Descrição de chapéu The New York Times

Campeonato na Croácia premia quem fuma um charuto mais lentamente

Competidores de mais de 40 países participaram de disputa em agosto

Andrew Keh
Split (Croácia) | The New York Times

A máquina de fumaça parecia redundante. Era o Campeonato Mundial de Fumantes de Charutos. Já havia muita fumaça.

Mas lá estava ela, ao lado das luzes laser e do sistema de som estridente, soltando uma neblina branca pelo salão de baile no subsolo de um hotel onde pessoas de smokings e vestidos de noite, representando mais de 40 países, se reuniram para descobrir quem dentre eles conseguia fumar um charuto mais devagar.

Para Marko Bilic, o dono tagarela de um salão de charutos, o barulho, a pompa e os prêmios cintilantes avaliados em dezenas de milhares de dólares estão muito longe da gênese do evento, dez anos atrás, quando 17 pessoas vieram experimentar um "esporte" que ele acabara de inventar.

Quando a edição mais recente foi realizada, na última semana de agosto, havia quase 250 participantes, muitos dos quais tinham competido em um dos 34 eventos classificatórios realizados em todo o mundo neste ano.

Competidores acendem seus charutos durante o 10º Campeonato Mundial de Charutos, em Split, na Croácia
Competidores acendem seus charutos durante o 10º Campeonato Mundial de Charutos, em Split, na Croácia - Pete Kiehart/The New York Times

"Os melhores fumantes do mundo estão aqui nesta noite", declarou Bilic depois que todas as regras foram recitadas e o primeiro charuto cerimonial foi cortado. "Vamos ver o que eles sabem fazer."

Os fumantes acenderam seus fósforos. A sala ficou em silêncio. O relógio contava a partir do zero, e nas várias horas seguintes, os competidores ficaram ali sentados, olhando para as brasas em silêncio, observando-as queimar.

Os seres humanos são naturalmente competitivos. Foi o que Igor Kovacic, que detém o recorde mundial de fumar charutos vagarosamente (3 horas, 52 minutos e 55 segundos), explicou alguns minutos antes do início da competição, andando em um corredor com fones de ouvido, ouvindo Rage Against the Machine no volume máximo.

"Eu preciso ficar com raiva, e depois a coloco na competição", disse ele. "Quase não gosto de mim quando estou competindo. Parece que vou matar alguém. Não sou esse tipo de cara."

O charuto que você escolhe ou o lugar onde está sentado em uma sala fazem diferença. Mas também há lugar para habilidade, estratégia e instinto. É preciso ler a maneira como um charuto queima, interpretar o calor que emana de sua pele e avaliar o peso a cada tragada.

As pessoas treinam seriamente para isso.

"Atletismo ou levantamento de peso são os únicos esportes em que as pessoas estão realmente competindo contra os limites físicos", disse Bilic.

"Mas para esportes como futebol e críquete existem regras criadas por seres humanos e, no âmbito dessas regras, as pessoas tentam ser as melhores. É a mesma coisa entre fumantes de charutos."

Kovacic, 48, gerente de projetos de infraestrutura em Gotemburgo, na Suécia, conquistou o recorde mundial no início deste ano do americano Darren Cioffi, que o deteve por oito vezes.

A rivalidade acalorada constituiu a principal história competitiva do fim de semana.

Em um terraço de hotel com vista para o mar Adriático, Cioffi confessou que estava achando "difícil relaxar".

A competição pesava sobre ele. Queria se divertir. Estava entre amigos. Mas havia muitas pessoas que ficariam felizes em vê-lo perder, disse.

Proprietário de uma marca de charutos em Nashville, no Tennessee, Cioffi entrou no campeonato pela primeira vez em 2014 "porque parecia uma maluquice".

Ele acabou vencendo e atribuiu sua habilidade (além de simplesmente conhecer bem os charutos) a sua "visão de perto muito boa", que ele aprimorou em um trabalho paralelo como negociante de papéis antigos. 

Há pessoas como Cioffi em todo esporte: estrelas relutantes, dilaceradas entre sentir-se responsáveis por compartilhar um dom cósmico —no caso de Cioffi, poder fumar um charuto muito, muito devagar— e querer uma vida mais simples.

Os charutos estavam por toda parte, é claro. Eram o principal equipamento competitivo. Eles estavam entre os prêmios. Foram aperitivos, acompanhamentos e sobremesas no jantar após a partida. Havia charutos de vitória. Havia charutos de derrota.

Uma vez em andamento, o concurso inspirou uma série criativa de estilos de fumar. Os competidores embalavam as brasas entre os dedos, como vaga-lumes.

Eles erguiam os charutos acima da cabeça, perpendiculares ao chão, e os tocavam com os lábios como se estivessem chupando sorvete da ponta quebrada de uma casquinha.

Cioffi assumiu sua própria pose competitiva —sentado de lado na cadeira, cotovelo apoiado no joelho, charuto a centímetros do rosto, o Pensador de smoking preto— e mal se mexeu durante horas.

A competição chegou à quarta hora. Cioffi saiu em quarto lugar, terminando em pouco mais de três horas.

A chama de Kovacic foi extinta bem antes disso, às 2 horas, 27 minutos e 23 segundos. Ao longo de tudo, Bilic manteve seu comentário implacável —"É a contagem regressiva final! Cada baforada conta!"— à medida que os olhos dos demais concorrentes ficavam vermelhos e lacrimejantes.

Competidores, patrocinadores e outros participantes em jantar na noite anterior ao 10º Campeonato Mundial de Charuto, em Split, na Croácia
Competidores, patrocinadores e outros participantes em jantar na noite anterior ao 10º Campeonato Mundial de Charuto, em Split, na Croácia - Pete Kiehart/The New York Times

No final, foi Oleg Pedan, 29, proprietário de um salão de charutos em São Petersburgo, na Rússia, quem sobreviveu, fumando por 3 horas, 26 minutos e 46 segundos.

Ele parecia um boxeador exausto quando Bilic levantou seu braço esquerdo no ar. A máquina de fumaça lançou uma explosão comemorativa pela sala.

"Oleg Pedan!", gritou Bilic. "O campeão mundial!"

A declaração, dado o ambiente, dado... tudo, parecia um pouco absurda. No entanto, Bilic estava apenas empregando a mesma lógica sem sentido que, entre outras coisas, encorajou a liga de beisebol dos EUA a chamar seu campeonato de World Series.

Mais tarde, Pedan e sua mulher, Anna, estavam à beira da piscina, onde os competidores se reuniram para uma festa com champanhe depois da fumaceira.

Um conjunto de instrumentos de sopro de cinco peças apareceu por trás de uma tela e tocou "We Are the Champions". Muitas pessoas cantaram junto.

"Sinto-me um pouco vazio", disse Pedan. "É como os exames na escola: você se prepara durante muito tempo e, quando termina, sente-se vazio. Estou feliz. Mas não entendo totalmente o que fiz."

Fogos de artifício apareceram no céu acima da praia. Ele apertou a mão de sua mulher e a beijou no rosto.

Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves 

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