Costumávamos olhar para o Brasil como uma referência, diz ex-presidente colombiano

Ernesto Samper participa, ao lado de nomes da esquerda latino-americana, de reunião do Grupo de Puebla

Buenos Aires

Para "transformar um grupo de WhatsApp em uma reunião de verdade", como definiu o ex-presidente colombiano Ernesto Samper, o Grupo de Puebla se reúne pela segunda vez a partir desta sexta (8), em Buenos Aires, com dois objetivos principais: discutir a crise na Venezuela e "evitar que a Justiça continue a ser usada para perseguir líderes de esquerda".

Por isso, Samper, 69, cita os ex-presidentes Lula, no Brasil, e Cristina Kirchner, na Argentina, como exemplos de vítimas do uso do Judiciário, dentro do "avanço dos governos neoliberais contra a democracia", para atacar a esquerda.

Além do colombiano, estão na lista de convidados da reunião, que terá o presidente eleito Alberto Fernández como anfitrião, os ex-mandatários José Luis Rodríguez Zapatero (Espanha), José "Pepe" Mujica (Uruguai), Dilma Rousseff (Brasil), Rafael Correa (Equador) e Fernando Lugo (Paraguai). 

Ernesto Samper, ex-presidente da Colômbia - Sergio Lima/Folhapress

"A ideia não é substituir o Foro de São Paulo, que é algo mais institucional. O nosso [grupo] é um espaço de intercâmbio", afirma Samper. "Tampouco somos um sindicato ideológico. Cada um vai falar de seu país e ver os pontos de aproximação e as possibilidades de resolvermos problemas em conjunto, partindo de uma visão progressista do mundo."

Membro do Partido Liberal, Samper liderou a Colômbia durante tempos violentos, entre 1994 e 1998. Apesar de o narcotraficante Pablo Escobar ter sido morto um ano antes de ele assumir o cargo, ainda havia outros grupos criminosos na ativa, além de guerrilhas no interior do país.

O próprio ex-presidente foi alvo de investigações de que sua campanha teria sido financiada pelo cartel de Cali, denúncia que acabou sendo descartada pela Justiça.

Depois do período à frente do país, Samper foi eleito secretário-geral da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), função que ocupou de agosto de 2014 a janeiro de 2017.

O período final trabalhando no fórum criado sob liderança de Hugo Chávez coincide com o processo de esvaziamento do órgão, provocado em parte pela chegada ao poder de vários políticos de direita nos principais países da América do Sul.

Muitos desses nomes compõem o Grupo de Lima, reunião de 14 países das Américas dedicado a discutir saídas para a crise na Venezuela. Samper condena os movimentos "pró-pressão, pró-sanções" do bloco e defende que a saída para a crise humanitária "deve ser a do diálogo e da não ingerência, como propõem a União Europeia, o Grupo de Contato e o papa Francisco". 

Entre as propostas que devem constar do documento final da reunião do Grupo de Puebla, no domingo, está a de antecipação das eleições presidenciais venezuelanas e que os EUA deixem de impor sanções que prejudiquem a população do país.

Anteriormente, o ex-presidente colombiano chegou a participar de tentativas de diálogo entre a oposição e o ditador venezuelano, Nicolás Maduro.

"Não livro Maduro de sua responsabilidade, mas a oposição venezuelana é muito dura de lidar também, cheia de divisões internas e sempre pensando nos seus interesses particulares com relação ao poder. É preciso insistir no diálogo, ainda que não seja um caminho fácil."

Além de Venezuela, o Grupo de Puebla abordará a convivência entre líderes da região e Jair Bolsonaro, que Samper considera "um perigo para o Brasil e para os seus vizinhos".

O colombiano lamenta que tudo o que o presidente brasileiro disse durante a campanha esteja sendo reafirmado em seu governo, algo que, ele esperava, fosse retroceder.

Entre os itens da gestão Bolsonaro que Samper repudia estão as afirmações sobre a Amazônia e a hostilidade com a Argentina. "Mas o que é pior é que costumávamos olhar para o Brasil como uma referência, como uma nau que guiava as demais na região", diz ele.

"E agora percebemos que não podemos confiar em quem dirige essa embarcação. Isso afeta a todos os países latino-americanos."

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