Descrição de chapéu The Washington Post Governo Trump

Agência dos EUA cria universidade falsa e prende 250 pessoas a quem havia dado vistos

Instituição atraía estudantes estrangeiros que tentavam ficar no país como estudantes

Katie Mettler Antonia Noori Farzan
The Washington Post

Há 11 meses, documentos judiciais federais liberados revelaram que autoridades de imigração dos Estados Unidos criaram uma universidade falsa para atrair universitários nascidos no exterior que estavam tentando permanecer no país com vistos de estudante possivelmente ilegais.

A Farmington University, escola fictícia que a ICE (Agência de Imigração e Alfândega, na sigla em inglês) promoveu como sendo um centro de estudos científicos, tecnológicos e matemáticos para estudantes que quisessem se matricular e “não interromper sua carreira”, tinha nome falso, site falso e um lema falso sobre seu selo falso.

“Scientia et Labor” dizia o selo –conhecimento e trabalho.

Em janeiro de 2019, oito pessoas que teriam trabalhado como recrutadoras da escola e ajudado ao menos 600 estudantes a permanecer no país "sob falso pretexto" foram acusadas de conspiração federal.

Ao mesmo tempo o Detroit News noticiou que dezenas de estudantes da Farmington University, muitos deles indianos, foram detidos por violações das leis de imigração e poderiam ser deportados.

Agora, de acordo com a agência, esse número já subiu para cerca de 250 universitários.

Essas prisões foram feitas entre janeiro e julho, afirmou a ICE em comunicado noticiado primeiramente pelo Detroit Free Press e ao qual o Washington Post teve acesso. A maioria das prisões foi feita em fevereiro, segundo as autoridades.

Quase 80% dos detidos teriam optado por deixar os EUA voluntariamente, segundo o comunicado.

Outros 10% dos alunos da Farmington University receberam uma “ordem final de remoção”, decretada por um juiz de imigração ou pela Customs and Border Protection (Agência de Alfândega e Proteção das Fronteiras, na sigla em inglês).

Os 10% remanescentes contestaram sua deportação encaminhando pedidos de assistência jurídica ou abrindo um procedimento junto ao Escritório Executivo de Revisão de Imigração.

Sete dos oito recrutadores se confessaram culpados e foram sentenciados a penas de prisão, disse ao Detroit Free Press um porta-voz do ICE em Detroit, Khaalid Walls.

Dois deles foram condenados a 18 meses de prisão, dois a um ano de prisão, um a um ano de três meses meses e outro a dois anos. 

O sétimo da lista, Prem Rampeesa, 27, foi sentenciado na semana passada a um ano de prisão, mas já passou 295 dias detido, de modo que provavelmente será solto em dois ou três meses e então deportado para a Índia, disse ao Detroit Free Press sua advogada Wanda Cal.

Ainda segundo o jornal, Phanideep Karnati, 35, será julgado em janeiro de 2020.

Não está claro se todos os recrutadores serão deportados após cumprirem suas sentenças. As autoridades migratórias federais direcionaram perguntas sobre os processo judiciais a um procurador.

O gabinete do procurador do Distrito Leste do Michigan não respondeu a um pedido de informações do Washington Post.

Em sua declaração, o ICE disse que a Farmington University foi criada para munir o Departamento de Segurança Interna de “evidências de fraude em primeira mão”.

“Escolas falsas nos possibilitam entender como estudantes e recrutadores tentam explorar o sistema de vistos de estudante não imigrante”, afirmou a agência. 

Mas Rahul Reddy, um advogado do Texas envolvido nos processos desses estudantes, disse ao Detroit News que as autoridades americanas no comando da operação da falsa Farmington University vitimaram estudantes inocentes.

“Não deveriam punir essas pessoas que foram atraídas para uma armadilha”, disse Reddy, advogado de Houston que representou ou aconselhou cerca de 80 estudantes que foram detidos.

“Essas pessoas nem sequer têm como se defender, porque não recebem os mesmos direitos em procedimentos de deportação.”

