucci, cientista político na Universidade Austral do Chile.

"Para alguns desses atores, o objetivo não é obter melhorias sociais, mas subverter a ordem instituída e propiciar o surgimento de outra, ou mesmo alimentar as agendas radicais que facilitariam seu caminho para o poder."

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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