Apoiadores de Evo tomam La Paz aos gritos de 'guerra civil'

Manifestantes carregam pedaços de pau e montam fogueiras e barricadas

La Paz

Apoiadores de Evo Morales protagonizaram nesta segunda-feira (11) uma reação violenta contra os opositores Carlos Mesa e Luís Fernando Camacho e contra o Congresso Nacional na sequência da renúncia do agora ex-presidente, anunciada no domingo (10).

Centenas de moradores da cidade de El Alto começaram a descer em direção a La Paz, correndo pelas vias tortuosas que ligam as duas em meio ao cenário andino, com o objetivo de chegar à sede do governo boliviano. Eram apoiadores de Evo, que gritavam “Agora sim, guerra civil, agora sim, guerra civil”, enquanto outros repetiam “Mesa, Camacho, queremos sua cabeça".

Manifestantes bloqueiam rua no centro de La Paz - Aizar Raldes/AFP

Alguns dos moradores de El Alto que falaram com a Folha, sem querer mostrar o rosto, disseram que a reação acontecia porque tiveram suas casas e comércios invadidos ou saqueados por apoiadores do opositor Camacho.

Eles carregavam bandeiras com as cores do Estado plurinacional boliviano e soltavam rojões. Também tocavam vuvuzelas e estavam armados com pedaços de paus. As poucas lojas e quiosques que estavam abertos pelo caminho fecharam suas portas, e havia gente correndo com medo de ser atropelada pela pequena multidão.

Em El Alto, no meio da tarde, as barricadas e as fogueiras já estavam montadas e acesas novamente. Havia uma maioria formada por homens, mas também famílias e algumas pessoas encapuzadas, preparando-se para descer para a cidade.

Outros grupos, por sua vez, organizavam-se para atacar outros estabelecimentos na própria cidade de El Alto.

Já na zona sul da capital, onde estão os bairros de classe média alta, os moradores ergueram suas próprias barricadas, e a polícia tentava deter os manifestantes. 

Garotos que estavam na linha de frente dos bloqueios em Calacoto mostraram à reportagem da Folha as marcas de tiros de borracha em seus corpos. Alguns estavam encapuzados e sem medo de fazer frente aos avanços dos manifestantes.

Policiais patrulham as ruas de La Paz nesta segunda-feira (11), um dia após a renúncia de Evo Morales - Ronaldo Schemidt/AFP

Ao longe, ouvia-se o som de disparos de bombas de gás lacrimogêneo e tiros de bala de borracha. Segundo a imprensa local, apenas nesta segunda-feira houve mais de 20 feridos nos protestos.

Pelo Twitter, depois de agradecer às "demonstrações espontâneas de apoio ao governo democrático que foi derrubado pelo golpe cívico-militar-policial", Evo tentou passar uma mensagem mais pacífica.

"Peço a meu povo, com muito carinho e respeito, que cuide da paz e não caia na violência de grupos que buscam destruir o Estado de Direito. Não podemos nos enfrentar entre irmãos bolivianos. Faço um chamado urgente para que se resolva qualquer diferença com o diálogo", escreveu o ex-presidente.

O comandante da polícia boliviana, Yuri Calderón, nomeado pelo governo de Evo, renunciou nesta segunda. Por ora, a polícia será comandada por uma junta interina, que, segundo comunicado divulgado à tarde, “tem a prioridade de retomar a calma no país”.

No começo da tarde, os cidadãos de El Alto se reuniram em vigílias em torno de fogueiras e começavam a se concentrar para uma marcha.

Não há relatos oficiais de feridos a tiros, embora o agora ex-presidente tenha publicado mensagem nas redes sociais na qual afirma que "a polícia sediciosa reprime com bala para provocar mortos e feridos".

"Minha solidariedade a essas vítimas inocentes, entre as quais uma menina e o heroico povo de El Alto, defensor da democracia. (...) Como em outubro de 2003, Carlos Mesa inaugura seu golpe de Estado com repressão para causar mortos e feridos em La Paz e em El Alto", escreveu no Twitter. 

A carta de renúncia de Evo, que anunciou a saída do cargo no domingo (10), pressionado por intensos protestos e pelas Forças Armadas do país, chegou à Assembleia Nacional às 13h (14h em Brasília), segundo informou o deputado Wilson Santamaría.

Havia expectativa de que os parlamentares dessem sequência ao processo —é preciso validar quem será o novo presidente e definir os próximos passos para a sucessão. Por enquanto, o país segue acéfalo.

A sessão no Congresso, no entanto, foi interrompida por volta das 16h (17h em Brasília) pelos manifestantes evistas que protestavam do lado de fora do local.

Antes de encerrar os trabalhos às pressas, a segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Áñez, que diz ser a próxima na linha de sucessão, afirmou que quer "pacificar o país", que o movimento das últimas horas foi "cidadão" e que pretende encaminhar uma "transição para novas eleições".

Formalmente, Áñez não tomou posse, mas ela diz ter apoio da polícia e estar em contato com as autoridades regionais.

Ela precisou ser retirada da Assembleia e levada a um local desconhecido. No fim da tarde, a própria Assembleia também foi evacuada.

A senadora saiu acompanhada de policiais e declarou que os legisladores pretendem tratar nesta terça-feira da renúncia de Evo e do vice dele, Álvaro García Linera. 

Áñez disse ainda que sua posse formal deve ocorrer na quarta-feira (13) e que tem o respaldo da polícia boliviana e das Forças Armadas para tomar esses próximos passos.

O governo do México, por meio de sua chancelaria, declarou que Evo pediu asilo político no país e que este foi aceito, segundo confirmou em comunicado o chanceler Marcelo Ebrard.

Mais cedo, o rival de Evo nas eleições, Carlos Mesa, disse que o país precisa de “uma saída democrática” e pediu que os manifestantes reunidos nas imediações da Assembleia Nacional e da Casa de Governo não impeçam os parlamentares do MAS (Movimento ao Socialismo) de circularem e terem acesso ao voto.

“Se eles não participarem, ganha força a narrativa de golpe de Estado, que é mentirosa, e queremos fazer as coisas de modo democrático e constitucional”, afirmou Mesa.

O ex-vice presidente Linera, que renunciou junto com Evo, denunciou que manifestantes querem queimar sua casa, que conta com uma biblioteca de 30 mil livros.

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