Como o Washington Post já divulgou anteriormente, nos documentos judiciais cuja divulgação foi liberada neste ano os promotores argumentaram que os estudantes sabiam que a escola era falsa.

Eles teriam optado por matricular-se nela mesmo assim porque isso lhes permitiria permanecer no país com vistos F-1 de não migrantes, que autorizam estrangeiros a residir nos EUA temporariamente enquanto estudam em instituições credenciadas.

Khaalid Walls, um porta-voz da ICE em Detroit, disse à emissora local WXYZ em janeiro que os estudantes entraram nos EUA legalmente com vistos F-1 depois de se matricularem em escolas legítimas e que posteriormente se transferiram para a Farmington University.

Os oito recrutadores teriam ajudado a criar documentação falsa, incluindo históricos escolares, para que os estudantes pudessem apresentá-los às autoridades de imigração.

Nos documentos originais de indiciamento, as autoridades disseram que os recrutadores coletivamente receberam mais de US$ 250 mil (cerca de R$ 1,05 milhão) por seu trabalho, sem saber que o dinheiro vinha na realidade de agentes secretos a serviço da HSI (Investigações de Segurança Interna, na sigla em inglês), uma divisão da ICE.

A operação sigilosa, conhecida como Paper Chase (perseguição a documentos), foi conduzida por vários anos antes dos indiciamentos de janeiro.

O Detroit News divulgou que a falsa universidade foi criada em 2015, mas apenas em 2017 agentes da HSI começaram a se fazer passar por funcionários da instituição.

Vista de fora, a Farmington University aparentava ser legítima.

Seu site falso mencionava o número de línguas faladas pelo reitor (quatro) e o número de aulas dadas pelos assistentes letivos (zero). Fotos do campus mostravam estudantes sentados com livros em um campus gramado ou participando de discussões numa biblioteca moderna e bem iluminada.

As mensalidades cobradas eram razoáveis –US$ 8.500 (R$ 35,6 mil) ao ano para estudantes de graduação e US$ 11 mil (R$ 46 mil) ao ano para pós-graduandos.

Mas não havia aulas ministradas na universidade, que não empregava professores ou instrutores.

Seu suposto campus consistia de um pequeno escritório em um parque empresarial em Farmington Hills, Michigan, um subúrbio de Detroit, sem gramado ou biblioteca à vista.

Promotores alegaram que Farmington “estava sendo utilizada por cidadãos estrangeiros como um esquema de ‘pagar para jogar’”. 

Os estudantes pagavam milhares de dólares à universidade e então mostravam às autoridades de imigração os comprovantes de que estavam matriculados em um programa educacional em regime de tempo integral. Com isso, podiam continuar a viver e trabalhar nos EUA com vistos de estudante.

A lista do Departamento de Segurança Interna de escolas certificadas em que estudantes internacionais podem se matricular incluía a Farmington University.

Reddy disse ao Free Press que o governo americano “ganhou muito dinheiro” com esses estudantes estrangeiros.

Na semana passada, no tribunal, a advogada de Rampeesa disse que cliente está arrependido e que ele é “uma pessoa boa que se viu envolvida numa má situação”, segundo o Free Press.

Ele foi aos EUA de forma legal, inicialmente, e gastou US$ 40 mil (R$ 167 mil) para receber um mestrado em 2016 da Northwestern Polytechnic University, que mais tarde foi descredenciada.

“Ele estava desesperado para encontrar uma maneira de permanecer nos EUA”, escreveu a advogada na defesa.

Rampeesa afirma que acreditava estar trabalhando com funcionários da universidade, mas na realidade eram funcionários de imigração disfarçados. Ele diz ter acreditado que estava recebendo créditos por recrutar outros estudantes, disse sua advogada.

“Estou envergonhado”, escreveu ele em carta na qual pediu leniência em sua audiência de sentenciamento, segundo o Free Press.

“Tomei uma decisão péssima que envergonhou o nome de minha família.”

Tradução de Clara Allain 

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